segunda-feira, novembro 02, 2009

Efeméride n.º 7

Passou por mim o fenómeno da rádio-pirata como aquelas rabanadas de vento que nem despenteiam. Até porque, in those days, era o gel. E a grande sensação desse tal universo, que levava grupos de malta para dentro dos carros dos pais em busca desenfreada, à mão, claro, dos últimos hits era, à semelhança do que ouvia eu da boca dos miúdos mais velhos lá da rua, enquanto vibrava com o meu Citröen CX Pallas da Majorette (os carrinhos da Matchbox não tinham suspensão), a Rádio Cidade. E essa, conclui-se hoje, devia ter sido logo extinta, responsável que foi por uma cultura musical portuguesa ao nível dos valores obtidos em testes de astrofísica num bando de avestruzes do Kalahari. Passei, assim, muito bem sem a rádio, os Rapazes Selvagens dos Duran Duran, a outra que, razões explicadas na sequência inicial do Cães Danados, sentia-se Como Uma Virgem, o Billy Jean do Qual é Coisa Qual é Ela Que Antes de Morrer Já o Estava, a Contagem Final do Franjinhas Maquilhado e qualquer coisa que a Trina Trana cantasse. Tinha, na única prateleira do meu quarto que NUNCA apanhava pó, herança da falida bôite Tropical em Santana, Sesimbra, propriedade de um amigo do meu pai, os vinis do Boy, War e Joshua Tree (mais precisamente, A Árvore de Joshua, com as letras d'As Mães dos Desaparecidos e do Onde as Ruas Não Têm Nome traduzidas), o Cairo dos Taxi na sua lata, um qualquer dos Talking Heads de cujo nome não me recordo, a colecção dos Pink Floyd até ao Momentary Lapse Of Reason, exclusivé, o I e o II dos Led Zeppelin, o Yellow Brick Road e o Ziggy Stardust and The Spiders From Mars, The Velvet Underground & Nico e o Transformer do Lou Reed com um desconcertante risco no Satellite of Love, o que me impediu de perder a virgindade ao som do mesmo, projecto que assumi com uma competência rara. Chegavam-me todos estes. Contando, claro, com os outros que me emprestavam, porque a cassete virgem BASF Chrome 90 minutos, que dava para um álbum de cada lado, estava sempre reservada para o que desse e viesse e os lápis-de-cor ao lado para uma capa de minha autoria. O valor deste produto era, contudo, de tal forma proibitivo que eu era, então, ainda mais selectivo do que sou hoje. Como desperdiçar tal objecto com A-Ha ou Kim Wilde quando, pouco depois, alguém de lábios carnudos, seios generosos, sempre vestida de preto e com sapatos Doc Martens e Ana Salazar, me empresta Cure e Bauhaus? Os The Smiths, esses, tiveram direito à reverência que incluía uma viagem, ao sábado de manhã, à Discoteca Roma com o Sr. Zé Dias a dar-me o equivalente ao total de lavagens do seu sempre brilhante Opel Corsa TR, porque não havia dinheiro para o GL. Nessa altura, era o Meat Is Murder que estava na montra. E ainda consegui, sacrificando o cerimonial pastel-de-massa-tenra do Frutalmeidas, que o dinheiro esticasse para o The Queen Is Dead, lá no meio da letra "S". Isso não é música de maricas? perguntava Zé dIAZ com um olhar preocupado, aconselhando, em vez daquilo, O outro daquele ceguinho que está sempre a dar na televisão, ao que eu respondia, de peito cheio, É música futurista, pai. Um ano depois, passou a chamar-se-lhe "Vanguarda" e incluía, também, os Depeche Mode e o Billy Idol (estroinice que continua, ainda, por explicar). Vivi assim, sem rádio, e assado, com calças elásticas a afligir erecções durante os slows dos Scorpions, banda de aliens que, com os Dire Straits e o Bruce Springsteen, estavam tão longe de mim como Marte. Até que um dia surgiu, mais ou menos ali em 91.6, a XFM, que não tinha publicidade e, logo, PUFF e depois a Voxx, que não tinha publicidade e logo BANFF e depois a Radar que não tinha publicidade e agora até METE NOJO e, no meio de todas estas descobertas, que incluíam um Hé pá, isto afinal a rádio tem uma ou outra coisa que até sim senhor descobri, não uma estação, mas uma voz que a determinada hora em determinados dias da semana nesta ou noutra estação escolhia, poucas vezes mal, pérolas que distribuía a porcos habituados a Beyoncés e Black Eyed Peas. António Sérgio abria a cabeça a quem abria o cu ao estrume que as rádios portuguesas debitam com a mesma irresponsabilidade com que uma professora de português diz aos seus alunos para lerem Margarida Rebelo Pinto, ou de um Padre que incute no rebanho o preconceito para com os muçulmanos. Eu, que nunca quis saber onde é que o Malato foi feliz porque era óbvio que isso incluía as Bandas Sonoras que escolhe para os seus programas, fiquei inúmeras vezes dentro do carro, em vez de entrar em casa, porque A Hora do Lobo ou o Viriato 25 já tinham começado e... podia, efectivamente, perder algo de Muito Bom, que era o que nos dava António Sérgio. E eu achava que ali, a gastar bateria e a aquecer os pulmões a fumo de Chesterfields ou Bula Fields DOP, a voz do Homem ficava bem antes da do Stuart Staples, depois da do Tom Barman, anunciando o novo dos Fleet Foxes, recordando o Trent Reznour dos bons tempos... e nós, que gostávamos tanto da sua companhia, com a chuva a bater contra as vidraças do carro, que ficava bem com This Mortal Coil ou Red House Painters, nunca pensámos que, no dia em que o António Sérgio morresse, a rádio portuguesa agonizaria. E, hoje à noite, serão menos os que sintonizarão a Radar. Porque, efectivamente, e doa a quem doer, vale bem menos a pena...

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