terça-feira, setembro 23, 2008

Requiem 4 a Dog

1. Abram outra janela ao lado.
2. Cliquem aqui.
3. Copy/Paste da janela linkada para a janela do lado.
4. Agora leiam.

Nunca pensamos nisto...

... quando, ainda cachorro de mês, cinzento, cegueira de leite, perscrutando o ar com um minúsculo focinho húmido, dormia numa pequena caixa de cartão onde houvera embalagens de nestum mel, sobre uma almofada que a minha mãe cosera à pressa a partir das sobras de cortinados, interrompendo vezes sem conta devaneios de sexo desajeitado que, pelos vistos, resultou, lembras-te, Marta, e os teus "coitadinho, está a ganir, põe-no aqui na cama"?
Nunca pensamos nisto...
... quando se torna, irremediavelmente, e para mal dos meus futuros pecados, companheirão inseparável, praia, longuíssimas distâncias de bicicleta (sempre do lado direito, ao abrigo de condutores mais incautos), pequenas distâncias de Vespa (aos pés), noites e noites de copos e fumícios com amigos, concedendo espectáculos inigualáveis à plateia, ora defendendo, em voos acrobáticos, "patardos de força", ora saltando-me para as costas enquanto eu atava sapatos, ora fazendo o número do "salto por entre o 4 do dono". Uma fortuna num circo qualquer, é o que é.
Nunca pensamos nisto...
... quando vemos que as vivendas das redondezas (num raio de 2 quilómetros) começam, ano após ano, a ser habitadas por pequenos sósias, também eles um pouco loucos, eléctricos, Óscares júniores atestando o vigor reprodutivo e a tenacidade que, quando impedidas de serem levadas a cabo, passavam a ser o mero roubo de peças de roupa dos estendais dos donos das cadelas saídas para, com o maior desplante do mundo, dormir sobre elas, com um ar de "melhor isto que nada", que me fazia esquecer o facto de, no dia seguinte, lá ter que lavar, secar e entregar a quem de direito, por exemplo, um sutiã de rendas vermelho, acompanhado de um "peço desculpa" mudo da vergonha.
Nunca pensamos nisto...
... quando o total de atropelamentos é quatro e o de dentadas de rotweillers é 3, incluindo uma em que um rompimento abdominal fê-lo andar de intestinos de fora, sem que soltasse o mais sumido dos gemidos. Nessa altura, já tinha 13 anos e Mariachito estava quase a nascer. Eu, egoísta, não concebia que estes dois não brincassem juntos, e ninguém calcula a tamanha alegria que foi ver, tantas vezes, Mariachito a cavalo no Óscar, Óscar de infinita paciência, a partilhar bolachas que o puto, às escondidas, lhe dava. Pretérito imperfeito.
Porque começamos a pensar nisto...
... quando o vigor se lhe esvai, a cauda baixa e, cego e surdo, sem comer ou beber dias a fio, se recusa a sair de casa com medo do que não ouve, do que não vê.
Quando o levamos ao veterinário e nem são precisos exames para que lhe seja diagnosticada uma insuficiência renal aguda que, podendo ser reversível, voltará dentro de dias. Quando, à pergunta "Está a sofrer?", o "sim" é mais rápido que esta lágrima que escorre, só agora. Quando assinamos um papel que nos separa desta réstia de vida, de toda a vida que era Óscar, este meu primeiro filho que foi, tantas vezes, o meu orgulho, preocupação, saudade e tudo aquilo que são os Grandes Amigos.
E já não pensamos em nada...
... quando lhe vemos os olhos assustados, catéter na pata, procurando acalmá-lo enquanto o líquido entra e ele parece adormecer, ao colo, como tantas vezes fez. Perco-lhe a respiração quente. Perco-o.
E só um animal não choraria.

6 comentários:

Master Of The Wind disse...

Abraço puto

Zorze disse...

(Não tenho palavras, Diaz...)

bilma disse...

Joaquim Manel, es o maior. Pena e que a maiora dos tugas andam a dormir e eu achei este electrodomestico que não consigo por acentos. Que se uma coisa qualquer. Viva o OSCAR.

1entre1000's disse...

... o que vale é que de uma forma válida o "imortalizas-te", aqui, de uma forma MESMO bonita!

Armand Blanchard disse...

Devo ter conhecido o Oscar quando ele teria tenra idade, uns 2 anos talvez. A força, agilidade e habilidade eram algo de espectacular e raramente visto, quicás somente nos circos.
Também de realçar a alegria que, com o "Indio Gadelhudo", faziam uma parelha fantástica, e punham a nú todas as potencialidades desta maravilha da natureza chamado OSCAR TOBIAS. Caso houvesse um circo interessado, certamente que teria que contratar 2 em 1.

Até o Kadhafi sentirá falta...

Kaui disse...

Beijinhos...
Não digas ao Mariachito que o Óscar foi para o céu... Eu disse ao Guilherme que o Júnior foi para o céu e ele passou os dias a seguir de olhos postos nas núvens e a dizer: "Não o vejo mamã... Onde é que ele está?"