domingo, agosto 01, 2010

Saturday Night Live With dIAZ

Na Praceta Aquilino Ribeiro, Quinta Nova, Charnéque Sur Mer, há uma palmeira que larga o dendém na Primavera. No Verão, o chão é uma enorme extensão de sementes que Mariachito colhe, com delicadeza, e guarda nos bolsos da camisa, calções, calças ou o que seja que veste naquele dia. Diz que são ovos de dinossauro. Azar o meu que, um dia, terei brontossauros e triceratops a nascer na máquina de lavar, debaixo dos móveis ou mesmo atrás da sanita, para referir apenas alguns dos lugares onde já fui dar com os pequenos tesourinhos que ele junta num porco que deveria ser para acolher moedas. Ontem, porém, o fedelho encontrou algo mais fascinante... uma espécie de conta de colar em forma de feijão. Olha, pai, olha, este ovo é diferente, é de quê? Assumo agora que deveria ter demonstrado mais interesse Bah, é de Tiranossauro, pá, esse leva mais tempo a eclodir. Ainda os bichos-da-seda vão nascer primeiro! O enredo da noite tem início cinco minutos depois:
Ele - Paaaaaiiiii... vou meter o ovo do tiranossauro no nariz...
Eu - Ai não vais não, porque depois não consegues tirar e temos de ir ao hospital!
- Outros cinco minutos depois:
Ele - Paaaaaiiiii... meti o ovo de tiranossauro no nariz e não consigo tirar...
- Tentei o aspirador do ranho, a pinça das sobrancelhas da mãe, e até o olhar para o sol para que espirrasse e tapássemos todos os outros orifícios que interferissem com a narina esquerda. Nada. Clínica Charniqueira com ele. O enfermeiro tenta com várias pinças. Mariachito está estranhamente sossegado e colaborante. Portas-te muito bem, rapaz, diz o prestativo hombre, que não me levou dinheiro. Pois, eu sou do Benfica, responde o puto, que toma, só ali, real consciência do que fez. Desculpa, pai, por te ter desobedecido deliberadamente [a fala do Rei Leão que repete sempre que pode ]. O enfermeiro desiste: Não consigo. Está muito fundo. Tem de ser um otorrino. 
Hospital Garcia da Horta, que serve Almada, Seixal, Barreiro e Montijo, sendo que as urgência pediátricas destes dois últimos encerraram. 1h03m depois da chegada: Não temos otorrino a esta hora. Terá de ir para Santa Maria. Penso, mas não digo É curioso... até dia 15 deste mês tenho de pagar 160€ de Segurança Social e não creio que um simples "não tenho dinheiro agora, vão pedir aos ricos, meus chulos dum cabrão" sirva de desculpa. Em direcção a Lisboa, estão 36.519 carros de pessoas que vieram, sem pagar (acho bem), desfrutar das praias para a manutenção das quais pago eu a contribuição autárquica (acho mal). Penso, mas não digo É engraçado... Nem para estas situações existe um dístico de Morador que me facilitasse a coisa, como aqueles que isentam quem reside em Lisboa, cidade que me obriga a pagar €1,40 para lá entrar e cerca de €1 por hora de parquímetro se levar carro. Eu vou, contudo, trabalhar, isto é, contribuir para o suposto avanço das coisas. Não vou apanhar sol e banhar-me no Atlântico!!!
Já no Santa Maria, chamam-nos para a triagem 1h43m depois da chegada. Mariachito está, como sempre, eléctrico. Corre, canta, fala pelos cotovelos e restantes articulações. Penso dizer-lhe Ouve, pá, tens que te fazer de doente para sermos atendidos mais rapidamente. Se mostras que estás bem nem amanhã saímos daqui, mas achei que deveria evitar lições de Português-A-Lidar-Com-A-Merda-Que-Pode-Ser-Viver-Em-Portugal para daqui a uns anos. Aguarde na sala-de-espera, ordena-me, sem um por favor ou outra reverência qualquer, a enfadada senhora. Penso, mas não digo Aguardar? Mais ainda? Lembrei-me agora que até dia 15 de Agosto tenho de pagar o Trimestre do IVA e talvez não possa exclamar, perante o executante que se faz acompanhar sempre por GNR's quando vai numa de penhorar bens, "Olhe meu caro amigo, aguarde aí no átrio do prédio por favor, enquanto eu tento ganhar honestamente a vida, já que não posso vender drogas e armas, forma curiosa de fugir ao fisco"
Quase 3h depois, chamam-nos. Penso, mas não digo O meu filho só tem quatro anos. E, porque é meu, é um puto especial. Quererei eu este país para ele? Merece ele este Estado? Não! Encorajá-lo-ei a sair de Portugal até que este seja um lugar feito para os portugueses, o povo mais belo do mundo. Por agora, é feito à medida dos cães-de-fila do Estado, os privilegiados. Militares, polícias, funcionários de Câmaras Municipais, Tribunais, Finanças, SEF's, Segurança Social, são gente que se queixa de barriguinha-cheia. E não se recusam a assumi-lo. Apenas não fazem a mínima ideia do que é estar pior que eles. Quando esta gente se queixa, arreda, sem sequer dar por disso, todos os outros, que estão PIOR AINDA, para o Quarto Escuro. O Buraco Negro que é ser-se português com Cartão de Contribuinte. 
Quase 4h depois, Mariachito já está desobstruído. A Ponte 25 de Abril não. 
Do lado da foz do Tejo, ainda há luz. É púrpura e faz um jogo de sombras com o Padrão dos Descobrimentos, os silos da Trafaria, o Bugio. Penso, mas não digo Merece este Estado um Povo destes? Não. Vamos todos embora daqui. Gente de real valor, os talentosos, os bons... Partamos e sejamos os eternos retornados de Angola, recordando para sempre as belezas naturais, as tasquinhas, as sardinhadas e os dias de praia até à noite, as vindimas, o queijo de Serpa, as rapidinhas entre as rochas do Sudoeste Alentejano, as cadelinhas a brotar da areia da Fonte da Telha, as anémonas a agarrarem-nos os dedos nas poças das rochas das praias. Mas façamo-lo longe daqui. Deixemos isto entregue a quem estragou! A quem continua a estragar. A quem assina, nas Finanças, ordens de penhora de bens e depois consegue dormir à noite. Aos polícias que ganham percentagem sobre as multas que passam. Aos funcionários de todos os guichets públicos que nem um sorriso dão a ninguém, tratando-nos como robots, lá porque o são! 


Por mim, pelo meu filho mas, também, pelo mais belo povo do mundo, com todos os seus bónus, buços e ausência de dentes incluídos, cheiro a ovelha e insanas conversas de pastores, donos de tascas com canários estridentes de norte a sul, unhas sujas de quem trabalha a terra do condado, velhos com cães obesos, de bengalas de loureiro e bóinas aos quadrados, mulheres de pescadores a chorar mortes que viram da praia, mães como não há no resto do mundo, rostos morenos de rugas fundas a sul, rostos rosados a norte, camisas e samarras no pino do verão, copos de branco antes do almoço, litros de tinto depois do jantar, por todos eles e outros ainda, desde que portugueses, os verdadeiros e bons, os humildes e Grandes, os que Criam, não os que Destroem...


... Quero mesmo muito que este país SE FODA!



4 comentários:

Anónimo disse...

Agora imagina que os teus dois últimos anos eram passados com frequentes idas para as urgências dos mais variados hospitais portugueses. Imaginaste? Pronto. Agora paga um indiano porque neste momento já deves estar com pena de mim.

Obrigada.
Marie

mole disse...

Ler isto ao som de The Good The Bad and The Queen... Racing reading, racing lyrics, racing sounds through my mind.
Muito bom Sr. Mariachi.

Anónimo disse...

vai ao privado marie!!!!
conheço um,que so pagas 10 euros por urgencia,a qualquer dia da semana(24 horas)
lamento ser um pouco distante!!!!
fica quase em torres vedras

Anónimo disse...

vai ao privado marie!!!!
conheço um,que so pagas 10 euros por urgencia,a qualquer dia da semana(24 horas)
lamento ser um pouco distante!!!!
fica quase em torres vedras