quinta-feira, abril 17, 2008

Culturas com Passado, Presentes sem Futuro

Antes de ter descido o Danúbio de barco, tinha para mim que a melhor forma de viajar era de carro. A road trip como ela é desde A Estepe, de Tchécov, ao On The Road, do Jack Kerouac. Parar onde bem entendermos, ver a paisagem mudar numa questão de poucos quilómetros ou, inversamente, observar aquela cadeia montanhosa, para onde nos dirigimos há mais de uma hora sem que pareça estar mais perto (ai, Granada mi amor). Desconhecia, então, aquele lânguido correr, de ouvidos abertos para as duas margens que se desdobram em montanhas, florestas, praias, colinas, cidades, vilas, aldeias, uma torre sineira apenas, um aceno de uma cabana sobre palafitas. Depois, há Vukovar e as suas casinhas e igreja ortodoxa, a ombrar com a mesquita, tudo cravejado de balas, como se não quisesse a memória apagar tudo aquilo que fez da Europa dos 90 uma Nova Época Medieval. E tudo o que aprendi começa, aí, a desabar. Ainda ali atrás, na Croácia, tudo era mais seco, vazio, silencioso. Agora, na Sérvia, o rio alarga e há música nas margens. Vem de um local impreciso, no meio da floresta, dos churrascos nos bancos de areia, de um pequeno barco onde um solitário lê um livro (remou até ao centro do rio, ancorou, e preferiu todos aqueles trompetes, acordeões e violinos do transistor ao mais puro silêncio), dos bandos de aves que formam, lá longe, passo o contra-senso ou outra figura de estilo que se aplique aqui melhor, enxames. A Sérvia é um palco. Como não simpatizar com tudo isto? Novi Sad, Belgrado. Aqui, com três frentes de rio, esqueci o barco. Parei alguns dias. Poderia ter parado uma vida. Não interessa porquê. Há afectos e apegos que não se explicam. Ainda assim, há quem os compreenda. Como quando a Stacha dá comigo de queixo nos braços que estão sobre o beiral do barco que está sobre o Danúbio, atracado em Zemun, a margem contrária da cidade, o Ginjal lá do sítio. Tenho um pequeno sevruga (uma espécie de esturjão) no prato e ainda não lhe toquei. Olho lá para o fundo, onde está a Roménia. Oiço: "Gostas mesmo disto, não é? Fica!".
Não podia.
De quando em vez, mato saudades. Encontro a Marija, jantamos, e há sempre malta que vem passar uns dias. Da última vez, fiquei horas à conversa com Dejan Stanković, o tradutor d'"A Ponte Sobre o Drina" da Cavalo de Ferro. O Romance que, supostamente, explicará, pelo enquadramento histórico, a razão pela qual os Balcãs são aquele caldeirão em ebulição. Tentávamos encontrar razões para eu gostar tanto do seu país e ele do meu. Só encontrámos diferenças, antónimos mesmo. Chegou a ser um concurso. Às tantas, eu alterco a seguinte ilação: Comparemos, então, o Velho do Restelo de Camões com o "Somente os indivíduos excepcionais são arrebatados, verdadeiramente, pelo drama profundo da luta entre o antigo e o moderno. Para eles, o teor da vida está ligado de maneira íntima e incondicional à própria vida", do vosso Ivo Andric, que traduziste".

"Ganhaste", exclamou!

4 comentários:

Yannick Djaló disse...

Uma curva Belissima...Uma equipa Fantástica... És a nossa fé...Força SPORTING ALÉZ!!!

Anónimo disse...

lol...

Vinha comentar um excelenteu post,do qual gostei imenso (o q tu queres sei eu...)!!

Mas o comentário acima, arrasou!!

Lol

Tóne

1entre1000's disse...

obrigada, por momentos viajei...

El Mariachi disse...

Tóne... vamos lá descer uns degraus na escala da evolução do Homem e falar destas coisas que alegram (e entristecem, pois), as pessoas.
A ti, que és um gajo inteligente, razão pela qual não consigo compreender porque te deixas invadir por emoções tão gratuitas e, tristemente, antevejo a festejares bem menos a tua vitória (a existir) contra o Porto na Final, cito um pescador da Cova do Vapor, onde já te encontrei um dia, e porque em Portugal também se viaja, tão intensamente quanto lá fora:
"Às vezes, na matança, o Porco já levou duas facadas, está como morto e, não se sabe bem porque ímpetos, vira os dentes e leva-nos um braço. Mas da matança não se safa... e a primeira bifana, ainda a fumegar, só com sal marinho e directamente para a grelha, é a carne mais saborosa do mundo"...

Did I Make My Self Clear?

Gosto de ti, pá!