quarta-feira, junho 17, 2009

LOST - Season XVII (dIAZ does Jamaica)

Oracabessa é uma localidade no Nordeste da ilha que é uma jangada de selva, um pedaço de África à deriva nas Caraíbas.
E, como todos os outros lugarejos jamaicanos, a vida corre africanamente.
Conduz-se com a buzina, conversa-se com o interlocutor à distância de 50 metros, perfuma-se o ar de cannabis sativa e, depois, já de olhos vermelhos e sorriso na cara, Red Stripe geladinha na mão esquerda, ergue-se o indicador da mão direita e declara-se, com convicção, Respect, máaaaan!
Numa terra onde, para onde quer que se olhe, tudo são árvores dadivosas, mangas, papaias, cocos, banana e fruta-pão, a maior parte das gentes leve a vida sentada atrás de uma banca onde vende mangas, papaias, cocos, banana e fruta-pão.
É no meio de tudo isto que, suando como um boxeur, bebendo uma cerveja no Comedy Bar, evitando duas prostitutas e encetando uma longa conversa com um real rasta, dos que sonham tornar à Etiópia, like a lion in Zion, que não comem comida processada, que assinam por baixo do Manifesto Anti-Trabalho, que metem a palma direita sobre o coração e vergam ligeiramente o pescoço sussurrando, quase entre dentes, Respect ou Honor, que vejo A FOTO.
Numa pequena divisão em frente, para lá das filas de meninos e meninas que, nas suas fardas caqui retornam, aos pulinhos, da escola, há uma barber shop onde o barbeiro, de dreadlocks (suponho que tenha originado a expressão tuga de dread) até aos nadegueiros corta o cabelo, à máquina, a outro. Partilham uma joint de tal forma bojuda que a loja, que na Europa poderia ter sido retirada o Século XIX, parece um palco a 30 segundos de receber uma Madonna qualquer.
Disparo a máquina e uso, como raras vezes o faço, o flash. Não vou a tempo de ouvir o Hey Rambo, don't do that, this is not a zoo. Hey Rambo significa que pensava que eu era norte-americano. Rambo é o nome pelo qual os tratam. Menos mau. No México seria um mero gringo. Em qualquer lado do mundo que não sofra de complexo de inferioridade, não se gosta de visitantes norte-americanos. São os Hunos do Turismo. Os Vândalos da Nova Era. Não respeitam, criticam, desprezam. Guardam boas ou más recordações de um destino consoante tenha, ou não, um Burguer King. Em grupo, têm a mentalidade que caracterizava uma embarcação castelhana liderada por Pizarro.
Mas nada disso interessa quando já um bando de miúdos e vendedoras de mercado correm para assistir ao sururú que se levantou. Não que uma tesoura de cortar pontas erguida ao alto chame a atenção. São os gritos, acompanhados de gafanhotos disparados na minha direcção, que fazem o silêncio daquela rua. Excepto as buzinas. Essas continuam a bradar. Ele também Delete it, Rambo. Delete it immediately!!!
Digo-lhe que não sou turista nem americano. Que sou jornalista e a imagem é apenas exótica para europeus. Que se tivesse pedido autorização, perderia a naturalidade.
O homem transforma-se. Pergunta-me de que Europa sou eu. Digo-lhe que sou português e ele informa-me que Ronaldo está a dois passos do Real. Grita mais uma vez, mas para pedir cervejas ao boteco do outro lado da rua. Pede-me que apague apenas aquela em que ele empunha a arma que era, efectivamente, para ser usada. No transístor, canta Dear Bob. Não uma qualquer. É o Small Axe. Passa-me a ganja para a mão esquerda e bate-me, com a direita, nos nós dos dedos, Respect maaaaan, you're cool, this is Jamaica, man, enjoy. Chegam as cervejas. Só duas. Pergunto-lhe se o cliente não bebe. Ele expele o fumo pelo nariz e exclama, rindo, That is so european, maaaaan!

11 comentários:

Armand Blanchard disse...

passa isso que já cheira a unha queimada...

o tipo que gosta de te ouvir disse...

O que é fascinante é que tu, a cada sitio que vais, consegues ver, e melhor ainda, viver momentos tipo kodak.
Como nos pacotes de açucar, apetece dizer "um dia vou viajar com o dIAZ: HOJE É O DIA!"

El Mariachi disse...

Um dia vou fingir que me suicidei para ver as gajas que aparecem e que obviamente podia ter comido e só não o fiz porque na altura não o percebi!

El Mariachi disse...

Ou seja... já que lá estás, espicaças o destino. Caladinho e fechadinho dentro do quarto de hotel é que não. Depois vai da paixão com que vives a cena. Lá está... se fores amaricano, tudo isto acontece e tu cospes para o chão, olhas à volta e perguntas "Is there a KFC anywhere near"?

Pedro disse...

O que me leva à conclusão, a que também chego sempre a todo o lado onde vou, que toda a gente por este mundo fora gosta de portugueses. Acho que é por sermos aquela espécie de Africa dentro da Europa, mais exóticos que o resto, mas tb mais porreiros...

El Mariachi disse...

é por aí, é por aí... não sei, porém, se o Ronaldo não estragará um pouco a imagem! Até agora era a Amália, o Eusébio, o Figo, o Rui Costa e por aí... Agora temos um Henrique Iglésias versão Musgueira....

Anónimo disse...

Unha queimada? Mas eu ainda nem sequer liguei a broca!!! (Não Diaz não é daqueles que se fuma, mas até combina com o tema Jamaica)
Freaky

1entre1000's disse...

qual abstracionista, cubista, artista liberal estou na minha fase VERDE - verde de inveja!

Zorze disse...

És o maior Diaz; bem-vindo!!! Abraço!

Kaui disse...

Ohhhhh o Diaz está de volta... yupiiiiiii... Isto sem ti não é a mesma coisa. A única animação que tivemos nestes dias foi o Melo a lixar a cabeça ao Constâncio, a Fernanda Serrano a sair da meternidade e o Jacques a chamar estúpidos aos presentes em mais uma reunião de adm. Enfim. Willkomem

Marta disse...

Se não são estes momentos os melhores das viajens... Belas recordações as de quem ousa.
M.Plácido