Assim que o primeiro foguete rebentou, com estertor, provocando pequenas ondas que iam dos bordos ao centro do meu copo de morangueiro, iluminaram-se os pinheiros em redor do terreiro, mas também a face dela. Não que fosse preciso. Conheço-lhe cada um dos pêlos no buço, mais aqueles que lhe unem as sobrancelhas. Perguntem-me quantos são. Eu respondo. Calculo que também ela saiba o exacto tamanho das minhas orelhas, a referência de Pantone da alvura dos meus tornozelos, o número de borbulhas que tenho nas costas mais as manchas das que secaram, só das vezes que estou de tronco desnudo a enxadar a horta e ela passa, vestido de chita e meias de renda de crochet da avó Cremilde, de alguidar à cabeça, umas vezes com os lençóis que deixou a corar, outras com toucinho de salga. Traz consigo o leve aroma de sabão Clarim, das manhãs no tanque, de feno que atira aos bísaros do pai e, nas axilas, do muito alho queimado que come ao jantar. O amor também surge entre feios, sabeis? Olhou-me e sorriu e mordeu a palhinha que saía do Trina Laranja e Jaquim, que é bombeiro, gritava ao Zé, que é o fogueteiro e estava entornado de minis aviadas no Central, que ele tinha Uns cornos que dava para ir à Carrazeda de Montenegro sem apanhar a Carreira e que Os da Protecção Civil não querem foguetes na mata. Depois abanou as ancas e o rabo que balança, ainda hoje, com tão pouco, quando a Katinha e os Toblerones, que acho que têm um sobrinho ou lá o que é da Tonicha no órgão, começaram a tocar. Perguntei-lhe se queria dançar mas o Chico Pica passou aos rodopios a equilibrar a cerveja no boné, como sempre faz porque toda a gente acha piada e ela riu-se e fechou os olhos e coçou o peito que ficou vermelho e olhou-me recto no olhos e disse-me que a avó estava na quermesse a falar com a Zezinha e a Mouca da Mercearia. Disse que lhe apetecia uma fartura e fomos e passámos pela avó Cremilde que meteu logo a boca de lado em direcção à Zezinha para desdenhar e isso obrigou a Mouca da Mercearia a inclinar-se para ouvir e assim ficaram, nós a segurar nas farturas ainda a queimar e a sorrir para a senhora que, embora só nos visse uma vez por ano aqui na Feira de São Deodato, não se furta nunca ao desabafo porque o marido devia estar a ajudá-la, mas é um Panhonha lambe-conas putanheiro. Ela disse-me que preferia ir até ao eucalipto por trás do armazém da Junta, porque a avó e as outras pensariam que estávamos para o outro lado e eu disse que sim e tremiam-me as pernas e ela disse-me Eu nunca fiz isto com ninguém e fechou os olhos e eu percebi que ela queria que eu a beijasse mas eu não sabia se queria ou não com língua mas decidi tocar-lhe apenas com os lábios e como vi que ela gostava meti-lhe a língua dentro da boca e ela começou a respirar fundo e a entrelaçar uma perna em volta das minhas e eu senti-lhe as tremuras e segurei-lhe uma mama e estava rija e tirei-a para fora e olhei, tinha um bico castanho, escuro, duro, beijei-o e mordi-o e ela gemeu, agarrei-a na cintura e senti-lhe uma, duas ou três pregas, já não me lembro quantas, só me lembro de como não percebi como é que alguém preferia aquelas mulas magras que o Mané Piston tinha em calendários pendurados na oficina, ela pegou na minha mão e meteu-a por dentro das cuecas dela, eu não sabia onde encontrar as coisas no meio de tanto pêlo e decidi a ir-me pelo calor, mas não era nada igual àquela puta de quando fui a Talavera de La Reina na despedida de solteiro do Marreco, acho que se chamava Sara e tinha a crica igual à da minha sobrinha quando acabou de nascer e aquilo fez-me impressão, mas agora estava descontrolado e não sentia as pernas e queria fazer qualquer coisa que não sabia bem o que era porque não sei se ela queria e depois ela tocou-me no meu e eu não aguentei e realizei-me mas antes que o desconforto pudesse surgir já o Zé, o fogueteiro e não o da vacaria, tinha pegado fogo à mata. E eu vi-a a ir-se embora, atrás da avó, a juntar os joelhos enquanto andava, o perfil iluminado pelo laranja dos pinheiros que estalavam e chiavam em agonia. Olhou para trás. Eu baixei os olhos. No chão, uma caneta que alguém perdeu. Apanhei-a e li “Agência Funerária Pestana”. Depois cheirei os dedos.
Mostrar mensagens com a etiqueta No tempo em que se descascavam laranjas em espiral ao postigo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta No tempo em que se descascavam laranjas em espiral ao postigo. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, julho 14, 2010
quarta-feira, abril 28, 2010
O Homem Que Tinha Uma Ideia...
... não fazia a mínima!
Um dia, cansado de tanto tentar lembrar o que, normalmente, descorria escorreitamente, deitou a cabeça sobre uma pequena almofada que repousava, como sempre, sobre o sofá, bordada à mão pela avó Rosália, de quem não tinha ideia nenhuma, e fechou os olhos.
o VaZiO...
Premiu as pálpebras até que as pestanas doessem e, não aguentando a pressão, abriu os olhos. Diante de si, a filha. Dois pequenos anos e dois enormes olhos fitando-o antes de dizer Pai, fiz chichi de sonho mau...
... É mais ou menos aí que o Homem Que Tinha Uma Ideia se lembra que a ideia que fazia das coisas era a errada.
E o Amor, de que não fazia a mínima, sussurrou-lhe EUREKA ao ouvido...
Um dia, cansado de tanto tentar lembrar o que, normalmente, descorria escorreitamente, deitou a cabeça sobre uma pequena almofada que repousava, como sempre, sobre o sofá, bordada à mão pela avó Rosália, de quem não tinha ideia nenhuma, e fechou os olhos.
o VaZiO...
Premiu as pálpebras até que as pestanas doessem e, não aguentando a pressão, abriu os olhos. Diante de si, a filha. Dois pequenos anos e dois enormes olhos fitando-o antes de dizer Pai, fiz chichi de sonho mau...
... É mais ou menos aí que o Homem Que Tinha Uma Ideia se lembra que a ideia que fazia das coisas era a errada.
E o Amor, de que não fazia a mínima, sussurrou-lhe EUREKA ao ouvido...
segunda-feira, setembro 15, 2008
Série PERGUNTAS IDIOTAS/ILAÇÕES IMBECIS - Tomo I
Bem sei que, com a idade, perdemos algumas coisas.
Tudo bem.
Ganhamos outras!
Óleo na pele, por exemplo.
De uma perspectiva negativa, somos agora mais viscosos.
Da outra, somos mais suaves, agradáveis ao toque.
É, pelo menos, a única explicação que consegui arranjar para o facto dos pensos rápidos já não colarem, de há uns anos para cá, mais de 10 minutos.
Tudo bem.
Ganhamos outras!
Óleo na pele, por exemplo.
De uma perspectiva negativa, somos agora mais viscosos.
Da outra, somos mais suaves, agradáveis ao toque.
É, pelo menos, a única explicação que consegui arranjar para o facto dos pensos rápidos já não colarem, de há uns anos para cá, mais de 10 minutos.
quarta-feira, abril 09, 2008
Há, na Rua Anchieta, ao Chiado, uma Vida Portuguesa como ela é, Desde Sempre
Sou um Merdas.
Desfaço-me, tremo como gelatina Royal quando vejo um sorriso.
Sempre fui assim, desde que me lembro!
Não é bom!
Incomoda-me.
Deixa-me inseguro.
Faz-me pensar que, se a vocalista dos Da Vinci sorrisse para mim, eu saltar-lhe-ia para cima, fogosamente, num acesso de desejo incontrolável, gritando "fica tu por cima".
Depois caio em mim.
E já não janto!
A Catarina Portas, por exemplo, e o seu perpétuo sorriso (ou será daquela boca?).
E não é que a miúda é desarmantemente bonita? Mesmo? Apre, dIAZ, mais essa coisa que tens com bocas, pá! São só duas mucosas, a de cima e a de baixo, que quando abrem descobrem uma fileira de hastes de esmalte e... pois!
Depois há aquele ligeiro rasgar dos olhos, que parece ser o único momento em que nos concedem usufruto da iálma.
Catarina Portas encostou um ombro, fino, à ombreira da porta, grossa.
Gesto raro, este, o de encostar um ombro, de braços cruzados, a uma ombreira de porta. As portas continuam a ter ombreiras, as pessoas é que deixaram de ter tempo para lá encostar o que lhe é destinado... o ombro.
A Catarina Portas não.
Diz que posso fotografar o que quiser.
Fá-lo com os olhos muito abertos.
Bonita, pá!
E depois há a loja.
Onde estava a porta com ombreira com a Portas.
E o que vende?
Vende, num só espaço, todo o Orgulhosamente Português que ainda se fabrica mas só se encontra, cada um, em cada qual loja da especialidade.
Sabão Clarim.
Andorinhas de cerâmica (aquelas que ficam por cima da placa de mármore "Vivenda O Meu Ninho"), de Bordalo Pinheiro.
Tronos de Santo António (Toda a noite ouvi no tanque/ A pouca água a pingar/ Toda a noite ouvi na alma/ Que tu me podes amar).
Lenços de Viana (Quando eu saio Há rua/ LÉVO sempre amor comigo/ Para poder oferecer/ A quem o tenha perdido).
Sacos de pão.
Alcofas.
Tamborzinhos.
Lápis Viarco.
Brinquedos de Lata (lavatório, fogão, balança, tábuas de engomar com ferro, máquinas de costura, camioneta com grade, carro grua, jipe, carroça com cavalos, cavaleiro).
Esfregões Rex.
"Encerite e a beleza e a saúde das madeiras".
Limpa Metais líquido Coração.
Sabonetes Grapefruit, Fox-Trot, Mimosa do Japão, Tuberose, Ondina, Rivale, Favorito, Banho, Alface, Papaia, Condezza, Hércules, Cravo, Melro, Mussulo e Almond Milk.
Flocos de Aveia, Farinha de Arroz, Cevada Virgem e Fécula de Batata marca Zélly.
Filigranas.
Conservas Tricana, da Conserveira de Lisboa (enguias, lulas, atum, mexilhões, sardinhas).
Azeites Saloio, Triunfo e Santa Maria.
Palitos Lusitanos.
Cremes para mãos Alantoíne e Benamor.
Funilaria.
Ex-Votos de cera.
A Galocha, o famoso caderno Emílio Braga, usado pelo Pessoa e tantos outros, pelo que podem meter o Hemingway e o Chatwin no cu, que para bom entendedor...
Cartas de jogar da litografia Maia.
Azulejos Viúva Lamego.
O Nome da Loja? A Vida Portuguesa Desde Sempre, que é como quem diz Desde Que Encostávamos os Ombros às Ombreiras, baptizando-os!
Desfaço-me, tremo como gelatina Royal quando vejo um sorriso.
Sempre fui assim, desde que me lembro!
Não é bom!
Incomoda-me.
Deixa-me inseguro.
Faz-me pensar que, se a vocalista dos Da Vinci sorrisse para mim, eu saltar-lhe-ia para cima, fogosamente, num acesso de desejo incontrolável, gritando "fica tu por cima".
Depois caio em mim.
E já não janto!
A Catarina Portas, por exemplo, e o seu perpétuo sorriso (ou será daquela boca?).
E não é que a miúda é desarmantemente bonita? Mesmo? Apre, dIAZ, mais essa coisa que tens com bocas, pá! São só duas mucosas, a de cima e a de baixo, que quando abrem descobrem uma fileira de hastes de esmalte e... pois!
Depois há aquele ligeiro rasgar dos olhos, que parece ser o único momento em que nos concedem usufruto da iálma.
Catarina Portas encostou um ombro, fino, à ombreira da porta, grossa.
Gesto raro, este, o de encostar um ombro, de braços cruzados, a uma ombreira de porta. As portas continuam a ter ombreiras, as pessoas é que deixaram de ter tempo para lá encostar o que lhe é destinado... o ombro.
A Catarina Portas não.
Diz que posso fotografar o que quiser.
Fá-lo com os olhos muito abertos.
Bonita, pá!
E depois há a loja.
Onde estava a porta com ombreira com a Portas.
E o que vende?
Vende, num só espaço, todo o Orgulhosamente Português que ainda se fabrica mas só se encontra, cada um, em cada qual loja da especialidade.
Sabão Clarim.
Andorinhas de cerâmica (aquelas que ficam por cima da placa de mármore "Vivenda O Meu Ninho"), de Bordalo Pinheiro.
Tronos de Santo António (Toda a noite ouvi no tanque/ A pouca água a pingar/ Toda a noite ouvi na alma/ Que tu me podes amar).
Lenços de Viana (Quando eu saio Há rua/ LÉVO sempre amor comigo/ Para poder oferecer/ A quem o tenha perdido).
Sacos de pão.
Alcofas.
Tamborzinhos.
Lápis Viarco.
Brinquedos de Lata (lavatório, fogão, balança, tábuas de engomar com ferro, máquinas de costura, camioneta com grade, carro grua, jipe, carroça com cavalos, cavaleiro).
Esfregões Rex.
"Encerite e a beleza e a saúde das madeiras".
Limpa Metais líquido Coração.
Sabonetes Grapefruit, Fox-Trot, Mimosa do Japão, Tuberose, Ondina, Rivale, Favorito, Banho, Alface, Papaia, Condezza, Hércules, Cravo, Melro, Mussulo e Almond Milk.
Flocos de Aveia, Farinha de Arroz, Cevada Virgem e Fécula de Batata marca Zélly.
Filigranas.
Conservas Tricana, da Conserveira de Lisboa (enguias, lulas, atum, mexilhões, sardinhas).
Azeites Saloio, Triunfo e Santa Maria.
Palitos Lusitanos.
Cremes para mãos Alantoíne e Benamor.
Funilaria.
Ex-Votos de cera.
A Galocha, o famoso caderno Emílio Braga, usado pelo Pessoa e tantos outros, pelo que podem meter o Hemingway e o Chatwin no cu, que para bom entendedor...
Cartas de jogar da litografia Maia.
Azulejos Viúva Lamego.
O Nome da Loja? A Vida Portuguesa Desde Sempre, que é como quem diz Desde Que Encostávamos os Ombros às Ombreiras, baptizando-os!
Subscrever:
Comentários (Atom)
