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Não me consigo recordar de qual foi o Domingo em que o Correio da Manhã, voltando assim a dar provas de ser um irremediável pasquim sanguinário, ofereceu um desdobrável tão interessante que o guardei para futuras águas. Que são agora. Trata-se de um objecto tão singular que poderia servir como Case Study (ora aí está uma homenagem velada ao Ti Melo, que deixou o marketing para se dedicar ao grelo de couve, molhado à orvalhada, e que segundo os seus compinchas da Praia Grande, ter-se-á "encontrado", ou lá que merda quer isso dizer). Pois bem, vamos lá então study este case:
Na primeira face, há uma foto de uma gaja que até poderia ser engraçada, não fosse o casaco a dar-lhe ar de kenga. Ao lado, o texto: Se alguma vez sonhou possuir um magnífico casaco de vison, agora pode consegui-lo por muito menos do que imagina. Faço aqui o meu primeiro aparte para declarar, de uma vez por todas, que o meu sonho sempre foi possuir a Christina Muller à bruta e à canzana em cima de um torno mecânico da siderurgia nacional, mas não é agora, lá porque ela está mais barata, que o vou fazer. Está velha e eu tenho a roupinha no sabão, lá em casa, para enxaguar.
De seguida, o título: Sonhos de Vison, uma criação exclusiva de Lino Corelli. Não conheço o Sr. Corelli e imagino porquê. Ele que continue a desenhar casacos de peles que há-de morrer como o Camões, arrependido de não ter optado pelo saco de moedas (com essa também não me enganaram na primária. Toda a gente sabe que um manuscrito dos Lusíadas flutua, ao contrário de dobrões em ouro). Abaixo da foto da tal gaja, o coroar da coisa: Casaco comprido de cor demi-buff, confeccionado com dorsos de vison fêmea. Atenção que isto não é para todos. Não é cá a coxa, a cabecinha ou tampouco a virilha do bicho. SÓ o dorso! Agradeço ao Criador não ter pensado no vison como um animal que apenas haveria de ter pêlo na ponta da cauda, pois, caso contrário, em vez dos sessenta bichanos que são precisos para um casaco de peles tamanho S, teriam de perecer praí uns mil. Louvado sejas, ó men! Por outro lado, os restos (patinhas, cabecinhas, entranhazinhas e tudo que não o dorso) são dados a comer aos cães e gatos que também fazem boas "imitações" (pois não, não é verdade, isto). Por outro lado ainda, é muito melhor que assim seja. Se a pele fosse toda aproveitada, a morte do animal teria que se dar por electrocussão anal ou afogamento. Assim, uma pancada na cabeça resolve a coisa. Contanto já com o profissionalismo dos fornecedores (já que todos sabemos que, a outros níveis de emprego, há cozinheiros que cospem para os bifes que são devolvidos à cozinha porque estão mal-passados ou, no caso do meu amigo Milagres, que em Londres mijava para os perús que depenava se o chefe do matadouro o repreendesse por alguma coisa), é claro que não se mete a hipótese dos tratadores se divertirem um pouco à conta da desgraça alheia, arrancando olhinhos ou não se dando ao trabalho de verificar se o animal está devidamente morto antes de esfolar. E, não sendo eu um vison, acho que deve aleijar.
Fui elucidativo neste último parágrafo? O suficiente? Foi de propósito. Esta é a melhor parte, quando dou o 21 472 3000 para poderem ofender à vontade ou ART GALLERY (EDICLUBE), RUA DA INDÚSTRIA, 4, 2614-517 AMADORA, para os mais radicais que queiram munir-se de tacos de basebol ou cocktails molotov. Façam alguma coisa, mas façam! Bater nas senhoras que usam casacos de peles é bom sim senhor, sabe muito bem e tem uma forte componente de espectáculo mas, nessa altura, os 60 bichos já morreram!