terça-feira, julho 14, 2009

Epic Is How Epic Gets

Noé inclinou ligeiramente a cabeça e acendeu, com redobrado prazer, o seu Camel sem filtro, deixando que todo aquele turkish blend enchesse cada um dos alvéolos até que a ligeira tremura das pernas o levasse a sentar-se no banco, feito das últimas aparas dos ciprestes que cortara ali, na Islândia, onde vivia. O cheiro a resina era intenso. Mais ainda que este sentimento de missão cumprida. Nunca pensou, porém, que a Islândia tivesse ficado, irremediavelmente, desarborizada.

16h32 para o Dilúvio

No total, e feita a conversão de côvados para metros, era este um navio de 133,5 metros de comprimento, 22,30 de largura e 13,40 de altura. Uma relação entre comprimento e largura que, Noé estava certo disso, haveria de ser usada na engenharia naval, pelo menos, até 2009. Bem... 40 mil m³ de volume bruto e internamente, 3 divisões distintas que forneceriam uma área total de mais de 8 900 m² de espaço útil seriam mais que suficientes, pensou... ou não?

8h51 para o Dilúvio

Noé veio à varanda, caneca de Brasa numa mão e fatia de pão integral com Becel na outra (dEUS não só pediu para que fizesse a arca mas também que reduzisse nas gorduras e na cafeína), e deu com um gigantesco volume negro na praia, precisamente na direcção onde a arca deveria seguir quando fosse dada a ordem superior (mesmo, tipo, vinda de cima), para retirar as estacas que a suportavam, por ora, em terra firme.
Poisou o frugal pequeno-almoço sobre o carrinho de cozinha gama FÖRHÖJA que comprou por €98,18 no IKEA de Alfragide e seguiu a passos largos para a praia. O céu estava cinzento. Era um monstro com um nauseabundo cheiro a peixe, uma boca ligeiramente aberta deixando entrever uma espécie de cordas de cânhamo, as mesmas que usara para as amarras da "sua" embarcação e um olho que, rodeado de minúsculas cracas e mexilhões, o fitava. Noé não ousava, sequer, tocar naquilo.

6h28 para o Dilúvio

Bom dia, Noé dos Santos, trovejou o gigante. O homem deixou cair o cigarro e petrificou, cravando os dedos dos pés na areia varrida pela rebentação, sem sequer ver as conquilhas que se desenterravam, preocupadas elas próprias com o facto deste labrego poder não distinguir machos das fémeas para que pudesse levar um casal consigo. Quem és tu, horrível criatura? Perguntou, ainda que em surdina, emudecido pelo temor e pelo catarro do primeiro cigarro da manhã. Sou uma Balaenoptera musculus, baleia-azul, para ser mais precisa, o maior animal do planeta. Noé estava incrédulo, estado de alma que rapidamente se transformou em ira e que o levou a gritar Estragaste-me a média, gigante, como é que eu te vou levar ali dentro a ti e ainda por cima a outro? Mas tá tudo maluco, ou quê? Igor, a baleia, sorriu e cuspiu, pelo alerta, isto é, o pequeno orifício no topo da cabeça, um jacto de água que atingiu os 9 metros de altura, para seguidamente dizer, em tom maternal, Vou-te contar uma história, Noé. Senta-te. Acende um cigarro. E dá-me a ponta, que eu não apanhei nenhuma Estação de Serviço pelo caminho e hoje é o Sabath, Sábado, e está tudo fechado, pá! Noé, ainda vermelho de cólera, subiu a túnica e sentou-se na areia molhada. Igor sorgueu-se na barbatana esquerda, pigarreou, assumiu uma expressão entre a Isabel Alçada e a Alice Vieira e deu início à coisa...

6h18 para o Dilúvio

Desdobraste-te em esforço, Noé, mereces saber a verdade. Eu não sou o problema quanto ao transporte. Quando a àgua subir, eu estarei no meu meio. Passarei algumas privações pois será água doce, destilada, mas no fim tudo estará bem. O que me preocupa é mesmo estares a deitar trabalho à rua, podendo poupar tempo e esforço. Muitos animais surgirão, ainda hoje, para seguir na tua barcaça. Mas a alguns não permitirás a entrada. É que daqui a alguns anos, nem tantos assim, o homem extingui-los-á. O dodot, por exemplo. No Século XV já só existirão nas ilhas Seychelles e os marinheiros portugueses achá-los-ão tão apetitosos que dizimarão a espécie. Não vale a pena! Mas há muitos mais casos, como o dugongo-de-steller, o vison-marinho, o leão-do-atlas, o tigre-de-Bali, sei lá. Tu próprio terás tanta fome ao fim do 6.º dia que grelharás duas águias-de-bico-azul. A Bíblia não o refirirá, porém. Noé franziu o sobrolho e, desconfiado, disse Parece que vai chover. Sim, respondeu Igor, a Baleia, E esqueceste-te de me dar a ponta. Vai-te embora mas deixa-me um cigarrinho. Ok, até sempre, então, ó baleia-azul, disse Noé como que a fugir em largas passadas, pensando para consigo se alguma vez este episódio figuraria em algum documento e no que é que Teodora, sua mulher, estava a fazer para o almoço, se a esparguete à bolonhesa que o sacana do puto estava sempre a pedir, ou se os bifes da vazia do casal de vacas-de-um-só-corno que tinham aparecido de véspera e ele partira do princípio que outras surgirião no dia seguinte.

Mariachito - Pai... a história do Noé e a Baleia é parva...
dIAZ - Sim, filho... mas a música é linda! E, às vezes, ser parvo ou, vá lá, pateta, é bom!
Mariachito - Quero a do Pinóquio, pai...

11 comentários:

Anónimo disse...

Podia dizer que é porque não tenho mais nada para fazer..podia culpar o tempo que continua tristonho, frio e pouco convidativo..

podia dizer que a culpa foi de nigel kennedy que me deixou mais melancólica..


e estaria a mentir..

gostei..só pq sim..pq "escorrega" bem a forma como escreves..porque, ainda que completamente parvo, estúpido, por vezes até mesmo irritante, isto fazes tu bem..contar-nos estorias, combinar as letrinhas umas a seguir às outras..


por muito que não goste de te admitir..gosto deste espaço aqui..

e, agora sim, pq nigel kennedy me deixou assim...hei-de ser velhinha, podemos nem nos falar mais, ter perdido o contacto mas estejam 23 graus ou 34, comentando sempre ou não, virei aqui..roubar-te um bocadinho..inspirar-me um bocadinho, sugar-te um bocadinho..


e pronto..nigel kennedy faz-me isto..e para a próxima, qd o ouvir, deixo passar o efeito para poder comentar o que quer que seja aqui..


Marie-under-kennedy-effect-Reis

rosa disse...

Ó Mariáchi, pá... tu ás vezes superas-te!!!

Já te tinha dito, não? Está lá tudo, o BBC vida selvagem, o Dodó, os judeus( e o pretensionismo do povo escolhido), o tuga-life-style, a (p. d. b.) músiquinha e o soninho depois duma boa história contada.

rosa disse...

perfeito perfeito era as tais das aguarelas!!!

áh poiséra.

El Mariachi disse...

Tá mesmo MESMO quase... JURO!

pacheco disse...

bom!

Pedro disse...

Recomenfo espreitarem no Youtube as rabula do cómico brit Eddie Izzard sobre a Arca de Noé e outras histórias semelhantes.
Também ele notou esse pequeno (imenso) plot hole na biblia, então e os peixes? e as baleias? e os patos já agora?

muito bom, Mariachi!!

Anónimo disse...

Vá lá, não estás a falar das bandas e tal do palco super-bock e tal, que daqui a uns anos te vamos ver excomungar, porque as viste quando não eram comerciais e tal, num dia solarengo, ou numa noite fresca de 2009, algures em Algés...! Féldrix estava difícil! Abençoado "anjo" ;-)

Anónimo disse...

Já não passava aki há uns tempos...vinha com ganas de de te cascar! Pk Sim.
Mas pronto, assim dá gosto!

Muy Bueno.

Tóne

Armand Blanchard disse...

ah ganda diaZ!!!

assim sim!!!
tás a ver... em vez de massares as pessoas com essas coisas da música, quando queres sabes como chegar às mesmas.

bom!!!

Anónimo disse...

3º Anónimo
Freaky

Anónimo disse...

Porra tá difícil
2º Anónimo
Freaky
(O 3º é o Toné lol)