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segunda-feira, janeiro 25, 2010

El Mariachi Attenborough dIAZ's REPORT n.º 2.682

- BIP -

Ainda as gralhas se fazem ouvir no alto da arriba e já as abelhas e zangões andam em azáfama respigadora, planando sobre as azedas, as únicas flores que, por aqui, confundem os primeiros raios de sol com a chegada da Primavera.

- BIP -

quarta-feira, agosto 12, 2009

Argumento n.º 802

Pela primeira vez em muitos anos, Cinema como Teatro. Por exigência do realizador e argumentista. Sem trailers de visionamentos vizinhos ou que se avizinhem, sem publicidade e com começo à hora marcada. Quem chega atrasado, porque mora na Duque de Loulé e decide levar o carro para o Monumental, perdendo tempo à procura de estacionamento, fica à porta. Pode, contudo, trocar o bilhete para um da sessão seguinte. Ou então vai ver o Sei o Que Fizeste o Verão Passado Outra Vez. Ecrã negro, mudo, letras brancas, courrier new:

El Mariachi dIAZ produções

Ainda ecrã negro e alguém pigarreia, cavernosamente, uma voz que se adivinha barítono, um decibel acima do melodioso, poucos abaixo do pregão:

Sobre o talco dos dias
leve aroma a lavanda
penso leve na demanda
que hidrata as virilhas
Ser feliz

Um, dois, três minutos
Um momento, quanto será?
Todo o tempo do planeta
Congelado num cometa que aterra, certeiro,
Aqui, entre duas costelas
Sem dor, mazelas
Ser feliz...
... se não é isto, que será?

E depois, quando parte
Esse talco dos dias
Assam as partes
Amarga-me a boca
Quero eu, querias...
Que em brado de voz rouca
Tudo fosse
Não virilhas em sangue
Cometa Big Bang

Mas sim a eternidade em Fá
Como a música que ouvi
Refrão em Mi
A que te dei, sorvi, sorvemos
Uma vida boa, curta que seja
Com esse aroma a cereja
É passá-la sobre ti


Na última estrofe, fade in do homem que lê, olhando o ecrã do computador. Um gole no copo de vinho, ecrã negro

A Be Your Own Dog Joint


Um bafo no cigarro

Verdade de Ti


Um digitar na tecla do ponto final e, neste exacto momento, o ecrã volta a ficar negro ao som desta. Os nomes dos actores alternam com imagens daquilo que será, nesta história, uma manhã de Domingo, a saber:
. A agulha sobre o vinil, a label da banana do Warhol em segundo plano.
. Torradas de pão alentejano com doce retirado de uma jarra com um pequeno rótulo onde se lê, numa letra escrita a aparo, fig sweet.
. Café duplo com uma gota, literalmente, de leite.
. Desviar o cortinado, sombra dos plátanos, festa no cão que dá uma dentada na torrada.
. Câmara fixa nos ombros, estilo videoclip, a caneca do leite em primeiro plano mas desfocada, uma sala com o cartaz do Trainspotting, um corredor com o cartaz do Delicatessen e um quarto onde, à cabeceira, está uma reprodução do Jardim das Delícias de Jerónimo Bosch. Na cama, de lençóis em desalinho, está um corpo magro, moreno, explicitamente nu. Acabaram, por ora, os pruridos hipócritas com a nudez no Grande Ecrã, púbis depilado, pés pequenos, perfeitos, dos quais a câmara se aproxima e ele beija:

Ele - Queres o pequeno-almoço na cama, como nos filmes em que as pessoas gostam muito uma da outra, mas escondem sempre algo e, inevitavelmente, é sobre isso que o filme incidirá?

Ela – Não. Prefiro fazer-te um broche e beber-te. A ver se hoje saímos. Estou assada e é preciso apanhar sol. A vitamina D, ou lá o que é, é muito precisa.

Ele – E se morássemos na Islândia, ou Oulo, na Finlândia, e fosse Inverno? Onde irias arranjar o sol?

Ela – Em comprimidos. E ficaríamos em casa a foder. Infelizmente, moramos em Portugal, pelo menos por enquanto. E lá fora está sol. E calor. E há gente. Com quem podemos falar. Estou farta de gemer e gritar, gritar e gemer.

Ele – Barriguinha cheia, é o que é. Mas vamos. Acabei o argumento.

Ela – Eu sei, ouvi-te a ler em voz alta.

Ele – E porque não vieste por trás enfiar-me a língua no ouvido?

Ela – Porque achei estranho.

Ele – A língua no ouvido? Já me podias ter dito. Pensei que gostavas.

Ela – E gosto. Do poema não. É estranho.

Ele – Tu também és. E não é por isso que me dás menos tusa. Sou doente, eu sei. Febres de ti, tenho eu, muitas. E já passava horas a lamber-te a aspirina. Fazemos um sixty nine e tu chupas-me o paracetamol, boa? Já lhes devíamos ter posto nomes há muito tempo. E estes parecem-me per-fei-tos.

Ela – Sim, doutor. E depois? O argumento... é para quem?

Ele – É sempre para ti, primeiro. Tu é que és a crítica. Se não passa por ti, não vai a mais ninguém.

Ela - Mas eu só falei do poema. O resto...

Ele – Esquece o resto. O poema era para acabar em grande. Ele está a dizê-lo dentro da banheira antes de deixar cair o secador em modo Arranca-Escalpe e começa a música que eu meti ali no prato, mas a versão do Beck.

Ela – O grau de electrocussão não depende da velocidade de sopro do secador, pá!

Ele – Ai não?

Ela – Não! E eu é que venho da terrinha, meu labrego!!!

Ele – Trigueirinha. Cheiras a cerejas, como no poema.

Ela – Ai era para mim? Então já gosto mais...

Ele – Materialista das letras.

Ela – Fode-me... vem-me ao cu. Quero-te!

Ele está sentado no chão, costas encostadas à cama, ela passa-lhe o pé pela nuca, depois chega mais perto, passa-lhe os lábios, língua ligeiramente de fora, pelo trapézio, pescoço e, no momento em que lhe enfia a língua no ouvido, entra esta

As imagens seguintes são da estrita responsabilidade do realizador e pretendem deitar abaixo barreiras ou apenas redifinir aquilo a que se convencionou chamar de porno/erótico, dois termos distintos mas que julgo ainda não terem sido alvo de algum consenso no que toca à sua definição, pelo menos exacta.

A câmara segue as mãos masculinas, morenas, cheias de veias, enormes à escala do corpo dela. Os seios que se arrepiam, os mamilos que escurecem, o ventre que se exalta, demoram-se os dedos pelos lábios dela, morenos, o clítoris cresce desmesuradamente, penetra-a com dois dedos e a câmara filma o perfil dela que aparece, por baixo, num plano vazio, boca aberta soltando um gemido, um longo fio de saliva ligando os lábios grossos. Ela vira-se e ergue as nádegas, ele continua a penetrá-la com dois dedos e lambe-lhe o ânus avidamente, com ganas de mais e mais e mais e mais e vira-a novamente, sobe com a língua pelo corpo e coloca-se à entrada dela, glande inchada, roxa, junto da vulva, ela puxa-o para si com os pés, ele não cede, passa-lhe a língua nos lábios e enfia-a na boca no mesmo tempo em que a penetra profundamente, precisamente quando os violinos aumentam de intensidade e segue a câmara para a janela, não há uma brisa que agite os plátanos. As antenas decrépitas no telhado vermelho. É esta a imagem enquanto se ouve:

Ela – Por mim... deixavas cair o secador?

Ele – Depende do grau da electrocussão... Mas levava-te comigo à Fonte da Telha, roubava um barco aos pescadores e remávamos até ver onde ia dar... a Cacilhas, provavelmente!

Ela – Foda-se, amo-te!

O plano está agora sobre ambos, fitando-se mutuamente, quatro olhos brilhando muito, as lágrimas dele são as primeiras a cair...

Ele – Eu também! Mas não o voltarás a ouvir!

Entra esta...

terça-feira, agosto 04, 2009