terça-feira, dezembro 29, 2009

Kitzbühel, Tirol, Áustria, Dezembro de 2009 - Uma visão à dIAZ em 3 estórias e um iôdelêi iôdelêi iôdelêíhú - Estória Número DOIS

Estão -15ºC que já não me aquecem nem arrefecem. Pronto, apanharam-me, talvez arrefeçam, afinal, um poucachinho o queixo e a ponta do nariz que, sendo o meu, deverá considerar-se uma superfície considerável. O queixo, esse, é de dimensão e feitio normais, pelo que podemos avançar no que toca a colocar o leitor num plano imaginante equiparável ao do momento em causa. Que é por volta das 5h30 da manhã, quando o lusco fusco, esse magano amicíssimo do modo tungsten da Canon empresta ao céu aquele azul escurão sem que a iluminação pública tenha sido desligada. A neve, essa, também está intacta no passeio e sou eu que lhe tira os três, por hoje, num tão inspiracional crrrót crrrót quanto o shláp shláp a que nos remete a infeliz expressão que usei. Podia ter usado macular a alva superfície ou tatuar de humana presença o que a natureza preparou com tanto esmero mas agora já é tarde e, confissão ao fim de tantos anos de profissão, nunca apago o que escrevi. Só às vezes. Muitas. O tripé é, agora, o meu principal inimigo. Agride-me violentamente de cada vez que o transporto daqui para ali com queimaduras nos dedos infligidas em sucessivos upper cuts de boxeur dopado, preferia mil vezes uma chapada de mão aberta do Tarzan Taborda, principalmente agora que está morto e resta apenas aquele baluarte na Fonte da Telha, um prédio onde ainda se pode ler que, em tempos, cuidou das costas das pessoas com arte. Arte dele. Está, pois, na hora do pequeno-almoço no hotel e faço aqui uma consideração, que se provará, adiante, propositada, do que são, para mim, duas provas máximas de civilização: 1. Croissants-como-deve-ser, que é mais do que os cruássans tugas, meias-luas de massa idêntica à do pão-de-deus e merendas-mistas e só não de palmiers (ou palmiéres, vá) porque não lhes deu para isso. Croissants-como-deve-ser são leves pedaços de pecado com apenas ar entre cada uma das mil folhas, tão vazio daquele peso que por cá grassa como cheio de gordura que lustra as mãos a cada dentada consciente de todo o pecado que esse acto acarreta... 2. O facto de haver uma sala do bar (neste caso) mas também de qualquer restaurante, cafetaria ou outra coisa qualquer ligada aos prazeres da gula onde se pode fumar. Na Áustria, ao contrário de Portugal, os fumadores não passaram a ser, tão repentinamente como das 23h59 de dia 31 de Dezembro de 2007 para as 00h00 do dia 1 de Janeiro de 2008, leprosos a evitar e olhar de esguelha, até a despedir, se tal fose preciso, tacanhez norte-americanizada feita cruzada contra o cancro nos fumadores passivos, essas bonequinhas de porcelana que podem conduzir carros de consumos astronómicos, não considerar uma só ida de transportes públicos para o emprego, pedir naco na pedra num restaurante de cinco metros quadrados mas, por dEUS, inspirar o fumo desses cidadãos de menor monta é que não. Ficará, por ora, e em todo o despropósito que assumo, o contribuinte a saber que foram gastos milhões de euros para que o preconceito contra os seropositivos e toxicodependentes fosse amenizado e, afinal, é ver-me acender um preguinho que, admito, na minha liberdade de escolha, contribui para a minha morte precoce, e é logo o gajo do lado a assumir aquele ar dos justos, transparecendo, por todos os poros, vontade de me cortar a carótida com o x-acto da Mecanorma que já não pôde comprar na Papelaria Fernandes porque, enfim, como há legislação mais importante como seja a proibição do fumo ou o casamento entre homossexuais, deixou-se que alguns marcos do comércio tradicional legitimamente português abrissem falência. E é a pensar em tudo isto, no êxtase que é o primeiro café do dia com o primeiro cigarro do dia com a primeira cólica do dia (esta é efeito do êxtase e não tanto parte do êxtase em si), em amena temperatura e ambiente aconchegante, rodeado de madeiras e envergando apenas uma tshirt, que vejo o personagem. Fuma mais compulsivamente do que bebe canecas de black coffee, ou vice-versa, fala mais com toda a gente que aqui entra do que com o cão deitado a seus pés, ou vice-versa, abana o bicho duas vezes a cauda e diz au auuuuu a qualquer coisa que ele diga, num alemão quase tão imperceptível como o dele. Sai-lhe em gasta voz um Morgen! direito a mim. De onde sou, quantos dias vou ficar, se gosto, porque é que olho tanto para a mesa do fundo, não que ele não consiga também perceber que elas são atraentes, digo-lhe que tenho quase a certeza que são sérvias e, a serem, estão longe de se comparar em beleza com as outras que por Belgrado ficaram, ele diz que as mais belas do mundo são as jamaicanas e conta, de brilho nos olhos baços da idade, que viveu em Port Antonio — onde estive há meses — dos 24 aos 28. Debita imagens que lhe ficaram na memória e que não me atrevo a desiludir, mas guardo para mim como tudo está diferente. Fico com a certeza que sim, afinal, aquela é a melhor idade para viver na ilha que é jangada de África à deriva no Mar das Caraíbas. Pergunta-me como está Montego Bay, Kingston Town, digo-lhe apenas que não fui a esta última, omito as razões. A Jamaica de sessentas era, pois, outra da mesma fruta. Nem que fosse porque Sir Bob Marley ainda não tinha direito a estar a dar música em todos os estabelecimentos para turistas, como se toda a gente, do barman ao taxista, tivesse carregado na tecla repeat ao mesmo tempo. Também ele foi jornalista de correr mundo, também ele amou, de formas diferentes e por diferentes razões, todos os cantos por onde passou. Agora tem as recordações. Aconselhou-me a guardar, também, as minhas, em mil cadernos como este onde estou borrar algo e que por acaso ainda tem borras de Blue Mountain Coffee. Não me pareceu, pois, que Horst Ebersberg fosse apenas um reformado conhecido por todos os habitantes locais. Mas pensei que tal se devesse à minha sensibilidade atordoada pelas extremidades geladas e cérebro ainda longe de estar a carburar como em latitudes mais quentes. Combinámos um encontro no teleférico de Hahnenkamm, para um retrato de família, às 13h, hora em que levaria a FILHA DE OITO ANOS (sim, o ar da montanha escusa os comprimidos azuis) para a aula de esqui que, aqui, é actividade extra-curricular no ensino público (assim como a natação o é em Portugal... ou não). Não consegui cumprir com o acordado. Mas Engelbert, o meu guia montanheiro (esse que pensou que eu, menino de areia de praia, haveria de achar que as pernas enterradas em meio metro de neve por colinas com inclinação de ângulo quase recto não era nada por aí além), descansou-me em relação à falha. Horst é, provavelmente, o habitante local mais descontraído em relação a tudo. Mas conhece-lo? Pergunto, ao mesmo tempo que penso que, vista daqui, mil oitocentos e tal metros acima, Kitzbühel não parece assim tão pequena. E quem não conhece Horst? Olha... aquela — e aponta para uma pequena casa de madeira quase omissa pelos enormes pinheiros numa das vertentes que desce, quase a pique, deste cume onde me trouxe — é a sua cabana de Verão, quando tudo isto está verde e florido e quase podes ouvir a Heidi ou a Julie Andrews a cantar, o que seria bem mais agradável que os grupos de iodeling locais. É onde vem para escrever ou apenas ler, sei lá. Pergunto se é apenas conhecido como uma espécie de louco da vila ou algo próximo disso, para receber um ar indignado de volta, com um Estás louco? O Horst é uma das pessoas mais estimadas de Kitzbühel. Não consegue estar parado. E continua a fazer o que faz melhor. Tem um pequeno jornal mensal, gerido, redigido e publicado por ele. Quando há algo que não está bem por aqui, ele investiga e dá a notícia, apontando o dedo com tal arte que, sem ofender ninguém, as coisas solucionam-se com uma rapidez astronómica. Há uma frase local que talvez se torne um ditado: Antes uma multa da polícia que ser policia numa notícia do Horst.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Kitzbühel, Tirol, Áustria, Dezembro de 2009 - Uma visão à dIAZ em 3 estórias e um iôdelêi iôdelêi iôdelêíhú - Estória Número UM

Estão -10ºC que me agitam a bexiga em perpétua vontade de urinar e nervoso miudinho por saber que, para o fazer, vou encontrar um mais-que-nunca diminuto Zezinho em mirrada agonia invernil. De queixo e nariz dormentes, faço lembrar (a mim mesmo) aqueles petizes que vêem o Barco Pirata da Playmobil na montra e nunca mais se calam Eu quero Eu quero Eu quero, só que os meus desejos são bem mais humildes Eu quero apenas um café e um cigarro a acompanhar. O guia não me ignora como um pai de carteira menos abonada, a pensar como há-de contornar o pedido e subsequentes expectativas com o Carro de Polícia da Playmobil, substancialmente mais barato, antes a sua expressão compenetrada é acompanhada por um Se queres tirar fotografias a lugares aprazíveis e bem decorados tenho que te levar ao lugar perfeito. Ainda não sei é qual será! Eu, sequioso de cafeína, nicotina e mais uma ou outra ina que para aqui não serão, por ora, chamadas, limito-me a olhar pela janela do carro que atravessa, como um barco num mar de branco, o vale, neve a estibordo, neve a bombordo, ambos os bordos elevando-se um pouco adiante em montanhas tão altas que o sol só aparece entre as 12h30 e as 16 e qualquer coisa, encostas forradas de pinheiros, coníferas feitas manto que apetece pisar, não para estragar mas para sentir o flóft debaixo dos pés. Indetectável, camuflada no meio desse voraz bosque que a parece ter engolido, uma hut ou cabana, vá, de madeira, um fio de fumo que se ergue na vertical porque aqui o vento é nulo só para chatear, permitindo que o frio abata sobre nós em golfadas vindas dos cumes, e digo Que espécie de eremitério é aquele? E rasga-se no fellow que vai ao volante um sorriso acompanhado de um Grande ideia! E eu que não sabia onde levar-te! Aquilo é o Ensiedelei, um restaurante de um amigo meu. E era! Daqueles em madeira por dentro e por fora, uma capela ao lado, promessa de alguém que chegou vivo da cruzada contra os Turcos, onde se arriba por uma estrada sinuosa, que rasga um bosque cerrado, tudo é branco e preto, uma raposa e um veado depois estamos lá, inigualável varanda sobre Kitzbühel, muito lá em baixo, como uma maqueta de arquitectura de um espertalhão finalista da Lusíada Este é o meu projecto de final de curso, xô prussôr, um lugarejo no fundo de um vale entre os Alpes Austríacos, com poucos milhares de habitantes, todos se conhecem, casas de madeira, ali ao fundo um lago, o Schwarz-see, que gela no Inverno, as encostas cobertas de coníferas que evitam as avalanchas, uma Primavera feita de verde-infinito e mantos de groselhas, mirtilos e solitárias edelveisses, ou lá o que é, que eu quero é ser arquitecto porque os botânicos não andam de BMW!
Entramos. Está quente. Como em todo o lado que não seja o lado de fora. Só há 3 pessoas. Pinky, o dono, Alex, o filho e uma lindíssima loira de sua graça Marie Therese, 32 anos que sucumbiram à boa disposição — e outros atributos que desconhecerei — dos 45 de Pinky, personagem bem conhecida por estas bandas, sorriso rasgado e um humor inteligente, prazenteiro, de anfitrião à antiga. Benvindo à minha cabana na floresta, troveja este grandalhão, quase uma caricatura, com os seus lederhosen de infante em corpo de wrestler. Trabalhou como chef da Formula One Paddock Club durante 10 anos, mais alguns na Red Bull Racing e acabou aqui, no meio do bosque, a fazer o que faz melhor, gastronomia tirolesa. Que vai bem com hospitalidade montesa. Queres café??? Mas isso é para meninos, pá! Bebes já aqui um glühwein (vinho tinto quente com canela e laranja) ou uma Água da Montanha (Schnapps) e não há frio que se te pegue. O dIAZ, que está, como convidado, à altura do melhor cicerone, lá foi provando disto e daquilo, ficou a saber que a alcunha Pinky se deve ao facto desta figurinha gigantesca se passear, em tempos, numa Piaggio Vespa 150cc de dois selins igual à minha mas cor-de-rosinha, riu e re-riu como se não houvesse amanhã e, a haver, não seria tão frio, e foi-se embora pouco depois de Pinky ter dito qualquer coisa como Mas vais mesmo tirar-nos uma foto para a revista? De família? Assim tipo retrato? Não queres antes tirar só à minha namorada? É que ela é que é gira, pá, tipo modelo, olha lá para ela, vá. Olhei. E, não sei se pelo entorpecimento do álcool, demorei-me um pouco mais do que devia... para ouvir, num quase sussurro E então? É bom, não é? Queres ver-lhe as mamas? Eu digo-lhe...

sexta-feira, dezembro 11, 2009

A Natureza Sabe... PERGUNTE-LHE!

Estou a dois dias de ir para a terra dos 3 SH's (Schnitzel-Shtrudel-Schnapps), como lhe chamei da última vez que por lá andei, a pedalar uma pasteleira pelas ruas de Viena.
Desta feita, porém, é Kitzbüel, onde a neve já fez das suas. Habituado a latitudes mais suadoiras, que a mais não obrigam que um mero chinelo de dedo, o dIAZ começou, por cá, nos últimos dias, em que a coisa já arrefeceu (e bem), a usar tshirt e casaquinho, por forma a ambientar-se ao desconforto que é esta coisa de, à primeira rabanada de vento (que está gelado pá dédéu) sentir o mais-que-tudo engelhar até ficar assim tipo pescocinho de frango daqueles que se encontram no pires dos pipis lá da tasca do Zé Mau. Vai daí, conclui o Mariachi que não é nada de que se morra e que, se calhar, é melhor esquecer as botas de neve e casaco de penas que fazem muito volume na mochila e roubam, no regresso, espaço aos hímanes de frigorífico com que TODOS, sem excepção, serão corridos este Natal.
O problema é que, hoje de manhã, passei por um qualquer pequeno lago que um qualquer pequeno arquitecto (que não percebe nada de Natureza, portanto) projectou para uma qualquer urbanização lá ao pé de mim, achando que seria uma mais valia e afinal é só um viveiro de mosquitos no Verão e vejo, com algum espanto (espanto q.b., vá, também não TANTO assim) que na relvinha repousava um pequeno bando de gansos. Daqueles do Niels Ölgerson ou lá como se chamava o puto. Que emigram para sítios mais quentinhos porque, enfim, são animais mas não estúpidos. E eis que me ponho a pensar que, se calhar, e partindo do princípio que eles acham que ISTO é mais quentinho, não seria melhor começar a adquirir (ou a pedir emprestado, que soa melhor), aquelas coisas tipo gorro e luvas e labellos que NUNCA na minha vida usei porque já sei que depois me esqueceria em cima da mesa do primeiro café onde bebesse o meu garoto ou carioca de limão ou café pingado ou essas betices que os betos que adoram a neve bebem.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

A EVENTUAIS INTERESSADOS...

... o MELHOR do Super Bock em Stock está AQUI!

segunda-feira, novembro 30, 2009

Un jour

Um dia vou onde a neve cai e trago-a, intacta, para que a sintas na ponta dos dedos, pequeninos. Um dia vou poder segredar-te ao ouvido, para que fique entre nós, Estão a nascer-te asas nas costas para que possas voar. Um dia vou deixar de sentir borboletas no peito só porque sorriste. Um dia vou levar-te à floresta sem achar que a tua voz, entrecortando os corvos e os cucos, faz dela um lugar melhor. Um dia vou deixar de te beijar na boca. Um dia vou ter certeza de que não tens uma missão. Um dia vou sentir algo tão intenso como os teus abraços. Um dia vou deixar de achar que, a cada piscar de olhos, consigo ouvir as tuas pestanas a fazer flap. Um dia vou deixar de me rir de cada vez que te vejo de roupão. Um dia vou poder viajar sem que me apertem o coração até que o ar me falte. Um dia vou achar que tens mau hálito matinal. Um dia dir-te-ei, sem temor, que me assustava a ideia de ser pai e, agora, sinto-me maior do que os Homens. Por isso, um dia, não vou plantar uma árvore ou escrever um livro. Porque o faria?

quinta-feira, novembro 26, 2009

Suponho que haja um destes a cada década

Quando parece que o género está esgotado, sopra a suave e benfazeja brisa que abana a vulgaridade e nos faz acreditar que, afinal, o clássico Filme Boy Meets Girl é, porventura, intemporal. Tem-se, por Filme Boy Meets Girl, aquele em que, lá está, ELE conhece-A | ELE e ELA vivem momentos de felicidade que podem assumir as mais diversas formas | ELE e ELA zangam-se | ELE e ELA reatam | ELE e ELA vivem felizes para sempre OU ELE e ELA nunca mais se vêem. Entretanto, esboçam os espectadores uns sorrisos, ou riem, ou disfarçam uma lágrima. Não há, NUNCA, nada de novo. A não ser, como implícito no título deste devaneio, uma vez em cada década. Na de 60, o Dustin Hoffman batia, desesperado, às portas da igreja onde o amor da sua vida, que por acaso até era filha da gaja que lhe deu o sexo da sua vida (God Bless You Please, Mrs Robinson, pediram Paul Simon e o Cabelo-Ridículo Garfunkel, a altos berros, no Central Park), estava a ponto de se casar com outro qualquer, que até tinha menos nariz e mais 20 centímetros que o actor em questão. Em 1979, o mesmo pequenote acabava com o mito de que as mães é que cuidam dos filhos, até porque a Merryl Streep estava louca e não tinha condições para fazer do herdeirozinho Kramer um moçoilo feliz. Nos eighties, os Phsycadelic Furs fizeram a música para o intemporal Pretty In Pink e, nos 90 (em 2000, vá), o Almost Famous relembrou a uma geração que já definhava, de Grungísse, que o Amor era possível no tempo dos Led Zeppelin. Estes foram Primus Inter Pares. Porque, por outro lado, também houve o Oficial e Cavalheiro, o Shakespeare In Love, o Lagoa Azul, o Cidade dos Anjos, o Moulin Rouge, e os concorrentes na categoria de Absolutamente Ridículo Guarda-Costas e Titanic. Mas, por dEUZ, a lamechice viscosa, o mel barato de todos estes perigou o género. E cinema é como a música. Só há o bom e o mau! O que nos leva à presente década. E, até agora, digno de nota só há um. Porque a tal nota de que é digno não cabe num caderno inteiro. Porque o filme começa com um aviso aos mais incautos: This is a story of boy meets girl. The boy, Tom Hanson of Margate, New Jersey, grew up believing that he'd never truly be happy until the day he met "the one." This belief stemmed from early exposure to sad British pop music and a total misreading of the movie 'The Graduate'. The girl, Summer Finn of Chennicok, Michigan, did not share this belief. Since the disintegration of her parents' marriage, she'd only loved two things: The first was her long, dark hair. The second was how easily she could cut it off, and feel nothing. Tom meets Summer on January eighth. He knows, almost immediately, she is who he's been searching for. This IS a story of boy meets girl, but you should know upfront... This is NOT a love story.
E entra a Regina Spektor com o seu Us... o que, para muitos, poderá não ser tanto quanto é para mim! Só faltava que as primeiras palavras entre ambos fossem trocadas porque ele vai a ouvir o There Is A Light That Never Goes Out, dos The Smiths, no elevador. Pois! Ou que os habituais fragmentos de vida feliz em comum, com todas as pequenas idiotices, gestos, sorrisos e beijos, abraços e desencontros, encontros e desventuras, enlaces e frases que ditam viragens, não passassem por alguns flashbacks, um deles em que ela, num trabalho da escola, transcreve os Belle & Sebastian, no The Boy With The Arab Strap, com um avassalador Colour my life with the chaos of trouble. Até a corriqueira cena de sexo é substituída por uma Morning After em que ele, no trajecto para o trabalho, leva a cabo as mais variadas e perfeitas cenas de coreografia com a multidão, ao jeito de um musical barato. Até o seu emprego, de desenhador de postais de Aniversário e S. Valentim e Feliz Casamento e Pêsames quando, afinal, é arquitecto. Até quando ele lhe faz a tatuagem. Até eu, que sou avesso a estas pitchupitchuzisses, acho que, até agora, o 500 Years of Summer é o Filme Boy Meets Girl da década.

terça-feira, novembro 24, 2009

After All, it's Even WORSE

Ouvi hoje, pelo televisor do café, enquanto penicava um rissolito de leitão, que parece ser a grande novidade de 2009 nessa que julgávamos ser a já completa lista de Salgados à Portuguesa que, na Bélgica, esse já de si cinzento país, um homem que se pensava estar em coma há 23 anos estava, afinal, e tão somente, paralizado. Revelou, agora, faculdade de comunicar recuperada, que ficou consciente logo após o acidente automóvel que resultou em tal sina, mas incapaz de mover, sequer, um dedo (ao contrário do similar caso hitchcockiano). Ouviu tudo e de quase tudo se recorda. 23 anos de notas mentais, impossibilitado de escrever no seu moleskine. Que imagino tenham sido coisas como "O Mickael Jackson come crianças. LEMBRETE: Não fazer dele um mito depois de morto" ou "A Madonna diz que o Sean Penn lhe dá nos cornos. LEMBRETE: Haja um sacana que a trate bem, mas só para depois, aquando do divórcio, conseguir sacar-lhe 50 milhões" ou "Estalou um caso de pedofilia aqui na Bélgica, mas todos sabem que somos malucos. LEMBRETE: Isto devia ser coisa para calhar a um país de mais Brandos Costumes" ou "Estou farto de escrever anúncios em jornais para sacar gajas. LEMBRETE: Inventar uma coisa que dê para usar no meu ZX Spectrum e que não tenha que sair de casa. BOA, vou-lhe chamar HI5" ou "Olha, o Muro de Berlim caiu! LEMBRETE: Beber uma Coca Cola numa esplanada de Hohenschönhausen" ou "Acho que deixei 350 Francos Belgas nas calças de ganga elásticas. LEMBRETE: Ir ao banco trocar por €" ou "Vou apostar com a minha mãe que, não importa o tempo que eu esteja paralizado, o Sporting vai ganhar, no MÁXIMO, dois campeonatos".

segunda-feira, novembro 16, 2009

Let ME fucken BE + O início de um Potencial Romance...

Arquimedes era, aparte o invulgar nome, a que os pais se viram obrigados pela Conservatória de Registos Centrais, já que Outubrino não era permitido e Deus só o era com a preposição "de", um homem absolutamente normal. Talvez os ombros fossem um pouco mais largos que o costume, o que até lhe ficava bem, e as longas pestanas também lhe valeram alguns dissabores em novo, como ser confundido com uma menina ou, já entradote, ouvir vezes sem conta a pergunta Pintas os olhos? que ocorria sempre numa longa mesa de um jantar qualquer no preciso momento em que toda a gente tinha feito silêncio porque o bacalhau à bras daquele feito com batata palha da Titi estava a ser servido. De resto era, pois, normalinho. Bem, havia também aquele sinal no pescoço que fazia lembrar um escaravelho da batata tatuado em tons de bordeaux e o facto de vomitar quando a canja não tinha hortelã nem limão. Fora isso era aquilo a que as pessoas gostam de chamar normaleco. Ah, e era intolerante à lactose, o que lhe trazia incómodos de cada vez que queria impressionar uma miúda no restaurante, pedindo, com ar de profundo conhecedor, um queijo 100% ovelha de meia-cura com cardo da região de Serpa, a cuja ingestão se seguia um indisfarçável ataque de urticária pelo corpo todo, como se todos os mosquitos dos arrozais de Alcácer tivessem organizado uma apresentação da Bimby numa sala qualquer do seu corpo com bolachinhas da Cuétara e chá de limão sobre a mesa de apoio. À excepção de tal, era um homem comum. Embora houvesse, também, aquela incapacidade em desviar olhos de decotes, mesmo quando eram os das destinatárias das conversas, em disfarçar arrotos, em conter flatulência, em evitar fungar o muco nasal para de seguida engolir, perante os estupefactos olhares em direcção da sua maçã de Adão, como que confirmando aquilo que, há um segundo atrás, pensaram nos seguintes moldes Ele não vai fazer AQUILO, pois não?

Não havia dia em que não pensasse em tudo isto, ciente que estava dos seus próprios defeitos, incluindo um pénis diminuto e por circuncidar há mais de três décadas.

Então por que raio é que a sua vida, na forma de meandros e segredos, sem os quais a própria não existe poderia ter tanto interesse para outros?

quinta-feira, novembro 05, 2009

O Retrato-Nariz-Capote, uma saga em homenagem a Nikolai Gógol OU Conto Fantástico Para Rapazolas

Dimitri não era nem baixo nem alto nem magro nem gordo nem bonito nem feio ou, em suma, era um tiozinho* normal, à excepção do facto de ser pintor. Acordou, naquele dia, em sobressalto, olhando uma outra vez para o retrato a óleo que tinha, na véspera, comprado no mercado da ilha Vassilievski. E, para seu espanto, aquela espécie de ancião em trajes asiáticos, o retratado, continuava, como quando adormecera, arrepiado de medo e frio, fixando em si aquele olhar penetrante, que o perseguia para onde quer que seguisse, ou fugisse, que era o caso desde o minuto em que o pendurara na parede. Soergueu-se e esfregou os olhos, certificando-se de que não estaria, porventura, ainda a dormir. Mas as remelas que rolavam, por debaixo dos dedos contra as pálpebras, eram demasiado reais. Reabriu-os e não teve outro remédio que não correr para a casa de banho, a partir da qual um biombo implicitaria tão demoníaca visão. Apoiou-se no pequeno lavatório e voltou a cerrar as pálpebras, esperando que o coração, por ora feito puro-sangue em corrida de fim-de-semana, obrigasse a respiração a estugar passo. Quando o fez, porém, foi para dar de caras com a mais invulgar visão. No diminuto espelho que pendia, juntamente com a lâmina de barbear, do pequeno prego da parede, viu que algo se ausentava do seu rosto. Não lhe concedia inexpressividade e, por isso, não tinha a ver com as sobrancelhas. As suíças** lá estavam, cuidadosamente aparadas pelo barbeiro de Okhta. É então que, boquiaberto, prova irrefutável de que a boca e os lábios também ali se quedavam, se depara com a completa ausência de nariz. O seu pequeno apêndice afilado, que tantas vezes lhe valera alguns galanteios por parte de senhoras da alta sociedade moscovita, desaparecera, por completo, para nem fossas nazais ou sequer narinas restarem. Certificou-se, primeiro, de que conseguia mesmo respirar e, ao topar que o conseguia fazer pela boca, precipitou-se, com cuidado para não rever, nem de soslaio, o fantasmagórico retrato, em direcção ao seu capote***. Era urgente que saísse em busca do seu pequeno tesouro que, ali, bem no centro do rosto e, afinal, concluía agora, porque nunca o havia considerado antes, tanta falta fazia. "Mas que invulgaridade, por S. Jorge dilacerando o Dragão", pensou. Por outro lado, não poderia ser visto em público nestes tratos. Subiria, tanto pior, as golas do seu capote coçado até mais nada para além dos olhos estarem à vista. Mas, infelizmente, tal gesto apenas serviu para que outro assombro se apoderassse de si. No cabide por trás da porta de entrada do frio apartamento, havia, apenas, a total ausência da peça de indumentária pretendida, e que tanto abrigo dos gélidos ventos da Tundra, que assolam a cidade de Outubro a Março, lhe concedera. Só podia estar a sonhar. E desta vez nada tinha a ver, infelizmente, com a filha do vendedor do mercado de Chukine Dvor, reflectindo a luz do sol nos seus olhos claros, escondida por trás do tabuleiro repleto de sapatos. Julgando estar numa gravura lubok ilustrando o conto popular Miliktrissa Kirbitievna, deixou-se cair para trás, apoiando-se na parede. Tentou lembrar-se da noite anterior, se o vodka de terras finlandesas lhe entorpecera os sentidos, se o goulash da mulher do proprietário da taberna, húngara feita cozinheira com pretenções a ucraniana estaria com excesso de paprika picante, se sentira frio no regresso a casa, sinal de que o agasalho ainda lá estaria, caído sobre a mesa. É então que ouve três fortes pancadas na porta. Só poderia ser Nikita, o miúdo que lhe tratava, esporadicamente, das limpezas do estúdio e que ele observava, de sorriso divertido, a cada tentativa de arrumação de restos de telas, molduras por montar, estudos em papel, pincéis, óleos e terebintina. "Quem é?", perguntou, enfiando o roupão. "Sou eu, patrão. Nikita!", respondeu a pueril voz. Dimitri roda a chave exclamando "Mas, tiozinho, não é dia de varridelas" e abriu a porta para ver que, do penúltimo degrau, a criança lhe esticava o seu vestimado agasalho. Nikita, esse, não conseguia disfarçar o espanto, apontando o olhar bem para o centro da cara do amo. Muito baixinho, exclamou, depois de pigarrear "E acho que, no bolso esquerdo, encontrará algo que lhe pertence..."!

* "Tiozinho" era, na Rússia do Séc. XIX e, principalmente, em S. Petersburgo, a forma mais popular de tratamento numa conversação.

** Na Rússia, as patilhas e, principalmente, as suíças, eram consideradas sinal de elevado estatuto social.

*** Peça de roupa essencial contra o frio de S. Petersburgo.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Efeméride n.º 7

Passou por mim o fenómeno da rádio-pirata como aquelas rabanadas de vento que nem despenteiam. Até porque, in those days, era o gel. E a grande sensação desse tal universo, que levava grupos de malta para dentro dos carros dos pais em busca desenfreada, à mão, claro, dos últimos hits era, à semelhança do que ouvia eu da boca dos miúdos mais velhos lá da rua, enquanto vibrava com o meu Citröen CX Pallas da Majorette (os carrinhos da Matchbox não tinham suspensão), a Rádio Cidade. E essa, conclui-se hoje, devia ter sido logo extinta, responsável que foi por uma cultura musical portuguesa ao nível dos valores obtidos em testes de astrofísica num bando de avestruzes do Kalahari. Passei, assim, muito bem sem a rádio, os Rapazes Selvagens dos Duran Duran, a outra que, razões explicadas na sequência inicial do Cães Danados, sentia-se Como Uma Virgem, o Billy Jean do Qual é Coisa Qual é Ela Que Antes de Morrer Já o Estava, a Contagem Final do Franjinhas Maquilhado e qualquer coisa que a Trina Trana cantasse. Tinha, na única prateleira do meu quarto que NUNCA apanhava pó, herança da falida bôite Tropical em Santana, Sesimbra, propriedade de um amigo do meu pai, os vinis do Boy, War e Joshua Tree (mais precisamente, A Árvore de Joshua, com as letras d'As Mães dos Desaparecidos e do Onde as Ruas Não Têm Nome traduzidas), o Cairo dos Taxi na sua lata, um qualquer dos Talking Heads de cujo nome não me recordo, a colecção dos Pink Floyd até ao Momentary Lapse Of Reason, exclusivé, o I e o II dos Led Zeppelin, o Yellow Brick Road e o Ziggy Stardust and The Spiders From Mars, The Velvet Underground & Nico e o Transformer do Lou Reed com um desconcertante risco no Satellite of Love, o que me impediu de perder a virgindade ao som do mesmo, projecto que assumi com uma competência rara. Chegavam-me todos estes. Contando, claro, com os outros que me emprestavam, porque a cassete virgem BASF Chrome 90 minutos, que dava para um álbum de cada lado, estava sempre reservada para o que desse e viesse e os lápis-de-cor ao lado para uma capa de minha autoria. O valor deste produto era, contudo, de tal forma proibitivo que eu era, então, ainda mais selectivo do que sou hoje. Como desperdiçar tal objecto com A-Ha ou Kim Wilde quando, pouco depois, alguém de lábios carnudos, seios generosos, sempre vestida de preto e com sapatos Doc Martens e Ana Salazar, me empresta Cure e Bauhaus? Os The Smiths, esses, tiveram direito à reverência que incluía uma viagem, ao sábado de manhã, à Discoteca Roma com o Sr. Zé Dias a dar-me o equivalente ao total de lavagens do seu sempre brilhante Opel Corsa TR, porque não havia dinheiro para o GL. Nessa altura, era o Meat Is Murder que estava na montra. E ainda consegui, sacrificando o cerimonial pastel-de-massa-tenra do Frutalmeidas, que o dinheiro esticasse para o The Queen Is Dead, lá no meio da letra "S". Isso não é música de maricas? perguntava Zé dIAZ com um olhar preocupado, aconselhando, em vez daquilo, O outro daquele ceguinho que está sempre a dar na televisão, ao que eu respondia, de peito cheio, É música futurista, pai. Um ano depois, passou a chamar-se-lhe "Vanguarda" e incluía, também, os Depeche Mode e o Billy Idol (estroinice que continua, ainda, por explicar). Vivi assim, sem rádio, e assado, com calças elásticas a afligir erecções durante os slows dos Scorpions, banda de aliens que, com os Dire Straits e o Bruce Springsteen, estavam tão longe de mim como Marte. Até que um dia surgiu, mais ou menos ali em 91.6, a XFM, que não tinha publicidade e, logo, PUFF e depois a Voxx, que não tinha publicidade e logo BANFF e depois a Radar que não tinha publicidade e agora até METE NOJO e, no meio de todas estas descobertas, que incluíam um Hé pá, isto afinal a rádio tem uma ou outra coisa que até sim senhor descobri, não uma estação, mas uma voz que a determinada hora em determinados dias da semana nesta ou noutra estação escolhia, poucas vezes mal, pérolas que distribuía a porcos habituados a Beyoncés e Black Eyed Peas. António Sérgio abria a cabeça a quem abria o cu ao estrume que as rádios portuguesas debitam com a mesma irresponsabilidade com que uma professora de português diz aos seus alunos para lerem Margarida Rebelo Pinto, ou de um Padre que incute no rebanho o preconceito para com os muçulmanos. Eu, que nunca quis saber onde é que o Malato foi feliz porque era óbvio que isso incluía as Bandas Sonoras que escolhe para os seus programas, fiquei inúmeras vezes dentro do carro, em vez de entrar em casa, porque A Hora do Lobo ou o Viriato 25 já tinham começado e... podia, efectivamente, perder algo de Muito Bom, que era o que nos dava António Sérgio. E eu achava que ali, a gastar bateria e a aquecer os pulmões a fumo de Chesterfields ou Bula Fields DOP, a voz do Homem ficava bem antes da do Stuart Staples, depois da do Tom Barman, anunciando o novo dos Fleet Foxes, recordando o Trent Reznour dos bons tempos... e nós, que gostávamos tanto da sua companhia, com a chuva a bater contra as vidraças do carro, que ficava bem com This Mortal Coil ou Red House Painters, nunca pensámos que, no dia em que o António Sérgio morresse, a rádio portuguesa agonizaria. E, hoje à noite, serão menos os que sintonizarão a Radar. Porque, efectivamente, e doa a quem doer, vale bem menos a pena...

sexta-feira, outubro 30, 2009

Artigo da edição de Novembro da Blue Cooking (Short Version)

E, de repente, por entre os ramos de duas árvores irreconhecíveis, de entre tantas que fazem este Jardim de Cheiros, quintaleco de tudo o que é necessário para confeccionar, com a devida reverência, alguns dos mais tradicionais pratos da Royal Thai Cuisine, voa, de um só salto, um esquilo branco, como uma pequena pérola entre um tesouro esmeralda, uma ilha de jade numa cidade onde nada disto se julgava possível. Porque tudo o resto é!

quarta-feira, outubro 28, 2009

Downward Spiral

Descem ambos as pequenas escadas que levam ao piso inferior do comboio. Perscruta ele, olhos azuis de brilho ensonado, eventuais lugares que lhes permitam ficar juntos. Espera ela, olhos azuis sem qualquer brilho ou emoção, que ele os encontre. Sim. Estão diante de mim. Vazios. Detecta-os ele, segue-o ela, vazios ambos. Dá-lhe ele passagem para o lugar à janela, senta-se no outro e, de um dos dois sacos que coloca aos pés, retira duas caixas de plástico verde, estilo Tupperware (se não mesmo). Estende uma à companheira. E este gesto é, como todos até agora e a partir daqui, tão mecanizado que as palavras não existem e os olhares não se cruzam. Abrem, ambos, o recipiente, e retiram, numa coreografia robótica, arrepiantemente desprovida de emoção, como se a partilha nunca o fora, a sandes mista de pão estilo Bimbo-sem-côdea, que comem sem qualquer paixão, tudo isto é apenas mastigar um determinado número de vezes, engolir de seguida, como quem recolhe a agulheta de Sem Chumbo 95 e atesta o utilitário escolhido em função das dimensões e subsequente facilidade em estacionar mais próximo da repartição. Ele acaba primeiro. Deposita a caixa num dos sacos. Ela acaba depois, mas já ele estica a mão, ciborgue revestido a pele orgânica que continua a contemplar o vazio, algures em frente, mas sabe em que preciso momento deve recolher o recipiente do ser biónico ao lado e deixá-lo no tal saco. Não suspiram, não se recostam, agora que o alimento deveria conceder algum conforto, não se movem um milímetro. Olham ambos em frente, o diminuto horizonte da carruagem feita paisagem de qualquer coisa, mas dão, agora, as mãos. A distância que se sente, porém, não atenua. O frio contacto de duas extremidades de membro onde corre um sangue que é o de cada um não aquece... nem arrefece... não nada... e tudo o que estes foram um dia, ou poderão ter sido, não se adivinha agora. A vida das gentes é, sinto eu, cada vez mais uma gélida estepe onde um, apenas um, solitário arbusto espera que lhe colham fruto. Mas o eterno inverno adia, sequer, que a flor descerre.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Passem por mim neste post e sigam...

- INTRO -
Dêem-nos um CR9 com bailinho da Madeira nos pés e temos aquilo que é, hoje, o mais puro Orgulho Pátrio.
Eu, que sou mais Natália Correia, tenho um apego à Mátria que não me permite endeusar, embora também não consiga retirar-lhe qualquer mérito, uma pessoa que não sabe onde meter o til na palavra pão! A Pátria do Pessoa era a Língua Portuguesa. Eu não irei tão longe. Mas exijo uma pátria que mereça o Saramago, como pediu Mestre Almada para ele próprio.

I. Consegui, ao longo do tempo, e ainda que a custo, soltar amarras destas fundações católicas apostólicas romanas que nos levaram a um marianismo exacerbado, de velas na mão, ferindo os joelhos no cimento da Cova da Iria, deitando ex-votos ao eterno fogo da danação que é não pensarmos por nós e esquecermo-nos de um passado histórico que poderia ditar um futuro auspicioso. Tudo isto em que Portugal se tornou, asfixiado pelo dogmatismo, deixou para trás, porque o nega, um Cristianismo mais puro e belo, como o que assistiu ao nascimento de Portugal. Daquele que escusa e, paradoxalmente (ou não) nega, inclusivamente, o Velho Testamento (VT), isto é, a Tora Judaica, aquela que foi anexada ao Novo Testamento (NT) pelos Judeus quando, há dois mil anos atrás, perceberam que tinham razões para temer que um futuro que julgavam seu por direito pudesse ser, a partir dali, de uma gente que, subitamente, havia visto a luz, a compreensão e o perdão e esqueceram, embriagados de amor, o tal deus que os Filhos de Abrãao temiam. Acreditar que Jesus existiu nesse tempo poderá, assim, depender da leitura do NT. Acreditar que ele fez milagres depende apenas do nosso sentido crítico, independentemente de sermos sensíveis a fábulas que tornam, objectivamente, mais bela a vida. Crer que JC disse tudo aquilo, falando por parábolas, é ter sensibilidade para estórias bonitas. Segui-las como a ensinamentos é uma espécie de budismo de nova geração, sem rituais mas com uma impagável consciência tranquila de quem leva os dias em Paz. Consigo e com os outros.

II. Ecoam, nas cúpulas e abóbodas e claustros das igrejas e conventos e mosteiros portugueses frases que parecem ter saído de um filme de terror, no qual alguém exorcisa uma criança que recebeu em si o mafarrico e, por isso, expele pela boca uma matéria verde, faz a cama tremer e saltar (isso também os meus vizinhos de cima e, ainda por cima ela está nos últimos meses de gravidez), rompe o hímen com um crucifixo e grita impropérios ou apenas Padre Merriiiiiiiiiin. As costumeiras Sende temente a deus e deus tudo vê e castiga são, de entre tantas outras, as para aqui chamadas. Ser português crente é culpar deus por um filho com trissomia 21 ou outro infortúnio qualquer. Ser português crente vizinho de um português crente pai de um filho com trissomia no 21 é dizer, à boca cheia, Alguma coisa ele fez para merecer isto. Fundado na tradição importada dos escritos em hebraico, o antiquíssimo ritual do Bode Expiatório, mediante o qual os pecados do ano transacto são transferidos para o pobre ruminante que os leva para o deserto, onde é abandonado, assume, no catolicismo, a forma da Confissão. O pecador conta, com mais ou menos pormenor, os seus pecados ao pároco que, então, o manda rezar X Avés Maria, Y Pais Nossos e... fica tudo bem. Uma filha abusada sexualmente, um roubo inocente de 10.000€ da conta do patrão, um tiro na mulher que estava a ser sodomizada pelo moçambicano da churrasqueira, tudo vale porque, no Domingo seguinte, o Pastor ouvirá, na sua infinita paciência, encomendando, de seguida, e sibilando a cada S, mais umas rezazinhas.
Estático está, há dois milénios, um senhor de barbas e ar torturado, embora plácido, magérrimo, carregando a cruz que é ver tudo isto, tão longe do que professou, a decorrer impunemente diante dos seus semicerrados olhos.

III. Se pode ser facilmente concluído que o catolicismo não permite que a beleza descreva, no ar, brilhantes espirais ascendentes, qual efémera, mesmo que o fosse, que os seus dogmas oprimem sentimentos puros porque sinceros e sinceros porque puros, que o vasto rebanho que segue o seu pastor vê o verdejante prado onde deveriam ser, apesar de tudo, livres e senhores dos seus actos ser, tantas vezes, transformado num pequeno cubículo cercado de arame farpado feito ameaças escritas num livro que é o Best Seller mundial mas não tem QUALQUER relação com o Cristianismo, que ser-se católico é diametralmente oposto a ser-se o Poeta à Solta de que falava o Professor Agostinho, fica, no entanto, por explicar, como é que leva, também, à ingratidão. É que apesar de gostos serem gostos, uma coisa é inegável: Saramago é BOM. É Grande. Não foram o panorama editorial português nem os seus leitores lusos que o disseram, isso seria, lá está, uma questão de gostos. Foi a Academia Sueca. O Nosso Nobel deveria ser, pois, motivo de orgulho. Não mais que o Pessoa, Vasco da Gama, Camões, Manel Cruz, Aristides Sousa Mendes, Mão Morta, Garcia d'Orta ou Egas Moniz. Mas, por deus (mas o outro), sejamos minimamente humanos... Celebremos, com pompa e circunstância, a liberdade de expressão como pedra basilar da criação artística. Pode ter sido uma manobra publicitária do próprio, sim. Isso não invalida que ele valha como romancista e, sobretudo, como homem. Ademais, não vi ninguém criticar o Sousa Tavares quando, com o mesmo intento, e sabendo que poderia vender alguns milhões mais de exemplares de Equador no Brasil, defendeu a fedelhice da Maitê. Saramago ergue-se muito acima da generalidade dos autores portugueses actuais. E o que fazem os homens para quem escreve, já que o Português é a nossa Mátria? Soerguem-se com mil pedras na mão. Isso foi o que fez Caím. Ao próprio irmão. E sim, é uma história violenta e sanguinária, a invenção do homicídio. E não, nunca contaria tal episódio ao meu filho! E toda esta pseudo-nação de católicos castrados pelo Vaticano e cegos da profunda ignorância que é serem levados a viver uma vida oca de espiritualidade e plena de fealdade... não passam de uma cambada de Judas! A quem, apesar de tudo, Jesus perdoou!

terça-feira, outubro 20, 2009

POESIA Conceptual

Está um dia a
abater
bater
ater
ter

sexta-feira, outubro 16, 2009

Choses qui Restent - Tomo 1.918 (It's a Small Small World)

Numa qualquer noite quente de um mês qualquer de 1996...

... o Captain Kirk está, como sempre, ao rubro. Como é que tanta gente ali cabia sem que se acotovelasse, a não ser que por carícia, é mistério por resolver. Nesta véspera do meu primeiro concerto dos dEUS na Aula Magna, e num mar de seres estranhos que ondulava ao som de trip hop em consecutivas vagas de contemporaneidade feita Londres e Berlim numa Lisboa que agonizava, em saloíce, nas Docas e na 24 de Julho estavam, porém, duas personagens que pareciam, superficialmente analisado o conjunto indumentária/penteados, personagens retirados, de fresco, de um álbum de Enki Bilal. E foi só cá fora, já a caminho de um Kremlin que fechava mais tarde e em suficiente loucura para podermos acabar a noite com a devida sensação de dever cumprido, que nos lembrámos, entrando na Nissan Vanette estacionada (nesse tempo ainda era possível), em pleno Largo da Misericórdia, Cauteleiro atento a eventuais interessados na perpétua carga do veículo, entre pranchas e fatos, camisolas e calções cobertos com toalhas de praia que intentavam, sem qualquer sucesso para os mais (ou menos) observadores, omitir tanto material que faria uma manhã de razoável lucro na Feira da Ladra, que alguém se lembra que tanta excentricidade poderia, enfim, indiciar que estávamos perante THEMSELF, até porque a formação de então era ainda uma incógnita, sendo a (infeliz) saída de Stef Kamil Carlens a única certeza absoluta. É, pois, pela janela do pendura (a minha), que vejo os tipos passar, num misto de desorientação de turista e entorpecimento por via de substâncias que, no Captain, apareciam, como que por magia, e não raras vezes, sobre o balcão, com a implícita indicação Com os cumprimentos da casa. Inversão de marcha, sentido descendente e, junto do passeio, o dIAZ pergunta Hey guys, aren’t you playing tomorrow?... dEUS, right? e o então baixista, que cerca de dois anos mais tarde diria adeus à banda para dar início, com a (belíssima) namorada, ao projecto Vive La Fête, respondeu Yeaaaaah... you guys have coke?, e eu Hé pá não, mas podemos fumar ervinha que apareceu em mangas de pipoca lá para os lados da Fonte da Telha até o efeito ser minimamente parecido e eis que a porta desliza, entram de rompante e acompanham-nos em tépida cavaqueira, porque Só queriam beber um copo e conversar e já chega de música para dançar e corpos a suar, dito num francês macacóide que calculo se fale lá para Antuérpia. Não me lembro muito do resto, pelo menos até chegar ao Porão de Santos, já noite avante, sítio onde não entraria a não ser por razões fortes ou um grave estado go with the flow. Suponho que tenha sido isso que aconteceu. Lembro-me que o Carlos estava num dos seus costumeiros estados Chato-Cumá-Putassa e o Fontinha no estado Nem-Sequer-Tenho-Bilhete-Para–Ir-Ver-O-Concerto-Amanhã-Mas–Estou-A-Curtir-Que-Nem-Um-Doido-Com-Estes-Novos-Amigos-Que-Fiz. Por sorte, estava, simultaneamente, e como de costume, no estado Estou-Cheio-De-Dinheiro-E-Só-Paro-Quando-Não-Tiver-E-O-Multibanco-Mais-Próximo-Também, o que deu imenso jeito quando o percursionista, de cujo nome não me lembro, mas tinha assim um ar que ficava ali entre o Extraterrestre, o Alienado e o Completamente Louco, "reparou" que não tinha dinheiro para pagar a morcela que comera, à mão cheia e sem pão (lembro-me sempre do ancião dIAZ a dizer-me Comida sem pão é comida de galinfão), acompanhada de 10 ou + cervejas e rematada com trinta e quatro arrotos e meio que perfumaram todo o bar de cominhos e sangue cozido ao mesmo tempo que perguntava a quem lhe pagava a mesma Mas não tens bilhete para amanhã? Então qual é o teu nome completo? e depois lá fomos ziguezagueando pela 24 até ficarmos imobilizados em Alcântara devido à passagem do comboio de contentores da Evergreen, e Danny Mommens sai da carrinha para gritar Evergreeeeeen... always greeeeeeeeeeen e entra outra vez e acende um cigarro e aí vamos nós e deixamo-los à porta do então Penta, hoje Marriot e, no dia seguinte, enquanto eu e o Carlos estávamos nos últimos lugares da bicha ainda antes da abertura de portas, o Fontinha estava, expectante, na porta VIP e foi, por acaso, o primeiro nome a ser chamado e já tinha bebido não sei quantas cervejas quando eu e o outro nos conseguimos ver intra-portas.
A coisa decorreu com a normalidade que era, naquele tempo, quando não havia internet e a música alternativa era mesmo para quem tinha paciência de procurar em milhares de caixotes na Carbono - Av. Almirante Reis ou dinheiro para comprar a Uncut na Tema - Av. Liberdade, ir a um concerto de uma banda de culto com fracas possibilidades em termos de equipamento de som. No Turnpike, a electricidade foi abaixo 3x... o Roses chegou a dada altura numa cacofonia imperceptível. O mesmo vai, mas desde os primeiros acordes, para o Suds and Soda. Mas foi bom. E, como prometido, fomos ter ao backstage, mas os seguranças não nos deixaram entram, mesmo perante o But they're Danny's friends, man, what's the matter? do próprio Tom Barman, e o Danny lá atrás Never mind, man, we'll meet you at Kirks again e, nós, sem quaisquer esperanças, lá fomos. Não lá chegámos. Porque demorámos muito cá por baixo e, ali para o início da Rosa, Tom Barman estava a ser sugado por uma sanguessuga impúbere, e só parou porque nós, em uníssono, Hey Tooooom, e ele Hey you guys, did you like the gig? e mais não sei o quê e genuinamente interessado porque tanta coisa havia falhado e a pita, num inglês de Albuféra, suplicava C'mon, Tom, let's go de uma forma tão insistente que, às tantas, o homem quase gritou Shut up for a minute! People are talking!, e continuámos, então, o Carlos outra vez no modo CCP, o Fontinha em tom paternalista para a moçoila Olha lá... mas estás a falar inglês comigo também pra quê, pá? Eu já te topei, pá! e ela Deixem-me lá comer o gajo, pá, a Magda, que entretanto encontráramos por ali, a bicaense que eu, malfadadamente (ou não), conhecera na Ilha do Pessegueiro, apenas a olhar, com um ar divertidíssimo, para todo este WorstCaseScenario e eu, então como hoje, com um enorme Mas tu não reparas que sem o Stef a banda não é a mesma coisa? entalado na garganta!

Numa qualquer noite quente de dia 10 de um mês de Outubro qualquer de 2009...

Agora que já somos um país modernaço, com cheiro a Europa da boa, nesta Lx mais wannabe que nunca, tem que se vir fumar à rua. Na mesa ao lado da nossa, a morangada, Solnado, Pereira incluídas, desejava ter, ao lado do autocolante Proibido Fumar um outro, vermelho também, Proibido Pedir Autógrafos a Bem de Um Jantarinho Descansado. A mim não me pedem nada disso. Quando sim, é um cigarro. Na rua. Onde estou. Rua da Bica de Duarte Belo. Um pé em cada carril. Olhando a interessante transparência de umas cortinas do número 40 que permitem ver um corpo feminino despojado de roupas e arrefecido a ritmados golpes de leque ferindo o ar quente. Por pouco não o via... é que Passa Por Mim Na Bica aquele que me parece ser o Tom Barman... Hey Tom, e ele Hey... I Know You Maaaan e eu Ah pois lembras... do teu segundo concerto por terras lusas e, uns anos mais tarde, aquando do concerto dos Vive La Fête no Grémio Sesimbrense que coincidiu, mais ou menos, com a estreia do teu "Vai Onde o Vento Te Leva", estavas acompanhado do actor que era o personagem principal do filme e que também entrou no vídeo do "Roses"! e ele Yeah Man, you had long hair e eu Yah yah esquece lá isso... olha lá, não vens cá dar concertos pois não? e ele No, man, I'm on vacations, just showing Lisbon to some friends e eu E filmes, não? e ele Wow, I'm done with that... took me all my money mas tudo, TUDO o que eu queria ter dito era, mais uma vez, Mas tu não reparas que sem o Stef a banda não é a mesma coisa????

E vem-me à memória a Band In A Box, no Villaret, logo após a Lykke Li, no mesmo espaço, e a Santogold, no Tivoli do outro lado da Avenida... duas horas inteirinhas a pensar como seria hoje os dEUS se o Stef não tivesse seguido numa direcção tão oposta!

terça-feira, outubro 06, 2009

One night in Bangkok...

... and the world's your oyster
The bars are temples but the pearls ain't free
You'll find a god in every golden cloister
And if you're lucky then the god's a she
I can feel an angel sliding up to me


Sukhumvit Road é, como tantas outras na Bangkok longe do Mae (rio) Nam Cha Phraya, uma longa avenida, onde o trânsito é uma enorme locomotiva que ocupa, imóvel, as três faixas de cada sentido, a sinfonia de buzinas, ronco de motores de tuk tuk e chiadeira do skytrain nos carris, dez metros acima, em nada afectam a vida que, nos passeios, decorre sob a lânguida batuta de um calor que, à noite, poucas tréguas dá a estas figuras fantasmagóricas por entre o fumo dos woks. Ainda antes de se tornar Rama I, lá para as Soi 6 e 7 (em Bangkok, há as ruas e as suas perpendiculares, ou Soi, que têm numeração ascendente na direcção do rio), está-se em Nana, alguns degraus evolutivos acima das Soi Patpong 1 e 2, na Silom Road. Porque enquanto Patpong tem a fama, que lhe provém, mormente, dos inúmeros salões de massagem e ping pong show, anunciados numa circense profusão de néones com inscrições do estilo Super Pussy, que retive por razões que, a mim, me parecem óbvias, retire o leitor as conclusões que bem entenda, Nana furta-se a estabelecimentos que, sob o diáfano pano dos espectáculos onde moçoilas projectam bolinhas com a vagina, fumam cigarros Krong Thip com a vulva ou bebem whisky tailandês de sorriso largo e bonito, perguntam, afinal, lá para meio da massagem de duas horas: Would you like a happy ending, sir?, em Nana tudo está à vista. São prédios inteiros onde, em todas as portas de todos os andares podemos entrar e escolher quem há-de passar o resto da noite na nossa companhia. Mulheres, miúdas, gays, lady boys (a designação turística tailandesa para travestis que, garanto, já devem ter enganado muito hetero que, só falta saber, à altura da respectiva apalpação, ou se roeu da má sorte ou, olha, já que estou tão longe e ninguém me vê, antecipo o toque rectal que se avizinha com um pouco mais de exotismo), tudo vale em qualquer porta. Certa noite, este dIAZ que vos fala observou, qual David Attenborough da má vida, um fenómeno, no mínimo, inaudito. De dentro de um tuk tuk imobilizado no interminável e incessante engarrafamento, 2 a.m. (20h em Lisboa), vejo as ruas, os passeios, as vielas, os becos, as passadeiras aéreas encherem-se de mulheres que regressam a casa, um enxame de beleza onde ninguém destoa numa colmeia onde todas são rainhas. Eu, obreiro, decido que é já no dia seguinte que TENHO de ver isto no righteous place. E dou por mim a ser convidado para me sentar What would you like to drink, sir? (Uma Singha, claro, pá!) num sofá em frente a duas... como chamar-lhes... MONTRAS! No interior de cada uma estão cerca de 20 mulheres segurando placas com números. As da montra esquerda são visivelmente menos atraentes que as da direita, todas mais novas. Algumas acenam para a webcam do laptop que apoiam sobre o joelho, num live cam show algo estranho para mim, que estou ali e não no outro lado do mundo. As que não, ora olham para mim, que estou sozinho no bar, ora umas para as outras rindo e segredando algo em Thai que, não menos ali que noutras situações, tenho pena de não dominar. A proprietária (ao que julgo), entrega-me a Singha Beer (diz-se Singh) e explica, num dicurso que invejaria qualquer comercial da TV Cabo ou Citi Bank As da esquerda são 1750 Baht e as da direita 2750 Baht, diferença essa que se justifica pelo facto de haver quem tenha dinheiro para um Ferrari e optar, obviamente, pelo Ferrari, ao passo que quem apenas possa adquirir um Toyota fá-lo-á sem hesitações e, claro, deslocar-se-á para todo o lado sem problemas, com a óbvia diferença de não o fazer com o mesmo prazer que faria num Ferrari.

E eu dava muitos mais bahts para ver, naquele preciso momento, a minha cara! Até porque a senhora olhou-me durante mais um pouco e disse, com toda a calma do mundo e um sorriso de mamã que está prestes a passar Vick no peitinho do menino I think it's probably better that I get your bill, right? E eu nem tinha dado um só gole na jolinha...

Deixei de traçar estereótipos no que a Música concerne...

... desde que topei a mesma banda (do meu agrado) debitar, no mesmo disco, deixas tão diversas como No More Pussyfooting With You e Now It's All a Funeral, You've Become a Serial... Killer Of Us Both!

Entretanto, a Madonna lança um novo álbum, na precisa altura em que, como seria de esperar pela previsibilidade da maioria dos terráqueos, o Michael Jackson volta a soar em toda a esquina...

... e não sei por quanto mais tempo vou conseguir ficar em silêncio!

sexta-feira, outubro 02, 2009

Do outro lado da ponte...

... separa-nos o rio Kwai, é a azáfama que se tornou, em poucos dias, parte de mim, uma espécie de companhia calorosa para além deste calor que sufoca, obriga a muita água, de coco ou não, cerveja Singha, bem melhor que a Leo, ou ao sumo de umas tangerinas que de verdes só têm a cor, porque três colheres de açúcar nas nossas não igualariam tanta doçura, como aquela nos olhos rasgados deste povo, afabilidade budista aparte, beleza feminina, de boca carnuda e pele luzidia, também. Andar pelas ruas de Bangkok é uma arte, um slalom com trejeitos de corpo suado, por entre fumo de incenso e woks em eterno fervilhar de tempuras de tudo, odores doces, ocres, um risco de luz de sol a pino que rasga a penumbra de um mundo que me é tão longínquo quanto apetecível, sofro de amor por isto, como se ainda agora estivesse em torpor de paixão para adivinhar que, um dia, nada mais restasse que um post it sobre os lençóis encardidos "Foi bom, mas parto". Andar por outras ruas, longe da capital, é toda uma outra viagem. Neste caso em particular, sei apenas que a viagem de autocarro durou mais de uma hora. Ainda não me dei ao trabalho de olhar para o mapa por estar deliciado com a imprecisão, uma forma vagabunda de se estar perdido com uma despreocupação que permite sorver tudo isto com papilas gustativas e globos oculares e tímpanos com a afinação em modo sharp. Não percebo, sequer, se este sítio é uma aldeia feita, por agora, em mercado, se é um mercado onde as gentes vivem, para lá das bancas, porque não há caos mais ordeiro que poder passar para trás das mesmas para aceder à ruela paralela e, nesse curto percurso, passarmos por camas e tv's e pratos por lavar e crianças adormecidas em redes, uma pequena madeixa de cabelo que se move a ar de ventoínha apontada em cheio. Nada se compra sem provar. Dos patos assados (cabeça e patas incluídas, olhos brancos) aos peixes doces, das baratas cozidas em erva limeira (chá príncipe) aos casulos recheados da respectiva crisálida, grilos, formigas-de-asa com malaguetas verdes e cebolinho, peles de tigres e garras dos mesmos (paradoxalmente, os monges tibetanos insistem em usar uma faixa tigresse, mesmo depois do Nosso Senhor Dalai já ter alertado para a questão), chego, entretanto, a um alguidar com tartarugas. Vivas. E em todo este encantamento, esta certeza de que pertenço tanto aqui como à sombra de uma azinheira, numa mão um naco de queijo de Serpa, na outra um quarto de casqueiro, entre as pernas uma garrafa daquele do Parreira lá em Pias, consigo ser detestavelmente ocidental e pensar São para comer, aqui, já, arranjam-mas ainda vivinhas e como-as com arroz frito. Não. Destinam-se a ser soltas no leito do rio, em conformidade com a tradição budista que dita uma melhor sorte em troca da cedência de vida em liberdade a um ser vivo. É o que faço. Por 50 Baht (€1), tenho a hipótese de conceder a um destes bichos a oportunidade de prosseguir com os 200 e tal anos que ainda lhe restam. Levo duas ou três dentadas até chegar à margem. Peço o tal desejo e tento ignorar as duas sanguessugas que já estão em cada uma das minhas mãos, erguendo-se em busca do melhor lugar para se colar que nem lapas, passo a comparação, destinada apenas a melhor descrever uma imagem tão alien para a maioria. No preciso momento em que solto a carapaça, duas crianças aparecem no cais e dirigem-se ao barco que ali está. Levantam as tábuas do fundo, uma a uma, ignorando-me, certos de que eu não sei que raio estarão a tramar. Sei. E vejo, com um sorriso de quem percebe que as coisas são assim mesmo, que retiram da água a mesmíssima tartaruga que eu deixei na torrente, minutos antes. Solto uma gargalhada. Eles não, porque percebem que eu percebi. Mas mais que isto, percebi que gosto de aqui andar. Porque não há fealdade possível onde a beleza cresce como erva daninha. Este mundo é feito de muitos outros, mais pequenos. E só pararei quando encontrar o maior, em torno do qual orbitamos. Estou cada vez mais perto. Porque estar longe é que dói...

E oiço lá longe coisas familiares que me tiram este agridoce de boca...

sexta-feira, setembro 18, 2009

Indágora cheguei...

... e já estou de partida. Prometo que, depois de Bangkok, volto em grande. Entretanto, as férias em Milfontes, esse retorno à infância e adolescência, na casa de sempre, imutável, deram alguns frutos!

terça-feira, setembro 08, 2009

POEMA DE IR DE FÉRIAS

Tenho a vida por um fio
AZUL

rasga-me a boca um sorriso
AMARELO

grito por socorro
VERMELHO

na
VERDE
esperança de um dia tê-lo.

Agitam-se os dias em aurora boreal

policromático
TEMPO
que resta

sentado num trono
CARMIM

comanda-me esse
e o outro que passou

sou agora de um
SALMÃO
deslavado

mas terei sempre, JURO

textura de CETIM!

TOCA-ME, URSA!

sexta-feira, setembro 04, 2009

City Cricket / Country Boy

Praça dos Restauradores.
Em frente ao posto dos CTT.
Ao lado do quiosque.
Do lado do Condes.
Do Hard Rock Café, perdão!

Por entre carros, SUV's, furgonetas, camiNHonetas, motociclos, velocípedes com motor, subsequentes buzinadelas e ronronares de motorização, falas das gentes, gritos dos infantes, música das janelas, telemóveis a tocar, zumbidos de néones, Country Boy consegue distinguir...

... um grilo!

Num mundo de cimento e alcatrão cri cri
Sargetas de águas fétidas sshh sshh cri cri
Calçadas de pastilhas derretidas ao sol e pisadas por transeuntes cloc cloc cri cri
Ruas negras de óleo de motor vrum vrum cri cri
Tampas de esgoto infecto sob os carros que passam clang clang cri cri...

... há, entre tudo isto, reduzidos círculos.
Como ilhas ao contrário num mar poluto.
Desenhados a compasso-de-cortar-calçada-portuguesa.
Onde pouca terra alimenta tímidas acácias e olaias e plátanos que urram por socorro nesse verde grito das árvores das cidades.
Mas o cinzentismo do humanus citadinus obliquos é surdo.
E o cri cri vem deste enfezado álamo curvado ao peso de maleitas múltiplas.
Apenas detectáveis por quem passa como todos deveriam passar por Lisboa.
De olhar erguido.

Country Boy aproxima-se.
Ela também.
Está em cima, na copa, no tronco, diz ela e outro que a eles se junta.
Os grilos estão sempre no chão, diz Country Boy, que aproxima a mão ligeira para que City Cricket denuncie a sua localização, silenciando-se. Fá-lo.
Agora é pessoal.
Country Boy perscruta a erva que cobre a terra, feita de minúsculos trevos, mirrados, agonizantes de fumos e pouco sol. City Cricket continua em silêncio. Ela e o outro continuam a teimar que o som vinha da copa. Mas City Boy já viu o orifício na casca da árvore, onde insere uma palha, batalha final insecto/homem que está, à partida, ganha. City Cricket salta, por fim, em pânico, e City Boy apressa-se a agarrá-lo para o recolocar naquele tão diminuto domínio de terra e ervas e árvore que nem para um grilo chega! Não adianta, já lá vai. E corre para uma morte quase certa! E tudo para que City Boy pudesse provar... nada!

Como quase tudo o que fez na vida...

terça-feira, setembro 01, 2009

The Journey

Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! Verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

José de Almada Negreiros

No dia 28 de Setembro, uma sexta-feira para que conste, dIAZ vai à Bica com um grande Como Quem Não Quer a Coisa estampado na testa. E bebe comedidamente e fala, por telefone, com Cláudia, amiga e companheira e disponibilizadora de apontamentos das aulas de Relações Internacionais e confissora de ombro de choro de desamores almadenses e sorriso do tamanho do mundo e tudo e tudo de há 15 anos para cá. Que é, para que conste, também, uma vida. E que estava lá em cima, em frente ao Maria Caxuxa. A Cláudia, não a vida. E o dIAZ sobe e encontra-a, mais a Inês, que é também toda sorrisos perpétuos, e outras três amigas que lutavam, com afinco, com as palhinhas das Caipirinhas e Oskas e Ões e coisas com laranja ou limão e laranja e limão ao mesmo tempo e morangos e uma história qualquer do Ah e tal afinal já não há morangos vão ter que esperar / Mas esperar quanto tempo? Foram buscar os morangos / Não, não vai haver mais morangos / Então vamos esperar para quê ou lá o que era! Beberrica aqui, cervejola ali, Bica again, mais não sei quantas histórias e risadas e coisas e gargalhadas de faltar o ar e as miúdas estão felizes porque vão para a Tailândia dia 24 de Setembro (A Cláudia é habitué... lembro-me de uma tshirt que me trouxe com o logo do detergente Tide em caracteres Thai, ainda eu tinha abdominais e vestia o M e ficava bem). E depois vão ao Laos e ainda descem à Malásia. A Inês vai andar por lá dois meses. Ou seja, também eu estaria feliz. Ou seja, estou feliz porque ainda se fazem amizades em idade de consolidar outras. Ou, no caso de alguns, perder as que se fizeram no caminho!

Na segunda-feira o dIAZ chega à redacção e recebe a notícia... Vai para a Tailândia dia 22 de Setembro...

Cláudia: tuuuut... tuuuuuuuuuuut... tuuuuuuuuuuuut... Tou sim?
dIAZ - Cláudia, estou lá uns dias antes, quando chegares liga, ok?
Cláudia - Ok... conheço uns sítios do melhor em Bangkok!
dIAZ - BOUA!
Cláudia - Mas olha lá... de 150 países para ires e entre 365 dias para escolher...
dIAZ - Não é tão bom quando o Universo conspira a nosso favor?

PEDIDO DE DESCULPAS acompanhado de devida JUSTIFICAÇÃO

o dIAZ, poeta sensacionista do mORPHEU e Narciso do Egipto, vem por este meio pedir Mil e Uma DESCULPAS aos seus leitores (cerca de 2) por este longo interrégno que é, por definição, um longo intervalo entre dois reinados. Resta-me esperar que este desaparecimento de D. Sebastião não signifique, pois, que para aí venha um Felipe (Felipe II, em Espanha) armado em reformador.

Referirei apenas, e julgo que baste, que a minha inspiração está, neste momento, num nível a que nós, os verdadeiros artistas, chamamos de Badaróiano.

Para fazer mal, estou quieto.

E, tantas tantas vezes, quietinho é que se está bem.
Vejamos:
Da próxima que vos for oferecida uma sempre bem-vinda sessão de sexo oral (com happy ending, em gíria de anúncios nas centrais do 24Horas), experimentem contrariar os quase espásmódicos golpes de anca acompanhando o delicioso linguarejar em torno da glande (ou seja, fiquem mazé quietinhos) e vão ver a diferença!

PIM!

quinta-feira, agosto 27, 2009

dIAZ MAU presents...

TÍT: Não que eu seja um gajo embirrante, mas...

SUBTÍT1: FAZ-ME IMPRESSÃO

TXT: As pessoas que não usam transportes públicos para ir para o trabalho.

SUBTÍT2: FAZ-ME ESPÉCIE

TXT: As pessoas que, nos transportes públicos, vão a fazer sudoku.

SUBTÍT3: FAZ-ME CONFUSÃO

TXT: As pessoas!

quarta-feira, agosto 26, 2009

Um dia destes...

... fizeram-me uma pergunta norte-americana. Daquelas que aparecem nos Facebooks e Hi5's para que os outros saibam um pouco mais sobre nós. Acho que é um exercício necessário, já que se opõe aos verdadeiros intuitos de sociabilização entre indivíduos de uma das "culturas" mais shallow deste mundo. Que se espelham na incontornável primeira pergunta quando alguém nos apresenta outro alguém: So, what do you do for a living? Não interessa a idade, se trata da higiene íntima, se depila as axilas com cera ou à gillette, se o Herman José continuaria a ter piada se os Gato Fedorento não tivessem surgido, qualquer coisa. Não. Interessa, antes de mais, de tudo o mais, saber qual a profissão. Foi a maneira mais simpática que os fellow citizens dos estates arranjaram para que possam saber, imediatamente, qual é o nível de ordenado daquele que estão a conhecer e, logo, se é ou não companhia que valha a pena integrar no círculo de amigos.

Quais os filmes da tua vida?
Ups... não é fácil. Vê-se tanta coisa e tantos marcam que... é quase impossível. Há os que passam e não entram nunca. Há os que não entram num dia, por alguma razão e, anos mais tarde, PIM. Há os que nos deixaram apáticos durante os três dias seguintes ao visionamento. Há os que nos fazem comprar discos, os que nos alegram, os que nos contagiam de lamechice barata, os que nos inundam de erudição cara, sei lá!

Lembrei-me que, por essas e outras razões, poderia não conseguir nunca enumerar um Top Ten, nem Twenty, talvez nem One Hundred mas, neste caso, só por questões de ordenamento por grau de preferência. O Amarcord do Fellini ficaria antes ou depois do Feios, Porcos e Maus do Scolla (ou Brutti Sporchi e Cattivi porque gosto MESMO deste título em italiano)? O Pulp Fiction em 34.ª posição ou essa pertenceria ao Trainspotting porque o Tempo de Ciganos o faria andar uma posição? E se o Gato Preto, Gato Branco estaria algures por aí, que lugar da lista seria reservado para o Underground, o La Haine, o Delicatessen, o Homem Elefante, A Laranja Mecânica ou o Goodbye Lenine? E os documentários... contam? E os diálogos dentro dos filmes, como o Amor à Queima-Roupa, com argumento de Quentin Tarantino mas cuja realização coube a um rookie qualquer?

E muita coisa se prova quando, por exemplo, hoje, AINDA mal das costas e, logo, de carro para Lisboa, oiço a RADAR a anunciar um grande tema dos Chemical e penso Uau, isto só pode ser um bom sinal mas, afinal, e bem a propósito, era o The Pills Won't Help You Now!!! Olha, obrigadinho, sim? Se calhar mudo mesmo para o Voltaren, já agora estouro com o estômago também e a música continua they're probably poisoning your body Ui, está cada vez melhor!

Decido, então, e por mera piada, ir ao youtube para ver que filmes estariam relacionados com este tema. SURPRESA: Este e este. E penso logo Ok, se não me lembrei destes dois, é melhor desistir mesmo da tal dIAZ's List Of Best Moovies Ever, sob risco de fugir à minha própria verdade!

E se há coisa que não quero é isso! Isso e esta PUTA desta Espondilose ou lá o que seja!

terça-feira, agosto 25, 2009

PAIN THE HORROR PAIN THE HORROR PAIN x INFINITO!

Num momento, o dIAZ está na praia.

A correr atrás de Mariachito e Tiaggen Dazz, primo-irmão daquele. A olhar para o biquini engraçado e que assenta bem. A encher de beijos o afilhado Daniel que chega para espalhar charme e sorrisos. A fumar depois do mergulho, virado para os primeiros raios de sol, que passam de tímidos a intensos num ápice.

No outro, o dIAZ está deitado na areia.

A dor é excruciante. Não me consigo mexer. As pessoas dizem que ouviram um estalo enorme. Eu não. Apenas tudo branco. Os olhos cheios de lágrimas. Nem um dedo consigo mexer, naquele momento. Nada. Penso em tudo o que tenho e poderei deixar de ter. Brincar com o meu filho, mandá-lo ao ar, andar de bicicleta, jogar à bola às Quartas depois do trabalho, andar na Gioconda. Mariachito quer dar beijinhos no dói-dói do pai. Acha que é uma borbulha ali, na omoplata. Digo-lhe que sim. Mas choro. É tudo o que consigo fazer. Isso e reparar se sinto as pernas, os dedos dos pés.

No dia seguinte, o dIAZ vai ao massagista.

Recomendado por muitos. O lugar? Não sei. Algures na Trafaria. Quinta da Corvina. Antigo Bairro da Pentelheira. Uma estrada de terra batida digna de uma prova de rally qualquer que eu conheceria se fosse apreciador. Que desemboca num ermo onde uma única casa se avista. É essa. Patos, galinhas, gatos e cães por todo o lado. Entro, por entre calendários da Nossa Senhora de Fátima e chouriços pendurados. O homem foi massagista do Belenenses. Mas em 1947. Tem 83 anos, sei mais tarde. Já foi operado às cataratas. Isso não o impede de me puxar por uma perna até que as lágrimas me voltem a saltar, em bica. Saio torto. Estou pior. Mas conheci mais um Portugal que, estando a 15 minutos de Lisboa, me pareceu, a todo o momento, Carrazeda de Montenegro.

sexta-feira, agosto 21, 2009

"dúia láik dágs"? - Brad Pitt as Mickey O'Neil, to Tommy (Stephen Graham), in Snatch

Mariachito ama cães.

Lembro-me de ter levado Oscar Tobias J&B Adolfo dIAZ, com as tripas de fora depois de uma dentadinha de carinho do rotweiller lá da rua, ao hospital veterinário e dizer-lhe, no caminho, Não morras meu ganda cabrão, o Gabriel está quase a nascer e quero vê-lo a brincar contigo, ouviste? Ele gemia, mas cumpriu. E Gabriel desfrutou da sua companhia, dias e dias a fio, até já articular, na perfeição, que aquela primeira estrela a aparecer no céu era o Óscar com a bola na boca, à espera que ele a tirasse e mandasse para longe...

Não há melhor despertar para Mariachito que uma dose (cuidadosamente racionada) de desenhos-animados a beber iogurte líquido de frutos silvestres, a comer um croissant do LIDL com manteiga Milhafre, vestir a muda que o pai escolheu (se for a t-shirt dos Ramones... é o delírio), dizer-me Bolas pai, essa roupa fica-te bem e, logo a seguir, descer para a rua em direcção ao café onde o Duque, um pitbull salvo das lutas nos areais da Trafaria, espera-o já de barrigana para o ar, lambendo-se em delícia antecipada.

Hoje, o costume. Eu a beber café e ele sentado ao lado do bicho, passando-lhe a mão na peitaça com a displicência de quem o faz rotineiramente. Passamos para o outro lado da rua, onde costuma estar o resto da canzoada em passeio matinal, uns pela trela, outros não, e ei-lo: o retriever de ar aparvalhado que, todos os dias, e assim que o vê, corre em sua direcção para se sentar, muito direito, pose de cão de exposição, à sua frente. Mariachito acha que ele é a sua vassoura electrónica, porque de cada vez que lhe passa a mão pela cabeça, o bicho abana o rabo, varrendo as folhas do passeio. Normalmente, é esta a única interacção destes dois. Mas hoje, extraordinariamente, a atenção do animal dirige-se para algo que se move por entre as roseiras do canteiro. Num salto, afugenta um pardal, ainda juvenil, que terá caído do ninho nos plátanos acima ou tentava ensaiar os primeiros voos. Mau timming. Já não vou a tempo de evitar que o loirinho lhe ponha a pata em cima com a violência suficiente para que, quando eu o pouse na palma da mão, já tenha iniciado aquele característico e gradual pender de pescoço. Gabriel, faz uma festa ao pardalito. O puto estica o indicador. Olha, pai, está a fechar os olhos! Penso rápido Vai dormir, filho. Ele continua a passar o dedito pela cabeça da cria Posso dar-lhe o beijinho da boa noite?

Deixo-o junto da palmeira e afastamo-nos...

Ó pai! Tu estás a enganar-me... ele não foi dormir, foi para as estrelinhas, ter com o Óscar!

quarta-feira, agosto 19, 2009

WE'RE ALL THE FUCKEN SAME... For God's Sake ADMIT IT!

Parte 1
A Colega de Trabalho


Queres ir almoçar comigo ao Colombo, diz ela com um leve sorriso, não sei o que brilha mais, se os lábios se os dentes que aparecem, timidamente, por trás dessa moldura rococó. Preciso de ir ao Colombo e preciso de companhia e as pestanas, longas, negras, batem quando pisca os olhos e fazem flap flap ou flanf flanf ou plim plim sei lá, estou confuso.
Mas vou!
E paramos em frente à loja da INTIMISSIMI e dá-me um arrepio. E ela sussura, ou julgo eu, porque quando ela fala parece-me que geme e quando está zangada parece-me gritar Estou-me a vir, cabrão, ou Não pares agora, por aí, uma coisa assim. É aqui, preciso que me ajudes a escolher uma coisa e não sei se me sinta o amigo gay ou um nerd de colarinho apertado (sim, eu sei, agora é fashion) a ajudar um ceguinho a atravessar a passadeira embora esteja com vontade de ser o bully que dá sapas ao monglóide da rua, perco a força nas perninhas, ai merda, dIAZ, já foste!
Mas entro!
Então, fica-me bem? e os seios que saltam da copa abaixo e a celulite que não há em duas nádegas da Vincianas, com o brilho do mármore, e uma púbis que, a existir, se veria por baixo do tecido transparente e os pés que de menina que nunca andou descalça. hé pá, fica mais ou menos e o suor que pinga, e o calor do provador e esta Chiquita que era para a sobremesa e me esqueci de tirar do bolso se calhar esse soutien fica melhor com os boxers ou então com aquelas brancas que fazem lembrar as meínhas de renda que as meninas levavam para a Feira de São Mateus. Ela replica Ou Venda das Raparigas. Eu também Tás comprada!

PARTE 2
O Colega de Faculdade que Agora é Grande Amigo


Queres ir almoçar comigo ao Colombo
, diz ele com aquele ar bonacheirão de quem já está a pensar na sandosha de leitão com um copito de vinho branco geladinho e um café na zona central para fumadores Preciso de ir ao Colombo.
E vou
E paramos à porta do AKI e percorre-me logo o arrepio de quem sabe que percorrerá corredores e corredores de material que poderia transformar a minha casa de velhos em algo que invejasse a colecção da AREA.
Mas entro.
Achas que esta máquina de rebites é alguma coisa de jeito? e eu só oiço velhos a dizer que a aparfusadora não aparafusa nada, e os empreiteiros a dizer que o cimento-cola não cola... ou não cimenta, ou lá o que é!
E então? Achas que aqui há polish? Ou isso é ali no Continente? Eu, assumindo o cliché que está prestes a sair-me, dobro as sobrancelhas e digo, pausadamente, para não denotar alguma irritação Não queres que te vá ajudar a escolher uma lingerizinha, também?

terça-feira, agosto 18, 2009

So this is goodbye...

... eu? Eu Heima!

"Heima means back home", Jon Thor (Jónsi) Birgisson

Em Estrangeiro

One Two Three Four
perhaps some more
Kiss me so many times
it reminds me times before...

... we sank into this bitterness
the joy of beeing together
whenever
always
Happyness is a hooker
it goes many ways

doesn't find me
I don't care
it's untouchable
I wouldn't dare...

A Silly Season e os Vestivais de Música - An Essay

TOMO I
WOLF SHOWS HIS TEETH

Não morro de amores por ele. Mas tem a sua piada. E agora, tem mais ainda! Porque no passado dia 13 de Agosto teve a atitude mais correcta. Porque à falta de respeito responde-se com a mesma.
Eu também vou a festivais de música. Mas não faço deles aquilo que não são. Para quem vê concertos na Aula Magna, Culturgest ou Coliseu e tantos outros lugares que tendem a APROXIMAR-NOS de quem está no palco, sabe que há coisas que não são possíveis em festivais, onde cada banda tem determinado tempo para poder dar largas à coisa. Uma espécie de concurso televisivo para ganhar um mísero microondas. Olha filho, tens 45 minutos para poder mostrar o que vales. Já ganhaste o teu, mas a tua actuação DE APENAS 45 MINUTOS, depois dos quais desligamos o PA, vai determinar se o público compra ou não o teu disco amanhã, first thing in the morning. É, pois, ingrato. No mínimo. O público que vai a festivais, com indumentária festivaleira, dinheiro a mais para o merchandising e bilhetes de sobra para ainda ganhar algum serve um estereótipo: costuma refilar mais pela falta de barracas de cerveja que pelo pouco tempo de que dispôs a banda pela qual tem preferência. O Patrick Wolf achou que ter voado, propositadamente, de Londres para Colónia, por mero respeito a um público que o venera (já que ele ODEIA tocar em festivais), e dispôr de apenas 45 minutos para dar-lhes o que merecem ERA POUCO. Agiu. E bem!

TOMO II
THE MINISTRY OF SILLY SEASON WALKS BY

Os Radiohead não voltarão a gravar um álbum. A coisa foi noticiada ontem à noite e hoje de manhã Portugal continua apenas a ser assolado pelo HN1, pela Superliga e, do mal o menos, a ser poupado dos fogos. Que seria a única coisa que faria "desaparecer" o HN1 do país. É claro que para quem ouve música da forma como mais se ouve música em Portugal, sintonizando uma estação MÁ no auto-rádio, quer é saber do HN1. E da Crise. Quem ouve música com atenção e arrepios na espinha sabe que essa é a única coisa que o salva de dias menos bons. Como o dia em que apanhemos o HN1 ou o VIH ou sejamos tolhidos por um AVC que, curiosamente, é o recordista de mortes causadas por aqui. Não do tempo de antena, claro.
Para esses, que ouvem música com o coração e outros orgãos que possam ser assolados pelo HN1, os Radiohead disponibilizaram um link onde, a partir de agora, e de vez em quando, que é quando lhes apetecer, deixam um tema que tenham feito uns dias antes. Ontem foi este. Amanhã logo se verá. Provavelmente, haverá mais doentes contagiados pelo HN1.