1. Não passou um ano desde que andei por areais Bahianos a fazer um das coisas mais compensatórias da até agora ainda sobejamente inútil vida do dIAZ. De manhã, cedinho, palmilhava, com a Betânia, alguns quilómetros de praia em busca de sinais de desova de tartarugas marinhas durante a noite. Identificado o lugar, desenterrar o local da postura, fazer a contagem dos ovos, voltar a enterrar o "ninho" e protegê-lo de potenciais predadores que, felizmente, hoje em dia, são apenas outros animais irracionais. Nem sempre foi assim. A Tamar ICMBio, que tão simpaticamente deixou o tuguinha interessado atrapalhar uma lida que, para eles, é mais que rotineira (embora os mova alguma paixão), nasceu porque, nesta linha de praias paradisíacas, os répteis eram um acepipe. Até aos anos 80, eram vigílias nocturnas à espera da chegada dos pobres animais, a chacina, a carapaça para artesanato, a carne para churrasco, os ovos para confeccionar as mil e uma sobremesas que tornaram a doçaria bahiana famosa. E fui realmente feliz quando vi aparecer, da areia, alguns minúsculos seres que, não importa qual a direcção em que os colocava, dirigiam-se sempre, e com uma urgência louca, para o mar. Acho que até é capaz de haver, por aí, fotos documentando a coisa.
2. Numa das incursões quinzenais ao supermercado indiano do Centro Comercial da Mouraria, o dIAZ ficou estático, incrédulo, pasmado, boquiaberto, assombrado, quando viu entrar a mulher com duas tartarugas de aquário (Tartarugas-de-ouvido-vermelho — Trachemys scripta elegans), ambas com cerca de 20cm de comprimento. Mas porquê tanta admiração? Se até eu tenho uma! Porque estavam ambas enclausuradas num garrafão de cinco litros de água (misericordiosamente) destapado. O pouco (ou nenhum) espaço fazia com que se debatessem, uma em cima da outra, ora de lado, ora em pé, num frenesim louco, imagino que desde que ali foram postas, há cerca de dois anos, quando ainda cabiam no gargalo. Mal sabia eu que o meu espanto se tornaria choque. É que da boca da "dona", saiu a mais estranha pergunta dirigida ao empregado na caixa, em pronúncia caipira Cê num téim nada prá cómê isso? e o meu espanto parece migrar para o rapaz que, também incrédulo, faz a típica pergunta de quem não quer pensar, sequer, que percebeu Comida para tartarugas? e ela replica Num sinhô... é prá cuzinhá, mêmu, e os olhos do rapaz abrem-se até quase revelar o nervo óptico para depois, com a maior das calmas, declarar num português correctíssimo Nós não somos chineses, minha senhora. Nem brasileiros, pelos vistos...
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quarta-feira, março 09, 2011
quarta-feira, dezembro 22, 2010
A XMas cArOL, nOt caRRoL
Rasgo-me de luz e serpentinas e confetis em despropósito de quadra, submeto-me a cintilares de bola de espelhos em danceteria decrépita, como se não sabendo que, nisto das danças, outras andanças, ainda que com menos espalhafato, decorrem longe dos olhos que, de cegos, vão tendo alguma coisa... até ao dia!
terça-feira, novembro 02, 2010
Estória de EMBALhAR...
Julgo que QUASE todos os pais passam pelo suplício que é a "fase" em que as crianças adquirem o início daquilo que será, futuramente, o denominado Humor Jabardolas. Contando que este não refina, apenas apura o nível da obscenidade, optei por tomar as devidas medidas enquanto a coisa não passa do "xixi", "cocó" e "peido", ainda que, de forma obviamente incómoda, estes vocábulos sejam proferidos, na maioria das vezes, à mesa. Sabendo que, na impossibilidade de vencê-LO, mais valeria juntar-se a ELE, o dIAZ põe agora o Mariachito a nanar com um estória de encantar inventada por ele. A coisa teve tanto sucesso, texto e ilustrações, que o dIAZ decidiu partilhar convosco, meus TRÊS (3) leitores assíduos.
A Improvável Vida da Remela Joana
Pág. 1 - Gabriel acordava, todos os dias (menos ao Sábado), com muito sono. Por muito que, na noite anterior se lhe dissesse Tens que te ir deitar senão acordas com muito sono, ele pedia sempre Mais um bocadinho, inventando mil e uma desculpas para continuar a correr pela casa com as Meias de Andar Descalço.
Pág. 2 - De manhã, os lençóis da cama pareciam ter cola. Ou seria de estarem quentinhos? Gabriel virava-se para o lado esquerdo quando o pai dizia Acorda, filho e rebolava para o lado direito quando a mãe dizia Pssssst. Depois, esfregava um pouco os olhos e, ainda antes de abri-los, tirava as remelas, enrolando-as entre os dedos. Depois, deitava-as fora.
Pág. 3 - Naquela manhã, porém, Gabriel sentiu que a remela do seu olho esquerdo tinha algo de especial. Em primeiro lugar, porque era maior e mais dura que as do costume. Depois, porque o pai disse Deixa-me ver e ele só pedia isso em relação aos macacos do nariz, aos quais chamava burriés, coisa que o Gabriel achava estranha por ser o mesmo nome que tinham aqueles caracóis do mar que costumavam apanhar nas poças das rochas de Vila Nova de Milfontes e Praia do Malhão.
Pág. 4 - Gabriel e o pai olharam atentamente para a remela e acharam que esta era, na verdade, especial. Era uma bela remela. Parecia mesmo olhar para eles e sorrir, como que pedindo Por favor, não se desfaçam de mim. Guardem-me. Fiquem comigo. Eu adoro-vos. Gabriel e o pai olharam um para o outro, sorriram e disseram, quase ao mesmo tempo Vamos chamar-te Joana. A remela sorriu e aninhou-se entre os dedos do Gabriel, para dormir, porque as remelas são como as corujas, dormem de dia e à noite passeiam-se pelas pálpebras das pessoas.
Pág. 5 - Às escondidas da mãe, que normalmente tinha nojo destas coisas, guardaram a Remela Joana na caixa de um anel, sobre um pouco de algodão, para que se sentisse quentinha e confortável. Deitaram-na com muito cuidado para não a acordar e cada um deu-lhe um beijinho, dos doces, como os do Gabriel. Depois, o pai foi trabalhar e o Gabriel foi para a escolinha, que era o trabalho dele.
Pág. 6 - Ao abrir a porta, o pai despediu-se Bom karaté, filho. Chego a horas de jogarmos um jogo e o Gabriel respondeu Ok, pai. Trabalha bem. Fecha a porta devagar para não acordares a Joana. Parecia, pois, um dia normal. Mas ambos sabiam que tinham, agora, uma remela muito especial para cuidar com carinho.
Pág. 7 - O dia passou devagar, porque normalmente os dias em que apetece chegar a casa depressa passam mais devagar. Gabriel só pensava na Joana e na hora em que iria revê-la, dar-lhe abraços e fazer-lhe cócegas. Ao vê-lo a olhar o vazio, a educadora perguntou-lhe Em que estás a pensar? ao que ele respondeu Na minha remela que deixei em casa. Ela abriu os olhos, muito espantada, e exclamou Blééérgh.
Pág. 8 - À tarde, e como de costume, o avô dIAZ e a avó Natália foram buscar o netinho querido. Gabriel apressou-se a contar-lhes a boa nova e gritou, já no carro Ó avó e avô, eu tenho uma remela que se chama Joana e está guardada numa caixinha para eu brincar com ela quando chegar a casa. Os avós olharam para ele e disseram, os dois ao mesmo tempo Bléééérgh.
Pág. 9 - Quando a mãe chegou a casa dos avós, o Gabriel não lhe disse nada, sabendo que devia guardar segredo. Mas os avós não conseguiram fazer o mesmo e disseram Ó Marta, sabias que o Gabriel tem uma remela guardada em casa? A mãe olhou para ele, abriu muito os olhos e exclamou Bleeeeeergh.
Pág. 10 - Quando chegaram a casa, o Gabriel correu para a caixinha, abriu-a e Joana disse, enfurecida, Estava a ver que nunca mais. Estou à tua espera há uma eternidade, com a sua voz muito aguda. Gabriel disse-lhe Desculpa, amiguinha, mas eu tenho que ir para a escola e não te posso levar porque as pessoas têm muito nojo de ti. Joana olhou muito séria para o seu dono e começou a chorar. Sinto-me tão sozinha, soluçou. Gabriel fez-lhe uma festa na cabeça, mesmo por cima do seu cabelo amarelo esverdeado, e tentou confortá-la Estou certo de que o meu pai vai arranjar uma solução para isso.
Pág. 11 - Gabriel ouviu a porta da rua fechar e correu para o pai, dando-lhe um enorme e forte abraço, à homem, com palmadinhas nas costas e tudo. Pai, a Joana está muito triste porque se sente muito sozinha, disse. Foram os dois falar com ela. Assim que o pai abriu a caixinha, ouviu a triste remela a chorar, um choro muito esganiçado. Então, pequena, porque choras?, perguntou.
Pág. 12 - A Joana respondeu, muito zangada Estou muito sozinha, é horrível. O meu dono Gabriel disse que tu tinhas uma solução para isto. O pai sorriu, olhou para o filho e viu que também ele estava a ficar triste. Foi então que o pai levantou a camisola, escarafunchou o umbigo e retirou de lá uma bolinha de cotão. Tinha uns grandes olhos e um sorriso enorme. Depositou-a ao lado da Joana e o cabeludo amigo apressou-se a apresentar-se Olá! O meu nome é João Cotão. E o teu?, Remela Joana, respondeu ela, enxugando as lágrimas. Foi amor ao primeiro nojo!
Pág. 13 - Ramela Joana e João Cotão casaram e foram muito felizes. Fizeram uma bonita casa dentro da caixinha. Até tinham uma televisão com o Disney Channel, o Canal Panda e o Toy Story 3. Às vezes, de manhã, o Gabriel depositava lá outra remela. E outra. E ainda outra. Mas nunca mais houve uma que fosse tão boa e grande e dura como a Joana. O pai seguia o exemplo e, às vezes, quando chegava a casa, punha na caixinha mais uma ou outra bolinha de cotão, que era sempre da cor da camisola que vestia. Em pouco tempo, a caixinha tornou-se uma casa feliz e alegre, cheia de bolinhas de cotão a brincar e remelas a cantar e a jogar às escondidas. João e Joana foram felizes para sempre e nunca mais ninguém lhes disse Bleeeeergh. Muitos anos depois, Gabriel descobriu porque é que as pessoas tinham tanto nojo de remelas e burriés. Porque, quando se é crescido, chamamos-lhes "excreção". E isso é, realmente, um nome muito feio. Joana é muito mais bonito. Martim é beto, diz o pai.
A Improvável Vida da Remela Joana
Pág. 1 - Gabriel acordava, todos os dias (menos ao Sábado), com muito sono. Por muito que, na noite anterior se lhe dissesse Tens que te ir deitar senão acordas com muito sono, ele pedia sempre Mais um bocadinho, inventando mil e uma desculpas para continuar a correr pela casa com as Meias de Andar Descalço.
Pág. 2 - De manhã, os lençóis da cama pareciam ter cola. Ou seria de estarem quentinhos? Gabriel virava-se para o lado esquerdo quando o pai dizia Acorda, filho e rebolava para o lado direito quando a mãe dizia Pssssst. Depois, esfregava um pouco os olhos e, ainda antes de abri-los, tirava as remelas, enrolando-as entre os dedos. Depois, deitava-as fora.
Pág. 3 - Naquela manhã, porém, Gabriel sentiu que a remela do seu olho esquerdo tinha algo de especial. Em primeiro lugar, porque era maior e mais dura que as do costume. Depois, porque o pai disse Deixa-me ver e ele só pedia isso em relação aos macacos do nariz, aos quais chamava burriés, coisa que o Gabriel achava estranha por ser o mesmo nome que tinham aqueles caracóis do mar que costumavam apanhar nas poças das rochas de Vila Nova de Milfontes e Praia do Malhão.
Pág. 4 - Gabriel e o pai olharam atentamente para a remela e acharam que esta era, na verdade, especial. Era uma bela remela. Parecia mesmo olhar para eles e sorrir, como que pedindo Por favor, não se desfaçam de mim. Guardem-me. Fiquem comigo. Eu adoro-vos. Gabriel e o pai olharam um para o outro, sorriram e disseram, quase ao mesmo tempo Vamos chamar-te Joana. A remela sorriu e aninhou-se entre os dedos do Gabriel, para dormir, porque as remelas são como as corujas, dormem de dia e à noite passeiam-se pelas pálpebras das pessoas.
Pág. 5 - Às escondidas da mãe, que normalmente tinha nojo destas coisas, guardaram a Remela Joana na caixa de um anel, sobre um pouco de algodão, para que se sentisse quentinha e confortável. Deitaram-na com muito cuidado para não a acordar e cada um deu-lhe um beijinho, dos doces, como os do Gabriel. Depois, o pai foi trabalhar e o Gabriel foi para a escolinha, que era o trabalho dele.
Pág. 6 - Ao abrir a porta, o pai despediu-se Bom karaté, filho. Chego a horas de jogarmos um jogo e o Gabriel respondeu Ok, pai. Trabalha bem. Fecha a porta devagar para não acordares a Joana. Parecia, pois, um dia normal. Mas ambos sabiam que tinham, agora, uma remela muito especial para cuidar com carinho.
Pág. 7 - O dia passou devagar, porque normalmente os dias em que apetece chegar a casa depressa passam mais devagar. Gabriel só pensava na Joana e na hora em que iria revê-la, dar-lhe abraços e fazer-lhe cócegas. Ao vê-lo a olhar o vazio, a educadora perguntou-lhe Em que estás a pensar? ao que ele respondeu Na minha remela que deixei em casa. Ela abriu os olhos, muito espantada, e exclamou Blééérgh.
Pág. 8 - À tarde, e como de costume, o avô dIAZ e a avó Natália foram buscar o netinho querido. Gabriel apressou-se a contar-lhes a boa nova e gritou, já no carro Ó avó e avô, eu tenho uma remela que se chama Joana e está guardada numa caixinha para eu brincar com ela quando chegar a casa. Os avós olharam para ele e disseram, os dois ao mesmo tempo Bléééérgh.
Pág. 9 - Quando a mãe chegou a casa dos avós, o Gabriel não lhe disse nada, sabendo que devia guardar segredo. Mas os avós não conseguiram fazer o mesmo e disseram Ó Marta, sabias que o Gabriel tem uma remela guardada em casa? A mãe olhou para ele, abriu muito os olhos e exclamou Bleeeeeergh.
Pág. 10 - Quando chegaram a casa, o Gabriel correu para a caixinha, abriu-a e Joana disse, enfurecida, Estava a ver que nunca mais. Estou à tua espera há uma eternidade, com a sua voz muito aguda. Gabriel disse-lhe Desculpa, amiguinha, mas eu tenho que ir para a escola e não te posso levar porque as pessoas têm muito nojo de ti. Joana olhou muito séria para o seu dono e começou a chorar. Sinto-me tão sozinha, soluçou. Gabriel fez-lhe uma festa na cabeça, mesmo por cima do seu cabelo amarelo esverdeado, e tentou confortá-la Estou certo de que o meu pai vai arranjar uma solução para isso.
Pág. 11 - Gabriel ouviu a porta da rua fechar e correu para o pai, dando-lhe um enorme e forte abraço, à homem, com palmadinhas nas costas e tudo. Pai, a Joana está muito triste porque se sente muito sozinha, disse. Foram os dois falar com ela. Assim que o pai abriu a caixinha, ouviu a triste remela a chorar, um choro muito esganiçado. Então, pequena, porque choras?, perguntou.
Pág. 12 - A Joana respondeu, muito zangada Estou muito sozinha, é horrível. O meu dono Gabriel disse que tu tinhas uma solução para isto. O pai sorriu, olhou para o filho e viu que também ele estava a ficar triste. Foi então que o pai levantou a camisola, escarafunchou o umbigo e retirou de lá uma bolinha de cotão. Tinha uns grandes olhos e um sorriso enorme. Depositou-a ao lado da Joana e o cabeludo amigo apressou-se a apresentar-se Olá! O meu nome é João Cotão. E o teu?, Remela Joana, respondeu ela, enxugando as lágrimas. Foi amor ao primeiro nojo!
Pág. 13 - Ramela Joana e João Cotão casaram e foram muito felizes. Fizeram uma bonita casa dentro da caixinha. Até tinham uma televisão com o Disney Channel, o Canal Panda e o Toy Story 3. Às vezes, de manhã, o Gabriel depositava lá outra remela. E outra. E ainda outra. Mas nunca mais houve uma que fosse tão boa e grande e dura como a Joana. O pai seguia o exemplo e, às vezes, quando chegava a casa, punha na caixinha mais uma ou outra bolinha de cotão, que era sempre da cor da camisola que vestia. Em pouco tempo, a caixinha tornou-se uma casa feliz e alegre, cheia de bolinhas de cotão a brincar e remelas a cantar e a jogar às escondidas. João e Joana foram felizes para sempre e nunca mais ninguém lhes disse Bleeeeergh. Muitos anos depois, Gabriel descobriu porque é que as pessoas tinham tanto nojo de remelas e burriés. Porque, quando se é crescido, chamamos-lhes "excreção". E isso é, realmente, um nome muito feio. Joana é muito mais bonito. Martim é beto, diz o pai.
terça-feira, setembro 21, 2010
...
fazer as pazes com o mundo quando vejo os teus pêlos, loiros, na contraluz que traça raios por entre os buracos do estore, querer ir buscar a máquina fotográfica para que tenha um pouco disto quando bem me apeteça, não o fazer para que não te acorde e possa ter o teu hálito quente, húmido, apetecível de língua até à garganta, tenho uma erecção de rebentar, porra, só para mim, o hálito e não a erecção, pensar se isto também será assim com as estrelas de cinema, se também reparam, se os pêlos incomodam, se se raspam para que a picha pareça maior, se acham que, embora um pouco descaídas, as mamas da Julianne Moore ou da Jessica Alba são na mesma bonitas, apetecíveis, se têm vontade de lamber a prega da barriga, se o mundo pára por minutos quando todos os minutos contam, "se isto é um sonho não me acordem", como tantas vezes se lhes ouviu em filmes chatos e, porém, talvez nunca o tenham sentido, talvez sim, talvez deva fazer umas torradas com doce de tomate da minha mãe, talvez lhe deva meter umas nozes, talvez não deva ir mijar para prolongar esta erecção, que fica ainda maior quando me deito para o lado esquerdo, como agora, talvez o Cavaco se recandidate, filho da puta, talvez ela deva pintar as unhas dos pés de verde outra vez, não se lhes vê uma veia, foda-se são lindos, queria tanto poder metê-lo e ficar assim, imóvel, horas e horas a fio, falar de como foi o almoço, de como os semáforos da Avenida da Liberdade ficam todos vermelhos desde que se apanhe um, de como tenho a certeza que o vizinho de cima é bófia porque lhe vi as camisas azuis no estendal e, de vez em quando, muito de vez em quando, gemer, até que ela tenha a certeza de que sou eu, eu e mais ninguém, e todos falam de como doem as quedas mas o pior é, estando deitado, cair por terra...
quarta-feira, agosto 11, 2010
Anedota "Virginie, tu va tomber" reinventada OU Meu Querido Mês de Agosto
Tenho alguma estima pela ameixeira que, por baixo da minha varanda, serve de abrigo para pernoita a inúmeros pintassilgos (Reino: Animalia, Filo: Chordata, Classe: Aves, Ordem: Passeri, Família: Fringillidae, Género: Corduelis).
Ontem, depois de regressar de banhos de mar nocturnos com mi hijo, deparei-me com uma turba de putos (que nunca vi cá no largo) jogando à bola naquele chinfrim característico. Até aí, tudo normal e bom. Gosto (like). Aparte, porém, uma pequena ovelha negra divertia-se a chutar a bola, por baixo da árvore e com patardos de força, contra a copa, provocando a fuga, espavorida, de todo o bando em direcção às palmeiras em frente (que, como facilmente concluiremos, se nos colocarmos no lugar de um pintassilgo, oferece parca protecção). O petiz repetia, então, a operação (se bem que na palmeira, também eu o reconheci, não repercutia a espectacularidade da coisa), alternando entre uma e outra árvore.
Ora, eu, que também já fui puto parvo, como todos os putos homens em idade disso, que corresponde mais ou menos à idade das miúdas parvas que querem ser veterinárias ou cabeleireiras e depois acabam a engordar atrás de um balcão da repartição, casadas com um gordão que, enfim, não vale um pirete na cama mas paga as contas a horas, até achei piada à coisa. Acho que cheguei, inclusivamente, a esboçar um sorriso. Quando, porém, aquilo começou a chegar a ciclos de dezenas, ou seja, já era uma coisa concertada e que, pelo ar decidido do fedelho, continuaria pela noite dentro, decidi intervir:
Eu - Ouve lá, páras com isso ou quê? Deixa lá os pássaros, pá!
Ele - Je comprends pas...
Eu - Ai não? Vê lá mazé se não apanhas já ligne bleue para a Porte Dauphine!
Ele - Quoi?
Eu - É quoi, é! Voltas pra Saint Denis que é um repent!
Entretanto, Mariachito aparece na varanda:
Mariachito - O que foi, pai?
Eu - Nada, filho, é um mec que está armado em parvo lá em baixo...
Mariachito - Um mec? O que é um mec?
Eu - É um avec, filho, desses de Agosto!
Mariachito - Um avec? Deixa-me veeeeeeeeeeer!
domingo, agosto 01, 2010
Saturday Night Live With dIAZ
Na Praceta Aquilino Ribeiro, Quinta Nova, Charnéque Sur Mer, há uma palmeira que larga o dendém na Primavera. No Verão, o chão é uma enorme extensão de sementes que Mariachito colhe, com delicadeza, e guarda nos bolsos da camisa, calções, calças ou o que seja que veste naquele dia. Diz que são ovos de dinossauro. Azar o meu que, um dia, terei brontossauros e triceratops a nascer na máquina de lavar, debaixo dos móveis ou mesmo atrás da sanita, para referir apenas alguns dos lugares onde já fui dar com os pequenos tesourinhos que ele junta num porco que deveria ser para acolher moedas. Ontem, porém, o fedelho encontrou algo mais fascinante... uma espécie de conta de colar em forma de feijão. Olha, pai, olha, este ovo é diferente, é de quê? Assumo agora que deveria ter demonstrado mais interesse Bah, é de Tiranossauro, pá, esse leva mais tempo a eclodir. Ainda os bichos-da-seda vão nascer primeiro! O enredo da noite tem início cinco minutos depois:
Ele - Paaaaaiiiii... vou meter o ovo do tiranossauro no nariz...
Eu - Ai não vais não, porque depois não consegues tirar e temos de ir ao hospital!
- Outros cinco minutos depois:
Ele - Paaaaaiiiii... meti o ovo de tiranossauro no nariz e não consigo tirar...
- Tentei o aspirador do ranho, a pinça das sobrancelhas da mãe, e até o olhar para o sol para que espirrasse e tapássemos todos os outros orifícios que interferissem com a narina esquerda. Nada. Clínica Charniqueira com ele. O enfermeiro tenta com várias pinças. Mariachito está estranhamente sossegado e colaborante. Portas-te muito bem, rapaz, diz o prestativo hombre, que não me levou dinheiro. Pois, eu sou do Benfica, responde o puto, que toma, só ali, real consciência do que fez. Desculpa, pai, por te ter desobedecido deliberadamente [a fala do Rei Leão que repete sempre que pode ]. O enfermeiro desiste: Não consigo. Está muito fundo. Tem de ser um otorrino.
Hospital Garcia da Horta, que serve Almada, Seixal, Barreiro e Montijo, sendo que as urgência pediátricas destes dois últimos encerraram. 1h03m depois da chegada: Não temos otorrino a esta hora. Terá de ir para Santa Maria. Penso, mas não digo É curioso... até dia 15 deste mês tenho de pagar 160€ de Segurança Social e não creio que um simples "não tenho dinheiro agora, vão pedir aos ricos, meus chulos dum cabrão" sirva de desculpa. Em direcção a Lisboa, estão 36.519 carros de pessoas que vieram, sem pagar (acho bem), desfrutar das praias para a manutenção das quais pago eu a contribuição autárquica (acho mal). Penso, mas não digo É engraçado... Nem para estas situações existe um dístico de Morador que me facilitasse a coisa, como aqueles que isentam quem reside em Lisboa, cidade que me obriga a pagar €1,40 para lá entrar e cerca de €1 por hora de parquímetro se levar carro. Eu vou, contudo, trabalhar, isto é, contribuir para o suposto avanço das coisas. Não vou apanhar sol e banhar-me no Atlântico!!!
Já no Santa Maria, chamam-nos para a triagem 1h43m depois da chegada. Mariachito está, como sempre, eléctrico. Corre, canta, fala pelos cotovelos e restantes articulações. Penso dizer-lhe Ouve, pá, tens que te fazer de doente para sermos atendidos mais rapidamente. Se mostras que estás bem nem amanhã saímos daqui, mas achei que deveria evitar lições de Português-A-Lidar-Com-A-Merda-Que-Pode-Ser-Viver-Em-Portugal para daqui a uns anos. Aguarde na sala-de-espera, ordena-me, sem um por favor ou outra reverência qualquer, a enfadada senhora. Penso, mas não digo Aguardar? Mais ainda? Lembrei-me agora que até dia 15 de Agosto tenho de pagar o Trimestre do IVA e talvez não possa exclamar, perante o executante que se faz acompanhar sempre por GNR's quando vai numa de penhorar bens, "Olhe meu caro amigo, aguarde aí no átrio do prédio por favor, enquanto eu tento ganhar honestamente a vida, já que não posso vender drogas e armas, forma curiosa de fugir ao fisco".
Quase 3h depois, chamam-nos. Penso, mas não digo O meu filho só tem quatro anos. E, porque é meu, é um puto especial. Quererei eu este país para ele? Merece ele este Estado? Não! Encorajá-lo-ei a sair de Portugal até que este seja um lugar feito para os portugueses, o povo mais belo do mundo. Por agora, é feito à medida dos cães-de-fila do Estado, os privilegiados. Militares, polícias, funcionários de Câmaras Municipais, Tribunais, Finanças, SEF's, Segurança Social, são gente que se queixa de barriguinha-cheia. E não se recusam a assumi-lo. Apenas não fazem a mínima ideia do que é estar pior que eles. Quando esta gente se queixa, arreda, sem sequer dar por disso, todos os outros, que estão PIOR AINDA, para o Quarto Escuro. O Buraco Negro que é ser-se português com Cartão de Contribuinte.
Quase 4h depois, Mariachito já está desobstruído. A Ponte 25 de Abril não.
Do lado da foz do Tejo, ainda há luz. É púrpura e faz um jogo de sombras com o Padrão dos Descobrimentos, os silos da Trafaria, o Bugio. Penso, mas não digo Merece este Estado um Povo destes? Não. Vamos todos embora daqui. Gente de real valor, os talentosos, os bons... Partamos e sejamos os eternos retornados de Angola, recordando para sempre as belezas naturais, as tasquinhas, as sardinhadas e os dias de praia até à noite, as vindimas, o queijo de Serpa, as rapidinhas entre as rochas do Sudoeste Alentejano, as cadelinhas a brotar da areia da Fonte da Telha, as anémonas a agarrarem-nos os dedos nas poças das rochas das praias. Mas façamo-lo longe daqui. Deixemos isto entregue a quem estragou! A quem continua a estragar. A quem assina, nas Finanças, ordens de penhora de bens e depois consegue dormir à noite. Aos polícias que ganham percentagem sobre as multas que passam. Aos funcionários de todos os guichets públicos que nem um sorriso dão a ninguém, tratando-nos como robots, lá porque o são!
Por mim, pelo meu filho mas, também, pelo mais belo povo do mundo, com todos os seus bónus, buços e ausência de dentes incluídos, cheiro a ovelha e insanas conversas de pastores, donos de tascas com canários estridentes de norte a sul, unhas sujas de quem trabalha a terra do condado, velhos com cães obesos, de bengalas de loureiro e bóinas aos quadrados, mulheres de pescadores a chorar mortes que viram da praia, mães como não há no resto do mundo, rostos morenos de rugas fundas a sul, rostos rosados a norte, camisas e samarras no pino do verão, copos de branco antes do almoço, litros de tinto depois do jantar, por todos eles e outros ainda, desde que portugueses, os verdadeiros e bons, os humildes e Grandes, os que Criam, não os que Destroem...
... Quero mesmo muito que este país SE FODA!
Ele - Paaaaaiiiii... vou meter o ovo do tiranossauro no nariz...
Eu - Ai não vais não, porque depois não consegues tirar e temos de ir ao hospital!
- Outros cinco minutos depois:
Ele - Paaaaaiiiii... meti o ovo de tiranossauro no nariz e não consigo tirar...
- Tentei o aspirador do ranho, a pinça das sobrancelhas da mãe, e até o olhar para o sol para que espirrasse e tapássemos todos os outros orifícios que interferissem com a narina esquerda. Nada. Clínica Charniqueira com ele. O enfermeiro tenta com várias pinças. Mariachito está estranhamente sossegado e colaborante. Portas-te muito bem, rapaz, diz o prestativo hombre, que não me levou dinheiro. Pois, eu sou do Benfica, responde o puto, que toma, só ali, real consciência do que fez. Desculpa, pai, por te ter desobedecido deliberadamente [a fala do Rei Leão que repete sempre que pode ]. O enfermeiro desiste: Não consigo. Está muito fundo. Tem de ser um otorrino.
Hospital Garcia da Horta, que serve Almada, Seixal, Barreiro e Montijo, sendo que as urgência pediátricas destes dois últimos encerraram. 1h03m depois da chegada: Não temos otorrino a esta hora. Terá de ir para Santa Maria. Penso, mas não digo É curioso... até dia 15 deste mês tenho de pagar 160€ de Segurança Social e não creio que um simples "não tenho dinheiro agora, vão pedir aos ricos, meus chulos dum cabrão" sirva de desculpa. Em direcção a Lisboa, estão 36.519 carros de pessoas que vieram, sem pagar (acho bem), desfrutar das praias para a manutenção das quais pago eu a contribuição autárquica (acho mal). Penso, mas não digo É engraçado... Nem para estas situações existe um dístico de Morador que me facilitasse a coisa, como aqueles que isentam quem reside em Lisboa, cidade que me obriga a pagar €1,40 para lá entrar e cerca de €1 por hora de parquímetro se levar carro. Eu vou, contudo, trabalhar, isto é, contribuir para o suposto avanço das coisas. Não vou apanhar sol e banhar-me no Atlântico!!!
Já no Santa Maria, chamam-nos para a triagem 1h43m depois da chegada. Mariachito está, como sempre, eléctrico. Corre, canta, fala pelos cotovelos e restantes articulações. Penso dizer-lhe Ouve, pá, tens que te fazer de doente para sermos atendidos mais rapidamente. Se mostras que estás bem nem amanhã saímos daqui, mas achei que deveria evitar lições de Português-A-Lidar-Com-A-Merda-Que-Pode-Ser-Viver-Em-Portugal para daqui a uns anos. Aguarde na sala-de-espera, ordena-me, sem um por favor ou outra reverência qualquer, a enfadada senhora. Penso, mas não digo Aguardar? Mais ainda? Lembrei-me agora que até dia 15 de Agosto tenho de pagar o Trimestre do IVA e talvez não possa exclamar, perante o executante que se faz acompanhar sempre por GNR's quando vai numa de penhorar bens, "Olhe meu caro amigo, aguarde aí no átrio do prédio por favor, enquanto eu tento ganhar honestamente a vida, já que não posso vender drogas e armas, forma curiosa de fugir ao fisco".
Quase 3h depois, chamam-nos. Penso, mas não digo O meu filho só tem quatro anos. E, porque é meu, é um puto especial. Quererei eu este país para ele? Merece ele este Estado? Não! Encorajá-lo-ei a sair de Portugal até que este seja um lugar feito para os portugueses, o povo mais belo do mundo. Por agora, é feito à medida dos cães-de-fila do Estado, os privilegiados. Militares, polícias, funcionários de Câmaras Municipais, Tribunais, Finanças, SEF's, Segurança Social, são gente que se queixa de barriguinha-cheia. E não se recusam a assumi-lo. Apenas não fazem a mínima ideia do que é estar pior que eles. Quando esta gente se queixa, arreda, sem sequer dar por disso, todos os outros, que estão PIOR AINDA, para o Quarto Escuro. O Buraco Negro que é ser-se português com Cartão de Contribuinte.
Quase 4h depois, Mariachito já está desobstruído. A Ponte 25 de Abril não.
Do lado da foz do Tejo, ainda há luz. É púrpura e faz um jogo de sombras com o Padrão dos Descobrimentos, os silos da Trafaria, o Bugio. Penso, mas não digo Merece este Estado um Povo destes? Não. Vamos todos embora daqui. Gente de real valor, os talentosos, os bons... Partamos e sejamos os eternos retornados de Angola, recordando para sempre as belezas naturais, as tasquinhas, as sardinhadas e os dias de praia até à noite, as vindimas, o queijo de Serpa, as rapidinhas entre as rochas do Sudoeste Alentejano, as cadelinhas a brotar da areia da Fonte da Telha, as anémonas a agarrarem-nos os dedos nas poças das rochas das praias. Mas façamo-lo longe daqui. Deixemos isto entregue a quem estragou! A quem continua a estragar. A quem assina, nas Finanças, ordens de penhora de bens e depois consegue dormir à noite. Aos polícias que ganham percentagem sobre as multas que passam. Aos funcionários de todos os guichets públicos que nem um sorriso dão a ninguém, tratando-nos como robots, lá porque o são!
Por mim, pelo meu filho mas, também, pelo mais belo povo do mundo, com todos os seus bónus, buços e ausência de dentes incluídos, cheiro a ovelha e insanas conversas de pastores, donos de tascas com canários estridentes de norte a sul, unhas sujas de quem trabalha a terra do condado, velhos com cães obesos, de bengalas de loureiro e bóinas aos quadrados, mulheres de pescadores a chorar mortes que viram da praia, mães como não há no resto do mundo, rostos morenos de rugas fundas a sul, rostos rosados a norte, camisas e samarras no pino do verão, copos de branco antes do almoço, litros de tinto depois do jantar, por todos eles e outros ainda, desde que portugueses, os verdadeiros e bons, os humildes e Grandes, os que Criam, não os que Destroem...
... Quero mesmo muito que este país SE FODA!
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My Little Beautiful Life,
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sexta-feira, julho 30, 2010
Slow Days
Sim, é uma boa definição de férias, penso. Não saber, a certa altura, o que fazer, tal é a oferta, e ter um ligeiro desconforto com isso. A praia estava insuportável [mesmo dentro de água] e voltei para as divisões ligadas por um corredor onde corre uma leve brisa. A possível. O meu Yamaha Natural Sound AV Receiver RX-V450 processa isto, porque o novo dos Arcade desiludiu-me. Por agora. Talvez daqui a uns dias volte a tentar. Mariachito e sua priminha Leonor, cansados da sua monótona vida, cheia de preocupações e agruras, decidem alegrar os seus dias, cinza e agoirentos, coitados. Eles, não os dias. O dIAZ continua a ouvir música, recostado no pouff-de-ouvir-música. Os fedelhos, como que sabendo que ser-se criança é feito de pequenos nadas que, quando só restarem lembranças, serão recordações a puxar largos sorrisos, daqueles que se têm num transporte público e as outras pessoas ficam a achar que somos malucos, colocam mão à exigente obra. Munidos de um marcador de ponta grossa, pintam, cada um a sua, as duas unhas dos dedos grandes dos pés do dIAZ. De Azul.
Olho com demora, como que apreciando a execução técnica da coisa.
E Sorrio.
Não estás zangado, tio? Quem lhe responde não sou eu, é ele: Não, Leonor, o meu pai não se zanga com estas coisas. Eu lanço mais um olhar sobre A Obra, confesso que pensei por momentos como haveria de tirar aquilo, mas lembrei-me depois disto: Como tenho um filhO, nunca me ocorre que as miúdas poderão ter, de facto, estas coisas de brincar às Corporation Dermoestéticas e Coiffeurs e Peluquerias e Unhas de Gel Nails r' Us. Limitei-me, assim, acometido de uma repentina sapiência em lidar com piticas, a dizer Não foi uma boa escolha de cores... o azul não dá com o meu tom de pele e, aliás, não tenho nada para vestir com isto!
Ó tio, o que é que estás para aí a dizer? Não percebi nada!
Olho com demora, como que apreciando a execução técnica da coisa.
E Sorrio.
Não estás zangado, tio? Quem lhe responde não sou eu, é ele: Não, Leonor, o meu pai não se zanga com estas coisas. Eu lanço mais um olhar sobre A Obra, confesso que pensei por momentos como haveria de tirar aquilo, mas lembrei-me depois disto: Como tenho um filhO, nunca me ocorre que as miúdas poderão ter, de facto, estas coisas de brincar às Corporation Dermoestéticas e Coiffeurs e Peluquerias e Unhas de Gel Nails r' Us. Limitei-me, assim, acometido de uma repentina sapiência em lidar com piticas, a dizer Não foi uma boa escolha de cores... o azul não dá com o meu tom de pele e, aliás, não tenho nada para vestir com isto!
Ó tio, o que é que estás para aí a dizer? Não percebi nada!
quinta-feira, junho 17, 2010
New Age
Se eu disser que sempre vivi PARA e DE música acha-se que, no espaço máximo de um ano, irei concorrer a um programa televisivo do qual vou sair com um disco gravado, uma digressão paga e uma turba de imberbes pitas que, por hora, até são jeitosas mas que, como têm demonstrado as evidências dos últimos dez anos, estarão gordíssimas aos 30, lambendo o ketchup da MacDonalds dos cantos da boca com a mesma sensualidade com que um dromedário rumina o que ainda lhe resta num dos quatro estômagos.
Porquanto, di-lo-ei de outra forma.
Não me lembro de um só dia da minha vida em que não tenha ouvido, propositada e atentamente, música.
Não estou a dizer que tal não tenha ocorrido, estou apenas a dizer que, a haver, apaguei-o da memória.
Talvez não a um ou outro momento em que, não estando a ouvir música, achei que o Tema Tal encaixava ali muito bem.
Lembro-me de ter visto, com Popitz, a Björk a compor músicas com os ritmos dos comboios nos carris ou do fabrico de panelas no Dancer In The Dark e pensar Meu dEUZ, dIAZ, as vezes que tu fazes isto!
Não me lembro de viagens para a escola secundária sem walkman, faculdade e primeiros trabalhos sem discman ou, mais recentemente, sem leitor de MP3... Elas existiram, claro, mas sempre devido a causas óbvias como faltas de pilhas ou bateria. Mas era tudo um inferno e as pessoas mais feias e o dia mais cinzento, triste, de sentidos despertos para buzinas, conversas de chacha e outras coisas que interessam pouco mais que nada.
Lembro-me de, na fase das Rádios Piratas, esperar horas pelos meus temas favoritos e então, muito rapidamente para que o início também constasse, fazer rec no gravador mono usado para fazer entrar os jogos no ZX Spectrum e encostá-lo à coluna da aparelhagem.
Lembro-me das K7's gravadas às namoradas com todos os autocolantes preenchidos de forma a que, mesmo que inaudível, passasse a ser um objecto de decoração.
Lembro-me das K7's gravadas às que eu queria que fossem minhas namoradas, verdadeiras obras de arte.
Não me lembro de um só texto que tenha escrito sem phones nos abanos.
Lembro-me de todas as músicas que serviram de fundo a momentos determinantes e não dos momentos determinantes que estavam para lá da música que tocava, como o Mighty Joe Moon dos Grant Lee Buffalo quando tive o primeiro acidente de carro, o Bernice Bobs Her Hair dos Divine Comedy quando lhe pus o cabelo atrás da orelha e a puxei para o beijo de uma vida, o Take Me Out dos Red House Painters quando ela disse Sim ou, na minha cabeça, o To Build A Home dos Cinematic Orchestra quando peguei a primeira vez no meu filho.
Lembro-me de como, nos ensaios da banda, era sempre eu que aumentava o volume, suave indício.
Lembro-me de como me tocou o It's All Gonne, Pete Thong e de reconhecer, de algures, aquele apito do lado esquerdo, das perdas de equilíbrio e das leves pontadas.
Lembro-me de como uma lágrima me caiu quando o médico disse 75% no esquerdo, 80% no direito, com tendência a piorar, e de não ter pensado numa só música para aquele momento.
Porquanto, di-lo-ei de outra forma.
Não me lembro de um só dia da minha vida em que não tenha ouvido, propositada e atentamente, música.
Não estou a dizer que tal não tenha ocorrido, estou apenas a dizer que, a haver, apaguei-o da memória.
Talvez não a um ou outro momento em que, não estando a ouvir música, achei que o Tema Tal encaixava ali muito bem.
Lembro-me de ter visto, com Popitz, a Björk a compor músicas com os ritmos dos comboios nos carris ou do fabrico de panelas no Dancer In The Dark e pensar Meu dEUZ, dIAZ, as vezes que tu fazes isto!
Não me lembro de viagens para a escola secundária sem walkman, faculdade e primeiros trabalhos sem discman ou, mais recentemente, sem leitor de MP3... Elas existiram, claro, mas sempre devido a causas óbvias como faltas de pilhas ou bateria. Mas era tudo um inferno e as pessoas mais feias e o dia mais cinzento, triste, de sentidos despertos para buzinas, conversas de chacha e outras coisas que interessam pouco mais que nada.
Lembro-me de, na fase das Rádios Piratas, esperar horas pelos meus temas favoritos e então, muito rapidamente para que o início também constasse, fazer rec no gravador mono usado para fazer entrar os jogos no ZX Spectrum e encostá-lo à coluna da aparelhagem.
Lembro-me das K7's gravadas às namoradas com todos os autocolantes preenchidos de forma a que, mesmo que inaudível, passasse a ser um objecto de decoração.
Lembro-me das K7's gravadas às que eu queria que fossem minhas namoradas, verdadeiras obras de arte.
Não me lembro de um só texto que tenha escrito sem phones nos abanos.
Lembro-me de todas as músicas que serviram de fundo a momentos determinantes e não dos momentos determinantes que estavam para lá da música que tocava, como o Mighty Joe Moon dos Grant Lee Buffalo quando tive o primeiro acidente de carro, o Bernice Bobs Her Hair dos Divine Comedy quando lhe pus o cabelo atrás da orelha e a puxei para o beijo de uma vida, o Take Me Out dos Red House Painters quando ela disse Sim ou, na minha cabeça, o To Build A Home dos Cinematic Orchestra quando peguei a primeira vez no meu filho.
Lembro-me de como, nos ensaios da banda, era sempre eu que aumentava o volume, suave indício.
Lembro-me de como me tocou o It's All Gonne, Pete Thong e de reconhecer, de algures, aquele apito do lado esquerdo, das perdas de equilíbrio e das leves pontadas.
Lembro-me de como uma lágrima me caiu quando o médico disse 75% no esquerdo, 80% no direito, com tendência a piorar, e de não ter pensado numa só música para aquele momento.
segunda-feira, maio 31, 2010
Family Evening
A Pequena Sereia, versão original, sem legendas, pela 391.ª vez.
Depois de um ou outro O que é que ela está a dizer? ao início, segue-se uma longa hora de silêncio, até à parte em que a Sea Witch rouba o tridente ao King Triton...
Mariachito - Pai... eu quero ver as mamas da bruxa!
dIAZ - Porquê, filho?
Mariachito - Porque ela agora está enoooorme!
- Mais um gajo que vai gostar de gajas de mamas grandes... O dIAZ anda a educar um CLICHÉ!
Depois de um ou outro O que é que ela está a dizer? ao início, segue-se uma longa hora de silêncio, até à parte em que a Sea Witch rouba o tridente ao King Triton...
Mariachito - Pai... eu quero ver as mamas da bruxa!
dIAZ - Porquê, filho?
Mariachito - Porque ela agora está enoooorme!
- Mais um gajo que vai gostar de gajas de mamas grandes... O dIAZ anda a educar um CLICHÉ!
sábado, março 20, 2010
Sáudádji
No outro lado da linha — e do Atlântico —, atende a voz aguda que ansiava ouvir. Grita, imediatamente, Ó mããããããe... é o pai. Conta-me o que tem feito, que está com saudades, que o avô esta um pouco melhor. Eu faço o costume, exorcizando a falta que este meu bocadão me faz, Olha, filho... sabes que os macacos andam a roubar o pequeno-almoço ao pai? E ele Óóóóóhhh... Isso não pode ser. Continuo E sabes que há aqui sapos do tamanho do Kadafi (o cão dos meus pais)? E ele A sério, pai? Prossigo E sabes que no candeeiro da varanda do meu quarto dormem dois morcegos durante o dia? E ele Ahahahahahahahahah. Acabo o rol com E sabes que há aqui uns lagartos muito grandes, chamados iguanas? E ele Ó mãããããeeeee... temos que ir salvar o pai!
segunda-feira, fevereiro 08, 2010
São rosas, meu amo... são rosas!
Tento, num esforço por vezes desumano, que o pequeno mas prolífero cérebro de Mariachito não seja maculado por vis visões adultas de verdades que nem sequer são, na sua esmagadora maioria, absolutas. Um planeta colorido, povoado de coisas belas onde nem sequer os monstros são assustadores - obrigado, Maurice Sendak, Spike Jonze e Tim Burton - é, por agora, uma missão cumprida por mim e por quem, comigo, ajuda a fazer com que aquele sorriso, contagiante, sincero e espontâneo, esteja ali, da boca bem desenhada aos olhos enormes e negros, desde que acorda até serem horas da estória, que sabe sempre de cor. Não tenho sido, pois, eu a educá-lo. Ou porque não me concedo tal profissionalismo ou porque, afinal, tem sido ele quem me mostra um Mundo Novo, Admirável porque mais inocente que o do Huxley, Apaixonante porque vem explicado numa voz de falsete a quem os anos ainda não tiraram a ingenuidade. Nem sequer os primeiros dentes, quanto mais. E quando não sorri olha. Com olhos de ver coisas mais bonitas onde estão aquelas em que eu nunca repararia, distante de toda a fealdade que os anos trazem nas garras. Como quando andamos de carro a chover. Eu conduzo com vontade de cuspir escarras virais na testa de quem faz da faixa do meio a ciclovia da vida, ele olha, sonhador, para as gotas que se deslocam, ziguezagueando, no vidro. Eu dou máximos ao palhaço que trava à minha frente sem razão aparente, ele continua a olhar, piscando de quando em vez, para as gutícolas que dançam. Eu chamo palhaço ao palhaço que não faz pisca para a esquerda, ele persiste na sua contemplação. Eu pergunto-lhe "O que estás a ver, filho?" ele responde "As águas cadentes"!
quarta-feira, janeiro 13, 2010
Revelations of dIAZ, the Elder
Levo há demasiados anos com estórias, fábulas e mitos dos eremitas, aqueles tontinhos — ou sociopatas? — que escalam a montanha para, ao fim de alguns dias, meses ou anos, depende da disponibilidade da dIVINA pRO-vIDÊNCIA, terem uma rE-vElAÇÃO, para achar que seria diferente. As circunstâncias em que a minha se deu, foram, no entanto, bizarras, não na medida em que não tenham sido no topo da montanha, mas apenas porque, apesar da ausência de luzes e vozes cavernosas provenientes das nuvens, fui apanhado de surpresa e, como todos os que já tenham sido, de uma ou outra forma, surpreendidos nesta vida, sabem, a surpresa veste em tons galhardos. Ora pois que dIAZ regressava ao hotel depois de um dia inteiro passado num ambiente que não era o seu, com -15ºC, muita neve, pinheiros que parecem araucárias e araucárias que parecem pinheiros, vinho quente para aquecer e mulheres bonitas — isto é, talvez, o primeiro momento de bizarria do dia, já que estou habituado a que as mulheres da montanha tenham sempre bigode — e, já no quarto, com nenhum outro desejo — apesar das mulheres bonitas e sem bigode — que tomar um banhinho checo e sentar-se à lareira com um Bruichladdich Cherry Edition 1992, tira o gorro em frente a um espelho. Perco, por momentos, a força nas perninhas. Poderá ser de nunca usar gorro ou de usar, há anos demais, o penteadinho à Playmobil, mas... nunca havia reparado! E, contudo, ali estavam elas, como que propositadamente escondidas durante anos só para que pudessem crescer mais ainda e, só então, ver a minha cara de pânico, de horror, de quem percebe que a inexorável ruína já tomou conta do futuro e esse, fideputa, não é nada promissor... ENTRADAS! O dIAZ, do cabelo à chinês, o pânico das tesouras das cabeleireiras que, posso asseverar, vão ao amolador da bicicleta e da cantilena com a flauta de pã, que pergunta Atão... outra vez? ainda ontem... e elas respondem, cabisbaixas, Eu sei... mas o dIAZ foi ontem ao salão e... o dIAZ, o do remoínho no cocuruto, o das patilhas a atirar pá suíça, tem ENTRADAS!!! Pensei, imediatamente, e ainda lívido a atirar para o esverdeado, no quão idiota poderia ter sido, ignorando, dia, após dia, os óbvios sinais, como o corno que não estranha as sistemáticas recusas para sexo à bruta por parte da esposa e, um dia, repara que ela tem uma depilação "especial" da qual nunca lhe foi dada a hipótese de usufruir. Mesmo que não à bruta.
Se continua o dIAZ a ter uma cabeleira digna de um Bruce Lee, como é possível continuar a sacar, do ralo da banheira, e numa base diária, um novelo? Que estúpido fui! É a queda de um mito. Seguem-se outras... na vertical, aposto!
Se continua o dIAZ a ter uma cabeleira digna de um Bruce Lee, como é possível continuar a sacar, do ralo da banheira, e numa base diária, um novelo? Que estúpido fui! É a queda de um mito. Seguem-se outras... na vertical, aposto!
segunda-feira, janeiro 04, 2010
Kitzbühel, Tirol, Áustria, Dezembro de 2009 - Uma visão à dIAZ em 3 estórias e um iôdelêi iôdelêi iôdelêíhú - Estória Número TRÊS
Maria é uma portuguesa clássica. Do Porto. Não clássica por ser do Porto, mas por ter ficado, há quinze anos atrás, deslumbrada com o que vem de fora, uma estrangeirada, portanto, possuidora, também ela, daquele minúsculo Eça de Queirós que todos temos dentro. O meu está mais ou menos no intestino grosso, sempre pronto a evacuar tudo o que seja plágio Marcel Proustiano só porque este era françês e tudo o que vem dA Fransha era bom, síndrome que dura ainda hoje em letárgica ressaca pós-bidonville. Correu Maria atrás desse alemão e, num ai, estava nessa Hamburgo onde, curiosamente, ninguém consegue perceber qual a origem da palavra Hamburger, porque não têm, em toda a sua gastronomia, um exemplo que seja portador de carne picada na sua confeccção! Mas têm muitos restaurantes (de peixe) nas mãos de portugueses, que estão, talvez por isso, no topo da hierarquia cool e hip da cidade. Foi, assim, fáci a Maria imiscuir-se num lugar que não era o seu, embevecida de amor à prova do frio vento que antecede os nevões de Inverno. A vida foi correndo, dias embalados por saudades da família, noites despertas por festas no cume da cadeia social e sexo sem barreiras, até que o destinatário de tal entrega, criança estragada de tanto mimo como só a pré-mamã portuguesa sabe dar (depois de parir torna-se uma velhaca como todas as outras), decidiu mudar-se para Kitzbühel. Maria foi, como sempre, atrás. Esta era a vida que pedira para si. Amor cego e incondicional, nomadismo, gitana paixão, se tal fosse preciso, e foi. A portuguesinha clássica caiu no fundo poço da clássica tragicomédia que é o Foi Bom Enquanto Durou Mas Agora Vou Ali Só Comprar Cigarros... Maria viu-se, então, sozinha, aperto no peito no nesse vale das sombras que, convenhamos, quase todos nós já visitámos e, para quem ainda não, tenho novidades: Amanhã também é dia. Mas, tão subitamente como tudo começara, a tuguinha acordou um dia para reparar que este vale era, afinal, um prodígio. Uma falha entre os Alpes por onde a luz só entrava durante poucas horas por dia, mas isso é só porque o Sol não faz falta nos lugares onde a luz é outra. Maria virou montesa e, hoje em dia, tem uma loja de jóias na rua principal de Kitzbühel. Não se imagina a regressar a Portugal. Demasiado soalheiro, diz, de largo sorriso que me faz compreender porque terá o tal moço feito promessas. Depois toca ao de leve num pendente da montra, os finos dedos como pequenas esculturas, unhas curtas, uniformes, brilhantes, e não consigo perceber porque não terá o moço cumprido os votos. Pergunto-lhe, em todo o meu despudor, se não haverão, afinal, males que vêm por bem. Mas é claro! Sou feliz, agora. Aprendi muito cedo que não se pode confiar nos loiros. Nunca mais o fiz. E nunca mais estive triste!
terça-feira, dezembro 29, 2009
Kitzbühel, Tirol, Áustria, Dezembro de 2009 - Uma visão à dIAZ em 3 estórias e um iôdelêi iôdelêi iôdelêíhú - Estória Número DOIS
Estão -15ºC que já não me aquecem nem arrefecem. Pronto, apanharam-me, talvez arrefeçam, afinal, um poucachinho o queixo e a ponta do nariz que, sendo o meu, deverá considerar-se uma superfície considerável. O queixo, esse, é de dimensão e feitio normais, pelo que podemos avançar no que toca a colocar o leitor num plano imaginante equiparável ao do momento em causa. Que é por volta das 5h30 da manhã, quando o lusco fusco, esse magano amicíssimo do modo tungsten da Canon empresta ao céu aquele azul escurão sem que a iluminação pública tenha sido desligada. A neve, essa, também está intacta no passeio e sou eu que lhe tira os três, por hoje, num tão inspiracional crrrót crrrót quanto o shláp shláp a que nos remete a infeliz expressão que usei. Podia ter usado macular a alva superfície ou tatuar de humana presença o que a natureza preparou com tanto esmero mas agora já é tarde e, confissão ao fim de tantos anos de profissão, nunca apago o que escrevi. Só às vezes. Muitas. O tripé é, agora, o meu principal inimigo. Agride-me violentamente de cada vez que o transporto daqui para ali com queimaduras nos dedos infligidas em sucessivos upper cuts de boxeur dopado, preferia mil vezes uma chapada de mão aberta do Tarzan Taborda, principalmente agora que está morto e resta apenas aquele baluarte na Fonte da Telha, um prédio onde ainda se pode ler que, em tempos, cuidou das costas das pessoas com arte. Arte dele. Está, pois, na hora do pequeno-almoço no hotel e faço aqui uma consideração, que se provará, adiante, propositada, do que são, para mim, duas provas máximas de civilização: 1. Croissants-como-deve-ser, que é mais do que os cruássans tugas, meias-luas de massa idêntica à do pão-de-deus e merendas-mistas e só não de palmiers (ou palmiéres, vá) porque não lhes deu para isso. Croissants-como-deve-ser são leves pedaços de pecado com apenas ar entre cada uma das mil folhas, tão vazio daquele peso que por cá grassa como cheio de gordura que lustra as mãos a cada dentada consciente de todo o pecado que esse acto acarreta... 2. O facto de haver uma sala do bar (neste caso) mas também de qualquer restaurante, cafetaria ou outra coisa qualquer ligada aos prazeres da gula onde se pode fumar. Na Áustria, ao contrário de Portugal, os fumadores não passaram a ser, tão repentinamente como das 23h59 de dia 31 de Dezembro de 2007 para as 00h00 do dia 1 de Janeiro de 2008, leprosos a evitar e olhar de esguelha, até a despedir, se tal fose preciso, tacanhez norte-americanizada feita cruzada contra o cancro nos fumadores passivos, essas bonequinhas de porcelana que podem conduzir carros de consumos astronómicos, não considerar uma só ida de transportes públicos para o emprego, pedir naco na pedra num restaurante de cinco metros quadrados mas, por dEUS, inspirar o fumo desses cidadãos de menor monta é que não. Ficará, por ora, e em todo o despropósito que assumo, o contribuinte a saber que foram gastos milhões de euros para que o preconceito contra os seropositivos e toxicodependentes fosse amenizado e, afinal, é ver-me acender um preguinho que, admito, na minha liberdade de escolha, contribui para a minha morte precoce, e é logo o gajo do lado a assumir aquele ar dos justos, transparecendo, por todos os poros, vontade de me cortar a carótida com o x-acto da Mecanorma que já não pôde comprar na Papelaria Fernandes porque, enfim, como há legislação mais importante como seja a proibição do fumo ou o casamento entre homossexuais, deixou-se que alguns marcos do comércio tradicional legitimamente português abrissem falência. E é a pensar em tudo isto, no êxtase que é o primeiro café do dia com o primeiro cigarro do dia com a primeira cólica do dia (esta é efeito do êxtase e não tanto parte do êxtase em si), em amena temperatura e ambiente aconchegante, rodeado de madeiras e envergando apenas uma tshirt, que vejo o personagem. Fuma mais compulsivamente do que bebe canecas de black coffee, ou vice-versa, fala mais com toda a gente que aqui entra do que com o cão deitado a seus pés, ou vice-versa, abana o bicho duas vezes a cauda e diz au auuuuu a qualquer coisa que ele diga, num alemão quase tão imperceptível como o dele. Sai-lhe em gasta voz um Morgen! direito a mim. De onde sou, quantos dias vou ficar, se gosto, porque é que olho tanto para a mesa do fundo, não que ele não consiga também perceber que elas são atraentes, digo-lhe que tenho quase a certeza que são sérvias e, a serem, estão longe de se comparar em beleza com as outras que por Belgrado ficaram, ele diz que as mais belas do mundo são as jamaicanas e conta, de brilho nos olhos baços da idade, que viveu em Port Antonio — onde estive há meses — dos 24 aos 28. Debita imagens que lhe ficaram na memória e que não me atrevo a desiludir, mas guardo para mim como tudo está diferente. Fico com a certeza que sim, afinal, aquela é a melhor idade para viver na ilha que é jangada de África à deriva no Mar das Caraíbas. Pergunta-me como está Montego Bay, Kingston Town, digo-lhe apenas que não fui a esta última, omito as razões. A Jamaica de sessentas era, pois, outra da mesma fruta. Nem que fosse porque Sir Bob Marley ainda não tinha direito a estar a dar música em todos os estabelecimentos para turistas, como se toda a gente, do barman ao taxista, tivesse carregado na tecla repeat ao mesmo tempo. Também ele foi jornalista de correr mundo, também ele amou, de formas diferentes e por diferentes razões, todos os cantos por onde passou. Agora tem as recordações. Aconselhou-me a guardar, também, as minhas, em mil cadernos como este onde estou borrar algo e que por acaso ainda tem borras de Blue Mountain Coffee. Não me pareceu, pois, que Horst Ebersberg fosse apenas um reformado conhecido por todos os habitantes locais. Mas pensei que tal se devesse à minha sensibilidade atordoada pelas extremidades geladas e cérebro ainda longe de estar a carburar como em latitudes mais quentes. Combinámos um encontro no teleférico de Hahnenkamm, para um retrato de família, às 13h, hora em que levaria a FILHA DE OITO ANOS (sim, o ar da montanha escusa os comprimidos azuis) para a aula de esqui que, aqui, é actividade extra-curricular no ensino público (assim como a natação o é em Portugal... ou não). Não consegui cumprir com o acordado. Mas Engelbert, o meu guia montanheiro (esse que pensou que eu, menino de areia de praia, haveria de achar que as pernas enterradas em meio metro de neve por colinas com inclinação de ângulo quase recto não era nada por aí além), descansou-me em relação à falha. Horst é, provavelmente, o habitante local mais descontraído em relação a tudo. Mas conhece-lo? Pergunto, ao mesmo tempo que penso que, vista daqui, mil oitocentos e tal metros acima, Kitzbühel não parece assim tão pequena. E quem não conhece Horst? Olha... aquela — e aponta para uma pequena casa de madeira quase omissa pelos enormes pinheiros numa das vertentes que desce, quase a pique, deste cume onde me trouxe — é a sua cabana de Verão, quando tudo isto está verde e florido e quase podes ouvir a Heidi ou a Julie Andrews a cantar, o que seria bem mais agradável que os grupos de iodeling locais. É onde vem para escrever ou apenas ler, sei lá. Pergunto se é apenas conhecido como uma espécie de louco da vila ou algo próximo disso, para receber um ar indignado de volta, com um Estás louco? O Horst é uma das pessoas mais estimadas de Kitzbühel. Não consegue estar parado. E continua a fazer o que faz melhor. Tem um pequeno jornal mensal, gerido, redigido e publicado por ele. Quando há algo que não está bem por aqui, ele investiga e dá a notícia, apontando o dedo com tal arte que, sem ofender ninguém, as coisas solucionam-se com uma rapidez astronómica. Há uma frase local que talvez se torne um ditado: Antes uma multa da polícia que ser policia numa notícia do Horst.
segunda-feira, dezembro 21, 2009
Kitzbühel, Tirol, Áustria, Dezembro de 2009 - Uma visão à dIAZ em 3 estórias e um iôdelêi iôdelêi iôdelêíhú - Estória Número UM
Estão -10ºC que me agitam a bexiga em perpétua vontade de urinar e nervoso miudinho por saber que, para o fazer, vou encontrar um mais-que-nunca diminuto Zezinho em mirrada agonia invernil. De queixo e nariz dormentes, faço lembrar (a mim mesmo) aqueles petizes que vêem o Barco Pirata da Playmobil na montra e nunca mais se calam Eu quero Eu quero Eu quero, só que os meus desejos são bem mais humildes Eu quero apenas um café e um cigarro a acompanhar. O guia não me ignora como um pai de carteira menos abonada, a pensar como há-de contornar o pedido e subsequentes expectativas com o Carro de Polícia da Playmobil, substancialmente mais barato, antes a sua expressão compenetrada é acompanhada por um Se queres tirar fotografias a lugares aprazíveis e bem decorados tenho que te levar ao lugar perfeito. Ainda não sei é qual será! Eu, sequioso de cafeína, nicotina e mais uma ou outra ina que para aqui não serão, por ora, chamadas, limito-me a olhar pela janela do carro que atravessa, como um barco num mar de branco, o vale, neve a estibordo, neve a bombordo, ambos os bordos elevando-se um pouco adiante em montanhas tão altas que o sol só aparece entre as 12h30 e as 16 e qualquer coisa, encostas forradas de pinheiros, coníferas feitas manto que apetece pisar, não para estragar mas para sentir o flóft debaixo dos pés. Indetectável, camuflada no meio desse voraz bosque que a parece ter engolido, uma hut ou cabana, vá, de madeira, um fio de fumo que se ergue na vertical porque aqui o vento é nulo só para chatear, permitindo que o frio abata sobre nós em golfadas vindas dos cumes, e digo Que espécie de eremitério é aquele? E rasga-se no fellow que vai ao volante um sorriso acompanhado de um Grande ideia! E eu que não sabia onde levar-te! Aquilo é o Ensiedelei, um restaurante de um amigo meu. E era! Daqueles em madeira por dentro e por fora, uma capela ao lado, promessa de alguém que chegou vivo da cruzada contra os Turcos, onde se arriba por uma estrada sinuosa, que rasga um bosque cerrado, tudo é branco e preto, uma raposa e um veado depois estamos lá, inigualável varanda sobre Kitzbühel, muito lá em baixo, como uma maqueta de arquitectura de um espertalhão finalista da Lusíada Este é o meu projecto de final de curso, xô prussôr, um lugarejo no fundo de um vale entre os Alpes Austríacos, com poucos milhares de habitantes, todos se conhecem, casas de madeira, ali ao fundo um lago, o Schwarz-see, que gela no Inverno, as encostas cobertas de coníferas que evitam as avalanchas, uma Primavera feita de verde-infinito e mantos de groselhas, mirtilos e solitárias edelveisses, ou lá o que é, que eu quero é ser arquitecto porque os botânicos não andam de BMW!
Entramos. Está quente. Como em todo o lado que não seja o lado de fora. Só há 3 pessoas. Pinky, o dono, Alex, o filho e uma lindíssima loira de sua graça Marie Therese, 32 anos que sucumbiram à boa disposição — e outros atributos que desconhecerei — dos 45 de Pinky, personagem bem conhecida por estas bandas, sorriso rasgado e um humor inteligente, prazenteiro, de anfitrião à antiga. Benvindo à minha cabana na floresta, troveja este grandalhão, quase uma caricatura, com os seus lederhosen de infante em corpo de wrestler. Trabalhou como chef da Formula One Paddock Club durante 10 anos, mais alguns na Red Bull Racing e acabou aqui, no meio do bosque, a fazer o que faz melhor, gastronomia tirolesa. Que vai bem com hospitalidade montesa. Queres café??? Mas isso é para meninos, pá! Bebes já aqui um glühwein (vinho tinto quente com canela e laranja) ou uma Água da Montanha (Schnapps) e não há frio que se te pegue. O dIAZ, que está, como convidado, à altura do melhor cicerone, lá foi provando disto e daquilo, ficou a saber que a alcunha Pinky se deve ao facto desta figurinha gigantesca se passear, em tempos, numa Piaggio Vespa 150cc de dois selins igual à minha mas cor-de-rosinha, riu e re-riu como se não houvesse amanhã e, a haver, não seria tão frio, e foi-se embora pouco depois de Pinky ter dito qualquer coisa como Mas vais mesmo tirar-nos uma foto para a revista? De família? Assim tipo retrato? Não queres antes tirar só à minha namorada? É que ela é que é gira, pá, tipo modelo, olha lá para ela, vá. Olhei. E, não sei se pelo entorpecimento do álcool, demorei-me um pouco mais do que devia... para ouvir, num quase sussurro E então? É bom, não é? Queres ver-lhe as mamas? Eu digo-lhe...
Entramos. Está quente. Como em todo o lado que não seja o lado de fora. Só há 3 pessoas. Pinky, o dono, Alex, o filho e uma lindíssima loira de sua graça Marie Therese, 32 anos que sucumbiram à boa disposição — e outros atributos que desconhecerei — dos 45 de Pinky, personagem bem conhecida por estas bandas, sorriso rasgado e um humor inteligente, prazenteiro, de anfitrião à antiga. Benvindo à minha cabana na floresta, troveja este grandalhão, quase uma caricatura, com os seus lederhosen de infante em corpo de wrestler. Trabalhou como chef da Formula One Paddock Club durante 10 anos, mais alguns na Red Bull Racing e acabou aqui, no meio do bosque, a fazer o que faz melhor, gastronomia tirolesa. Que vai bem com hospitalidade montesa. Queres café??? Mas isso é para meninos, pá! Bebes já aqui um glühwein (vinho tinto quente com canela e laranja) ou uma Água da Montanha (Schnapps) e não há frio que se te pegue. O dIAZ, que está, como convidado, à altura do melhor cicerone, lá foi provando disto e daquilo, ficou a saber que a alcunha Pinky se deve ao facto desta figurinha gigantesca se passear, em tempos, numa Piaggio Vespa 150cc de dois selins igual à minha mas cor-de-rosinha, riu e re-riu como se não houvesse amanhã e, a haver, não seria tão frio, e foi-se embora pouco depois de Pinky ter dito qualquer coisa como Mas vais mesmo tirar-nos uma foto para a revista? De família? Assim tipo retrato? Não queres antes tirar só à minha namorada? É que ela é que é gira, pá, tipo modelo, olha lá para ela, vá. Olhei. E, não sei se pelo entorpecimento do álcool, demorei-me um pouco mais do que devia... para ouvir, num quase sussurro E então? É bom, não é? Queres ver-lhe as mamas? Eu digo-lhe...
terça-feira, setembro 01, 2009
The Journey
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! Verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
José de Almada Negreiros
No dia 28 de Setembro, uma sexta-feira para que conste, dIAZ vai à Bica com um grande Como Quem Não Quer a Coisa estampado na testa. E bebe comedidamente e fala, por telefone, com Cláudia, amiga e companheira e disponibilizadora de apontamentos das aulas de Relações Internacionais e confissora de ombro de choro de desamores almadenses e sorriso do tamanho do mundo e tudo e tudo de há 15 anos para cá. Que é, para que conste, também, uma vida. E que estava lá em cima, em frente ao Maria Caxuxa. A Cláudia, não a vida. E o dIAZ sobe e encontra-a, mais a Inês, que é também toda sorrisos perpétuos, e outras três amigas que lutavam, com afinco, com as palhinhas das Caipirinhas e Oskas e Ões e coisas com laranja ou limão e laranja e limão ao mesmo tempo e morangos e uma história qualquer do Ah e tal afinal já não há morangos vão ter que esperar / Mas esperar quanto tempo? Foram buscar os morangos / Não, não vai haver mais morangos / Então vamos esperar para quê ou lá o que era! Beberrica aqui, cervejola ali, Bica again, mais não sei quantas histórias e risadas e coisas e gargalhadas de faltar o ar e as miúdas estão felizes porque vão para a Tailândia dia 24 de Setembro (A Cláudia é habitué... lembro-me de uma tshirt que me trouxe com o logo do detergente Tide em caracteres Thai, ainda eu tinha abdominais e vestia o M e ficava bem). E depois vão ao Laos e ainda descem à Malásia. A Inês vai andar por lá dois meses. Ou seja, também eu estaria feliz. Ou seja, estou feliz porque ainda se fazem amizades em idade de consolidar outras. Ou, no caso de alguns, perder as que se fizeram no caminho!
Na segunda-feira o dIAZ chega à redacção e recebe a notícia... Vai para a Tailândia dia 22 de Setembro...
Cláudia: tuuuut... tuuuuuuuuuuut... tuuuuuuuuuuuut... Tou sim?
dIAZ - Cláudia, estou lá uns dias antes, quando chegares liga, ok?
Cláudia - Ok... conheço uns sítios do melhor em Bangkok!
dIAZ - BOUA!
Cláudia - Mas olha lá... de 150 países para ires e entre 365 dias para escolher...
dIAZ - Não é tão bom quando o Universo conspira a nosso favor?
quarta-feira, agosto 26, 2009
Um dia destes...
... fizeram-me uma pergunta norte-americana. Daquelas que aparecem nos Facebooks e Hi5's para que os outros saibam um pouco mais sobre nós. Acho que é um exercício necessário, já que se opõe aos verdadeiros intuitos de sociabilização entre indivíduos de uma das "culturas" mais shallow deste mundo. Que se espelham na incontornável primeira pergunta quando alguém nos apresenta outro alguém: So, what do you do for a living? Não interessa a idade, se trata da higiene íntima, se depila as axilas com cera ou à gillette, se o Herman José continuaria a ter piada se os Gato Fedorento não tivessem surgido, qualquer coisa. Não. Interessa, antes de mais, de tudo o mais, saber qual a profissão. Foi a maneira mais simpática que os fellow citizens dos estates arranjaram para que possam saber, imediatamente, qual é o nível de ordenado daquele que estão a conhecer e, logo, se é ou não companhia que valha a pena integrar no círculo de amigos.
Quais os filmes da tua vida? Ups... não é fácil. Vê-se tanta coisa e tantos marcam que... é quase impossível. Há os que passam e não entram nunca. Há os que não entram num dia, por alguma razão e, anos mais tarde, PIM. Há os que nos deixaram apáticos durante os três dias seguintes ao visionamento. Há os que nos fazem comprar discos, os que nos alegram, os que nos contagiam de lamechice barata, os que nos inundam de erudição cara, sei lá!
Lembrei-me que, por essas e outras razões, poderia não conseguir nunca enumerar um Top Ten, nem Twenty, talvez nem One Hundred mas, neste caso, só por questões de ordenamento por grau de preferência. O Amarcord do Fellini ficaria antes ou depois do Feios, Porcos e Maus do Scolla (ou Brutti Sporchi e Cattivi porque gosto MESMO deste título em italiano)? O Pulp Fiction em 34.ª posição ou essa pertenceria ao Trainspotting porque o Tempo de Ciganos o faria andar uma posição? E se o Gato Preto, Gato Branco estaria algures por aí, que lugar da lista seria reservado para o Underground, o La Haine, o Delicatessen, o Homem Elefante, A Laranja Mecânica ou o Goodbye Lenine? E os documentários... contam? E os diálogos dentro dos filmes, como o Amor à Queima-Roupa, com argumento de Quentin Tarantino mas cuja realização coube a um rookie qualquer?
E muita coisa se prova quando, por exemplo, hoje, AINDA mal das costas e, logo, de carro para Lisboa, oiço a RADAR a anunciar um grande tema dos Chemical e penso Uau, isto só pode ser um bom sinal mas, afinal, e bem a propósito, era o The Pills Won't Help You Now!!! Olha, obrigadinho, sim? Se calhar mudo mesmo para o Voltaren, já agora estouro com o estômago também e a música continua they're probably poisoning your body Ui, está cada vez melhor!
Decido, então, e por mera piada, ir ao youtube para ver que filmes estariam relacionados com este tema. SURPRESA: Este e este. E penso logo Ok, se não me lembrei destes dois, é melhor desistir mesmo da tal dIAZ's List Of Best Moovies Ever, sob risco de fugir à minha própria verdade!
E se há coisa que não quero é isso! Isso e esta PUTA desta Espondilose ou lá o que seja!
Quais os filmes da tua vida? Ups... não é fácil. Vê-se tanta coisa e tantos marcam que... é quase impossível. Há os que passam e não entram nunca. Há os que não entram num dia, por alguma razão e, anos mais tarde, PIM. Há os que nos deixaram apáticos durante os três dias seguintes ao visionamento. Há os que nos fazem comprar discos, os que nos alegram, os que nos contagiam de lamechice barata, os que nos inundam de erudição cara, sei lá!
Lembrei-me que, por essas e outras razões, poderia não conseguir nunca enumerar um Top Ten, nem Twenty, talvez nem One Hundred mas, neste caso, só por questões de ordenamento por grau de preferência. O Amarcord do Fellini ficaria antes ou depois do Feios, Porcos e Maus do Scolla (ou Brutti Sporchi e Cattivi porque gosto MESMO deste título em italiano)? O Pulp Fiction em 34.ª posição ou essa pertenceria ao Trainspotting porque o Tempo de Ciganos o faria andar uma posição? E se o Gato Preto, Gato Branco estaria algures por aí, que lugar da lista seria reservado para o Underground, o La Haine, o Delicatessen, o Homem Elefante, A Laranja Mecânica ou o Goodbye Lenine? E os documentários... contam? E os diálogos dentro dos filmes, como o Amor à Queima-Roupa, com argumento de Quentin Tarantino mas cuja realização coube a um rookie qualquer?
E muita coisa se prova quando, por exemplo, hoje, AINDA mal das costas e, logo, de carro para Lisboa, oiço a RADAR a anunciar um grande tema dos Chemical e penso Uau, isto só pode ser um bom sinal mas, afinal, e bem a propósito, era o The Pills Won't Help You Now!!! Olha, obrigadinho, sim? Se calhar mudo mesmo para o Voltaren, já agora estouro com o estômago também e a música continua they're probably poisoning your body Ui, está cada vez melhor!
Decido, então, e por mera piada, ir ao youtube para ver que filmes estariam relacionados com este tema. SURPRESA: Este e este. E penso logo Ok, se não me lembrei destes dois, é melhor desistir mesmo da tal dIAZ's List Of Best Moovies Ever, sob risco de fugir à minha própria verdade!
E se há coisa que não quero é isso! Isso e esta PUTA desta Espondilose ou lá o que seja!
terça-feira, agosto 25, 2009
PAIN THE HORROR PAIN THE HORROR PAIN x INFINITO!
Num momento, o dIAZ está na praia.
A correr atrás de Mariachito e Tiaggen Dazz, primo-irmão daquele. A olhar para o biquini engraçado e que assenta bem. A encher de beijos o afilhado Daniel que chega para espalhar charme e sorrisos. A fumar depois do mergulho, virado para os primeiros raios de sol, que passam de tímidos a intensos num ápice.
No outro, o dIAZ está deitado na areia.
A dor é excruciante. Não me consigo mexer. As pessoas dizem que ouviram um estalo enorme. Eu não. Apenas tudo branco. Os olhos cheios de lágrimas. Nem um dedo consigo mexer, naquele momento. Nada. Penso em tudo o que tenho e poderei deixar de ter. Brincar com o meu filho, mandá-lo ao ar, andar de bicicleta, jogar à bola às Quartas depois do trabalho, andar na Gioconda. Mariachito quer dar beijinhos no dói-dói do pai. Acha que é uma borbulha ali, na omoplata. Digo-lhe que sim. Mas choro. É tudo o que consigo fazer. Isso e reparar se sinto as pernas, os dedos dos pés.
No dia seguinte, o dIAZ vai ao massagista.
Recomendado por muitos. O lugar? Não sei. Algures na Trafaria. Quinta da Corvina. Antigo Bairro da Pentelheira. Uma estrada de terra batida digna de uma prova de rally qualquer que eu conheceria se fosse apreciador. Que desemboca num ermo onde uma única casa se avista. É essa. Patos, galinhas, gatos e cães por todo o lado. Entro, por entre calendários da Nossa Senhora de Fátima e chouriços pendurados. O homem foi massagista do Belenenses. Mas em 1947. Tem 83 anos, sei mais tarde. Já foi operado às cataratas. Isso não o impede de me puxar por uma perna até que as lágrimas me voltem a saltar, em bica. Saio torto. Estou pior. Mas conheci mais um Portugal que, estando a 15 minutos de Lisboa, me pareceu, a todo o momento, Carrazeda de Montenegro.
A correr atrás de Mariachito e Tiaggen Dazz, primo-irmão daquele. A olhar para o biquini engraçado e que assenta bem. A encher de beijos o afilhado Daniel que chega para espalhar charme e sorrisos. A fumar depois do mergulho, virado para os primeiros raios de sol, que passam de tímidos a intensos num ápice.
No outro, o dIAZ está deitado na areia.
A dor é excruciante. Não me consigo mexer. As pessoas dizem que ouviram um estalo enorme. Eu não. Apenas tudo branco. Os olhos cheios de lágrimas. Nem um dedo consigo mexer, naquele momento. Nada. Penso em tudo o que tenho e poderei deixar de ter. Brincar com o meu filho, mandá-lo ao ar, andar de bicicleta, jogar à bola às Quartas depois do trabalho, andar na Gioconda. Mariachito quer dar beijinhos no dói-dói do pai. Acha que é uma borbulha ali, na omoplata. Digo-lhe que sim. Mas choro. É tudo o que consigo fazer. Isso e reparar se sinto as pernas, os dedos dos pés.
No dia seguinte, o dIAZ vai ao massagista.
Recomendado por muitos. O lugar? Não sei. Algures na Trafaria. Quinta da Corvina. Antigo Bairro da Pentelheira. Uma estrada de terra batida digna de uma prova de rally qualquer que eu conheceria se fosse apreciador. Que desemboca num ermo onde uma única casa se avista. É essa. Patos, galinhas, gatos e cães por todo o lado. Entro, por entre calendários da Nossa Senhora de Fátima e chouriços pendurados. O homem foi massagista do Belenenses. Mas em 1947. Tem 83 anos, sei mais tarde. Já foi operado às cataratas. Isso não o impede de me puxar por uma perna até que as lágrimas me voltem a saltar, em bica. Saio torto. Estou pior. Mas conheci mais um Portugal que, estando a 15 minutos de Lisboa, me pareceu, a todo o momento, Carrazeda de Montenegro.
sexta-feira, agosto 21, 2009
"dúia láik dágs"? - Brad Pitt as Mickey O'Neil, to Tommy (Stephen Graham), in Snatch
Mariachito ama cães.
Lembro-me de ter levado Oscar Tobias J&B Adolfo dIAZ, com as tripas de fora depois de uma dentadinha de carinho do rotweiller lá da rua, ao hospital veterinário e dizer-lhe, no caminho, Não morras meu ganda cabrão, o Gabriel está quase a nascer e quero vê-lo a brincar contigo, ouviste? Ele gemia, mas cumpriu. E Gabriel desfrutou da sua companhia, dias e dias a fio, até já articular, na perfeição, que aquela primeira estrela a aparecer no céu era o Óscar com a bola na boca, à espera que ele a tirasse e mandasse para longe...
Não há melhor despertar para Mariachito que uma dose (cuidadosamente racionada) de desenhos-animados a beber iogurte líquido de frutos silvestres, a comer um croissant do LIDL com manteiga Milhafre, vestir a muda que o pai escolheu (se for a t-shirt dos Ramones... é o delírio), dizer-me Bolas pai, essa roupa fica-te bem e, logo a seguir, descer para a rua em direcção ao café onde o Duque, um pitbull salvo das lutas nos areais da Trafaria, espera-o já de barrigana para o ar, lambendo-se em delícia antecipada.
Hoje, o costume. Eu a beber café e ele sentado ao lado do bicho, passando-lhe a mão na peitaça com a displicência de quem o faz rotineiramente. Passamos para o outro lado da rua, onde costuma estar o resto da canzoada em passeio matinal, uns pela trela, outros não, e ei-lo: o retriever de ar aparvalhado que, todos os dias, e assim que o vê, corre em sua direcção para se sentar, muito direito, pose de cão de exposição, à sua frente. Mariachito acha que ele é a sua vassoura electrónica, porque de cada vez que lhe passa a mão pela cabeça, o bicho abana o rabo, varrendo as folhas do passeio. Normalmente, é esta a única interacção destes dois. Mas hoje, extraordinariamente, a atenção do animal dirige-se para algo que se move por entre as roseiras do canteiro. Num salto, afugenta um pardal, ainda juvenil, que terá caído do ninho nos plátanos acima ou tentava ensaiar os primeiros voos. Mau timming. Já não vou a tempo de evitar que o loirinho lhe ponha a pata em cima com a violência suficiente para que, quando eu o pouse na palma da mão, já tenha iniciado aquele característico e gradual pender de pescoço. Gabriel, faz uma festa ao pardalito. O puto estica o indicador. Olha, pai, está a fechar os olhos! Penso rápido Vai dormir, filho. Ele continua a passar o dedito pela cabeça da cria Posso dar-lhe o beijinho da boa noite?
Deixo-o junto da palmeira e afastamo-nos...
Ó pai! Tu estás a enganar-me... ele não foi dormir, foi para as estrelinhas, ter com o Óscar!
Lembro-me de ter levado Oscar Tobias J&B Adolfo dIAZ, com as tripas de fora depois de uma dentadinha de carinho do rotweiller lá da rua, ao hospital veterinário e dizer-lhe, no caminho, Não morras meu ganda cabrão, o Gabriel está quase a nascer e quero vê-lo a brincar contigo, ouviste? Ele gemia, mas cumpriu. E Gabriel desfrutou da sua companhia, dias e dias a fio, até já articular, na perfeição, que aquela primeira estrela a aparecer no céu era o Óscar com a bola na boca, à espera que ele a tirasse e mandasse para longe...
Não há melhor despertar para Mariachito que uma dose (cuidadosamente racionada) de desenhos-animados a beber iogurte líquido de frutos silvestres, a comer um croissant do LIDL com manteiga Milhafre, vestir a muda que o pai escolheu (se for a t-shirt dos Ramones... é o delírio), dizer-me Bolas pai, essa roupa fica-te bem e, logo a seguir, descer para a rua em direcção ao café onde o Duque, um pitbull salvo das lutas nos areais da Trafaria, espera-o já de barrigana para o ar, lambendo-se em delícia antecipada.
Hoje, o costume. Eu a beber café e ele sentado ao lado do bicho, passando-lhe a mão na peitaça com a displicência de quem o faz rotineiramente. Passamos para o outro lado da rua, onde costuma estar o resto da canzoada em passeio matinal, uns pela trela, outros não, e ei-lo: o retriever de ar aparvalhado que, todos os dias, e assim que o vê, corre em sua direcção para se sentar, muito direito, pose de cão de exposição, à sua frente. Mariachito acha que ele é a sua vassoura electrónica, porque de cada vez que lhe passa a mão pela cabeça, o bicho abana o rabo, varrendo as folhas do passeio. Normalmente, é esta a única interacção destes dois. Mas hoje, extraordinariamente, a atenção do animal dirige-se para algo que se move por entre as roseiras do canteiro. Num salto, afugenta um pardal, ainda juvenil, que terá caído do ninho nos plátanos acima ou tentava ensaiar os primeiros voos. Mau timming. Já não vou a tempo de evitar que o loirinho lhe ponha a pata em cima com a violência suficiente para que, quando eu o pouse na palma da mão, já tenha iniciado aquele característico e gradual pender de pescoço. Gabriel, faz uma festa ao pardalito. O puto estica o indicador. Olha, pai, está a fechar os olhos! Penso rápido Vai dormir, filho. Ele continua a passar o dedito pela cabeça da cria Posso dar-lhe o beijinho da boa noite?
Deixo-o junto da palmeira e afastamo-nos...
Ó pai! Tu estás a enganar-me... ele não foi dormir, foi para as estrelinhas, ter com o Óscar!
quinta-feira, agosto 06, 2009
No Café...
Mariachito: Pai, quero uma chamuça.
O dIAZ estica a coisa à criança. Mariachito diz: Obrigado, pai. O empregado do café pergunta: Bolas, não dás um beijinho ao pai?
Mariachito: Não...
Waiter: Porquê?
Mariachito: Porque eu não gosto dele!
Waiter: Porquê?
Mariachito: Porque ele bate-me. Com a colher de pau. E com o cinto. A parte da fivela.
- Silêncio -
dIAZ: Quem te ensinou a dizer isso, filho?
Mariachito: Foi o tio Kau e o tio Elvis e o Tio Bruno...
É todos os anos a mesma coisa. Passa-se férias com amigos e é isto. Em 2008, com apenas 2 aninhos, e no próprio dia do regresso de Silves, deito-me ao lado dele: Vá, filho, dorme a sesta. Claro que adormeci eu primeiro. Acordo um pouco agitado e deparo-me com o fedelho, de olhos bem abertos, fitando-me: Então, pai? Faz ó-ó, pá, FODA-SE!
O dIAZ estica a coisa à criança. Mariachito diz: Obrigado, pai. O empregado do café pergunta: Bolas, não dás um beijinho ao pai?
Mariachito: Não...
Waiter: Porquê?
Mariachito: Porque eu não gosto dele!
Waiter: Porquê?
Mariachito: Porque ele bate-me. Com a colher de pau. E com o cinto. A parte da fivela.
- Silêncio -
dIAZ: Quem te ensinou a dizer isso, filho?
Mariachito: Foi o tio Kau e o tio Elvis e o Tio Bruno...
É todos os anos a mesma coisa. Passa-se férias com amigos e é isto. Em 2008, com apenas 2 aninhos, e no próprio dia do regresso de Silves, deito-me ao lado dele: Vá, filho, dorme a sesta. Claro que adormeci eu primeiro. Acordo um pouco agitado e deparo-me com o fedelho, de olhos bem abertos, fitando-me: Então, pai? Faz ó-ó, pá, FODA-SE!
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