terça-feira, dezembro 29, 2009

Kitzbühel, Tirol, Áustria, Dezembro de 2009 - Uma visão à dIAZ em 3 estórias e um iôdelêi iôdelêi iôdelêíhú - Estória Número DOIS

Estão -15ºC que já não me aquecem nem arrefecem. Pronto, apanharam-me, talvez arrefeçam, afinal, um poucachinho o queixo e a ponta do nariz que, sendo o meu, deverá considerar-se uma superfície considerável. O queixo, esse, é de dimensão e feitio normais, pelo que podemos avançar no que toca a colocar o leitor num plano imaginante equiparável ao do momento em causa. Que é por volta das 5h30 da manhã, quando o lusco fusco, esse magano amicíssimo do modo tungsten da Canon empresta ao céu aquele azul escurão sem que a iluminação pública tenha sido desligada. A neve, essa, também está intacta no passeio e sou eu que lhe tira os três, por hoje, num tão inspiracional crrrót crrrót quanto o shláp shláp a que nos remete a infeliz expressão que usei. Podia ter usado macular a alva superfície ou tatuar de humana presença o que a natureza preparou com tanto esmero mas agora já é tarde e, confissão ao fim de tantos anos de profissão, nunca apago o que escrevi. Só às vezes. Muitas. O tripé é, agora, o meu principal inimigo. Agride-me violentamente de cada vez que o transporto daqui para ali com queimaduras nos dedos infligidas em sucessivos upper cuts de boxeur dopado, preferia mil vezes uma chapada de mão aberta do Tarzan Taborda, principalmente agora que está morto e resta apenas aquele baluarte na Fonte da Telha, um prédio onde ainda se pode ler que, em tempos, cuidou das costas das pessoas com arte. Arte dele. Está, pois, na hora do pequeno-almoço no hotel e faço aqui uma consideração, que se provará, adiante, propositada, do que são, para mim, duas provas máximas de civilização: 1. Croissants-como-deve-ser, que é mais do que os cruássans tugas, meias-luas de massa idêntica à do pão-de-deus e merendas-mistas e só não de palmiers (ou palmiéres, vá) porque não lhes deu para isso. Croissants-como-deve-ser são leves pedaços de pecado com apenas ar entre cada uma das mil folhas, tão vazio daquele peso que por cá grassa como cheio de gordura que lustra as mãos a cada dentada consciente de todo o pecado que esse acto acarreta... 2. O facto de haver uma sala do bar (neste caso) mas também de qualquer restaurante, cafetaria ou outra coisa qualquer ligada aos prazeres da gula onde se pode fumar. Na Áustria, ao contrário de Portugal, os fumadores não passaram a ser, tão repentinamente como das 23h59 de dia 31 de Dezembro de 2007 para as 00h00 do dia 1 de Janeiro de 2008, leprosos a evitar e olhar de esguelha, até a despedir, se tal fose preciso, tacanhez norte-americanizada feita cruzada contra o cancro nos fumadores passivos, essas bonequinhas de porcelana que podem conduzir carros de consumos astronómicos, não considerar uma só ida de transportes públicos para o emprego, pedir naco na pedra num restaurante de cinco metros quadrados mas, por dEUS, inspirar o fumo desses cidadãos de menor monta é que não. Ficará, por ora, e em todo o despropósito que assumo, o contribuinte a saber que foram gastos milhões de euros para que o preconceito contra os seropositivos e toxicodependentes fosse amenizado e, afinal, é ver-me acender um preguinho que, admito, na minha liberdade de escolha, contribui para a minha morte precoce, e é logo o gajo do lado a assumir aquele ar dos justos, transparecendo, por todos os poros, vontade de me cortar a carótida com o x-acto da Mecanorma que já não pôde comprar na Papelaria Fernandes porque, enfim, como há legislação mais importante como seja a proibição do fumo ou o casamento entre homossexuais, deixou-se que alguns marcos do comércio tradicional legitimamente português abrissem falência. E é a pensar em tudo isto, no êxtase que é o primeiro café do dia com o primeiro cigarro do dia com a primeira cólica do dia (esta é efeito do êxtase e não tanto parte do êxtase em si), em amena temperatura e ambiente aconchegante, rodeado de madeiras e envergando apenas uma tshirt, que vejo o personagem. Fuma mais compulsivamente do que bebe canecas de black coffee, ou vice-versa, fala mais com toda a gente que aqui entra do que com o cão deitado a seus pés, ou vice-versa, abana o bicho duas vezes a cauda e diz au auuuuu a qualquer coisa que ele diga, num alemão quase tão imperceptível como o dele. Sai-lhe em gasta voz um Morgen! direito a mim. De onde sou, quantos dias vou ficar, se gosto, porque é que olho tanto para a mesa do fundo, não que ele não consiga também perceber que elas são atraentes, digo-lhe que tenho quase a certeza que são sérvias e, a serem, estão longe de se comparar em beleza com as outras que por Belgrado ficaram, ele diz que as mais belas do mundo são as jamaicanas e conta, de brilho nos olhos baços da idade, que viveu em Port Antonio — onde estive há meses — dos 24 aos 28. Debita imagens que lhe ficaram na memória e que não me atrevo a desiludir, mas guardo para mim como tudo está diferente. Fico com a certeza que sim, afinal, aquela é a melhor idade para viver na ilha que é jangada de África à deriva no Mar das Caraíbas. Pergunta-me como está Montego Bay, Kingston Town, digo-lhe apenas que não fui a esta última, omito as razões. A Jamaica de sessentas era, pois, outra da mesma fruta. Nem que fosse porque Sir Bob Marley ainda não tinha direito a estar a dar música em todos os estabelecimentos para turistas, como se toda a gente, do barman ao taxista, tivesse carregado na tecla repeat ao mesmo tempo. Também ele foi jornalista de correr mundo, também ele amou, de formas diferentes e por diferentes razões, todos os cantos por onde passou. Agora tem as recordações. Aconselhou-me a guardar, também, as minhas, em mil cadernos como este onde estou borrar algo e que por acaso ainda tem borras de Blue Mountain Coffee. Não me pareceu, pois, que Horst Ebersberg fosse apenas um reformado conhecido por todos os habitantes locais. Mas pensei que tal se devesse à minha sensibilidade atordoada pelas extremidades geladas e cérebro ainda longe de estar a carburar como em latitudes mais quentes. Combinámos um encontro no teleférico de Hahnenkamm, para um retrato de família, às 13h, hora em que levaria a FILHA DE OITO ANOS (sim, o ar da montanha escusa os comprimidos azuis) para a aula de esqui que, aqui, é actividade extra-curricular no ensino público (assim como a natação o é em Portugal... ou não). Não consegui cumprir com o acordado. Mas Engelbert, o meu guia montanheiro (esse que pensou que eu, menino de areia de praia, haveria de achar que as pernas enterradas em meio metro de neve por colinas com inclinação de ângulo quase recto não era nada por aí além), descansou-me em relação à falha. Horst é, provavelmente, o habitante local mais descontraído em relação a tudo. Mas conhece-lo? Pergunto, ao mesmo tempo que penso que, vista daqui, mil oitocentos e tal metros acima, Kitzbühel não parece assim tão pequena. E quem não conhece Horst? Olha... aquela — e aponta para uma pequena casa de madeira quase omissa pelos enormes pinheiros numa das vertentes que desce, quase a pique, deste cume onde me trouxe — é a sua cabana de Verão, quando tudo isto está verde e florido e quase podes ouvir a Heidi ou a Julie Andrews a cantar, o que seria bem mais agradável que os grupos de iodeling locais. É onde vem para escrever ou apenas ler, sei lá. Pergunto se é apenas conhecido como uma espécie de louco da vila ou algo próximo disso, para receber um ar indignado de volta, com um Estás louco? O Horst é uma das pessoas mais estimadas de Kitzbühel. Não consegue estar parado. E continua a fazer o que faz melhor. Tem um pequeno jornal mensal, gerido, redigido e publicado por ele. Quando há algo que não está bem por aqui, ele investiga e dá a notícia, apontando o dedo com tal arte que, sem ofender ninguém, as coisas solucionam-se com uma rapidez astronómica. Há uma frase local que talvez se torne um ditado: Antes uma multa da polícia que ser policia numa notícia do Horst.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Kitzbühel, Tirol, Áustria, Dezembro de 2009 - Uma visão à dIAZ em 3 estórias e um iôdelêi iôdelêi iôdelêíhú - Estória Número UM

Estão -10ºC que me agitam a bexiga em perpétua vontade de urinar e nervoso miudinho por saber que, para o fazer, vou encontrar um mais-que-nunca diminuto Zezinho em mirrada agonia invernil. De queixo e nariz dormentes, faço lembrar (a mim mesmo) aqueles petizes que vêem o Barco Pirata da Playmobil na montra e nunca mais se calam Eu quero Eu quero Eu quero, só que os meus desejos são bem mais humildes Eu quero apenas um café e um cigarro a acompanhar. O guia não me ignora como um pai de carteira menos abonada, a pensar como há-de contornar o pedido e subsequentes expectativas com o Carro de Polícia da Playmobil, substancialmente mais barato, antes a sua expressão compenetrada é acompanhada por um Se queres tirar fotografias a lugares aprazíveis e bem decorados tenho que te levar ao lugar perfeito. Ainda não sei é qual será! Eu, sequioso de cafeína, nicotina e mais uma ou outra ina que para aqui não serão, por ora, chamadas, limito-me a olhar pela janela do carro que atravessa, como um barco num mar de branco, o vale, neve a estibordo, neve a bombordo, ambos os bordos elevando-se um pouco adiante em montanhas tão altas que o sol só aparece entre as 12h30 e as 16 e qualquer coisa, encostas forradas de pinheiros, coníferas feitas manto que apetece pisar, não para estragar mas para sentir o flóft debaixo dos pés. Indetectável, camuflada no meio desse voraz bosque que a parece ter engolido, uma hut ou cabana, vá, de madeira, um fio de fumo que se ergue na vertical porque aqui o vento é nulo só para chatear, permitindo que o frio abata sobre nós em golfadas vindas dos cumes, e digo Que espécie de eremitério é aquele? E rasga-se no fellow que vai ao volante um sorriso acompanhado de um Grande ideia! E eu que não sabia onde levar-te! Aquilo é o Ensiedelei, um restaurante de um amigo meu. E era! Daqueles em madeira por dentro e por fora, uma capela ao lado, promessa de alguém que chegou vivo da cruzada contra os Turcos, onde se arriba por uma estrada sinuosa, que rasga um bosque cerrado, tudo é branco e preto, uma raposa e um veado depois estamos lá, inigualável varanda sobre Kitzbühel, muito lá em baixo, como uma maqueta de arquitectura de um espertalhão finalista da Lusíada Este é o meu projecto de final de curso, xô prussôr, um lugarejo no fundo de um vale entre os Alpes Austríacos, com poucos milhares de habitantes, todos se conhecem, casas de madeira, ali ao fundo um lago, o Schwarz-see, que gela no Inverno, as encostas cobertas de coníferas que evitam as avalanchas, uma Primavera feita de verde-infinito e mantos de groselhas, mirtilos e solitárias edelveisses, ou lá o que é, que eu quero é ser arquitecto porque os botânicos não andam de BMW!
Entramos. Está quente. Como em todo o lado que não seja o lado de fora. Só há 3 pessoas. Pinky, o dono, Alex, o filho e uma lindíssima loira de sua graça Marie Therese, 32 anos que sucumbiram à boa disposição — e outros atributos que desconhecerei — dos 45 de Pinky, personagem bem conhecida por estas bandas, sorriso rasgado e um humor inteligente, prazenteiro, de anfitrião à antiga. Benvindo à minha cabana na floresta, troveja este grandalhão, quase uma caricatura, com os seus lederhosen de infante em corpo de wrestler. Trabalhou como chef da Formula One Paddock Club durante 10 anos, mais alguns na Red Bull Racing e acabou aqui, no meio do bosque, a fazer o que faz melhor, gastronomia tirolesa. Que vai bem com hospitalidade montesa. Queres café??? Mas isso é para meninos, pá! Bebes já aqui um glühwein (vinho tinto quente com canela e laranja) ou uma Água da Montanha (Schnapps) e não há frio que se te pegue. O dIAZ, que está, como convidado, à altura do melhor cicerone, lá foi provando disto e daquilo, ficou a saber que a alcunha Pinky se deve ao facto desta figurinha gigantesca se passear, em tempos, numa Piaggio Vespa 150cc de dois selins igual à minha mas cor-de-rosinha, riu e re-riu como se não houvesse amanhã e, a haver, não seria tão frio, e foi-se embora pouco depois de Pinky ter dito qualquer coisa como Mas vais mesmo tirar-nos uma foto para a revista? De família? Assim tipo retrato? Não queres antes tirar só à minha namorada? É que ela é que é gira, pá, tipo modelo, olha lá para ela, vá. Olhei. E, não sei se pelo entorpecimento do álcool, demorei-me um pouco mais do que devia... para ouvir, num quase sussurro E então? É bom, não é? Queres ver-lhe as mamas? Eu digo-lhe...

sexta-feira, dezembro 11, 2009

A Natureza Sabe... PERGUNTE-LHE!

Estou a dois dias de ir para a terra dos 3 SH's (Schnitzel-Shtrudel-Schnapps), como lhe chamei da última vez que por lá andei, a pedalar uma pasteleira pelas ruas de Viena.
Desta feita, porém, é Kitzbüel, onde a neve já fez das suas. Habituado a latitudes mais suadoiras, que a mais não obrigam que um mero chinelo de dedo, o dIAZ começou, por cá, nos últimos dias, em que a coisa já arrefeceu (e bem), a usar tshirt e casaquinho, por forma a ambientar-se ao desconforto que é esta coisa de, à primeira rabanada de vento (que está gelado pá dédéu) sentir o mais-que-tudo engelhar até ficar assim tipo pescocinho de frango daqueles que se encontram no pires dos pipis lá da tasca do Zé Mau. Vai daí, conclui o Mariachi que não é nada de que se morra e que, se calhar, é melhor esquecer as botas de neve e casaco de penas que fazem muito volume na mochila e roubam, no regresso, espaço aos hímanes de frigorífico com que TODOS, sem excepção, serão corridos este Natal.
O problema é que, hoje de manhã, passei por um qualquer pequeno lago que um qualquer pequeno arquitecto (que não percebe nada de Natureza, portanto) projectou para uma qualquer urbanização lá ao pé de mim, achando que seria uma mais valia e afinal é só um viveiro de mosquitos no Verão e vejo, com algum espanto (espanto q.b., vá, também não TANTO assim) que na relvinha repousava um pequeno bando de gansos. Daqueles do Niels Ölgerson ou lá como se chamava o puto. Que emigram para sítios mais quentinhos porque, enfim, são animais mas não estúpidos. E eis que me ponho a pensar que, se calhar, e partindo do princípio que eles acham que ISTO é mais quentinho, não seria melhor começar a adquirir (ou a pedir emprestado, que soa melhor), aquelas coisas tipo gorro e luvas e labellos que NUNCA na minha vida usei porque já sei que depois me esqueceria em cima da mesa do primeiro café onde bebesse o meu garoto ou carioca de limão ou café pingado ou essas betices que os betos que adoram a neve bebem.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

A EVENTUAIS INTERESSADOS...

... o MELHOR do Super Bock em Stock está AQUI!

segunda-feira, novembro 30, 2009

Un jour

Um dia vou onde a neve cai e trago-a, intacta, para que a sintas na ponta dos dedos, pequeninos. Um dia vou poder segredar-te ao ouvido, para que fique entre nós, Estão a nascer-te asas nas costas para que possas voar. Um dia vou deixar de sentir borboletas no peito só porque sorriste. Um dia vou levar-te à floresta sem achar que a tua voz, entrecortando os corvos e os cucos, faz dela um lugar melhor. Um dia vou deixar de te beijar na boca. Um dia vou ter certeza de que não tens uma missão. Um dia vou sentir algo tão intenso como os teus abraços. Um dia vou deixar de achar que, a cada piscar de olhos, consigo ouvir as tuas pestanas a fazer flap. Um dia vou deixar de me rir de cada vez que te vejo de roupão. Um dia vou poder viajar sem que me apertem o coração até que o ar me falte. Um dia vou achar que tens mau hálito matinal. Um dia dir-te-ei, sem temor, que me assustava a ideia de ser pai e, agora, sinto-me maior do que os Homens. Por isso, um dia, não vou plantar uma árvore ou escrever um livro. Porque o faria?

quinta-feira, novembro 26, 2009

Suponho que haja um destes a cada década

Quando parece que o género está esgotado, sopra a suave e benfazeja brisa que abana a vulgaridade e nos faz acreditar que, afinal, o clássico Filme Boy Meets Girl é, porventura, intemporal. Tem-se, por Filme Boy Meets Girl, aquele em que, lá está, ELE conhece-A | ELE e ELA vivem momentos de felicidade que podem assumir as mais diversas formas | ELE e ELA zangam-se | ELE e ELA reatam | ELE e ELA vivem felizes para sempre OU ELE e ELA nunca mais se vêem. Entretanto, esboçam os espectadores uns sorrisos, ou riem, ou disfarçam uma lágrima. Não há, NUNCA, nada de novo. A não ser, como implícito no título deste devaneio, uma vez em cada década. Na de 60, o Dustin Hoffman batia, desesperado, às portas da igreja onde o amor da sua vida, que por acaso até era filha da gaja que lhe deu o sexo da sua vida (God Bless You Please, Mrs Robinson, pediram Paul Simon e o Cabelo-Ridículo Garfunkel, a altos berros, no Central Park), estava a ponto de se casar com outro qualquer, que até tinha menos nariz e mais 20 centímetros que o actor em questão. Em 1979, o mesmo pequenote acabava com o mito de que as mães é que cuidam dos filhos, até porque a Merryl Streep estava louca e não tinha condições para fazer do herdeirozinho Kramer um moçoilo feliz. Nos eighties, os Phsycadelic Furs fizeram a música para o intemporal Pretty In Pink e, nos 90 (em 2000, vá), o Almost Famous relembrou a uma geração que já definhava, de Grungísse, que o Amor era possível no tempo dos Led Zeppelin. Estes foram Primus Inter Pares. Porque, por outro lado, também houve o Oficial e Cavalheiro, o Shakespeare In Love, o Lagoa Azul, o Cidade dos Anjos, o Moulin Rouge, e os concorrentes na categoria de Absolutamente Ridículo Guarda-Costas e Titanic. Mas, por dEUZ, a lamechice viscosa, o mel barato de todos estes perigou o género. E cinema é como a música. Só há o bom e o mau! O que nos leva à presente década. E, até agora, digno de nota só há um. Porque a tal nota de que é digno não cabe num caderno inteiro. Porque o filme começa com um aviso aos mais incautos: This is a story of boy meets girl. The boy, Tom Hanson of Margate, New Jersey, grew up believing that he'd never truly be happy until the day he met "the one." This belief stemmed from early exposure to sad British pop music and a total misreading of the movie 'The Graduate'. The girl, Summer Finn of Chennicok, Michigan, did not share this belief. Since the disintegration of her parents' marriage, she'd only loved two things: The first was her long, dark hair. The second was how easily she could cut it off, and feel nothing. Tom meets Summer on January eighth. He knows, almost immediately, she is who he's been searching for. This IS a story of boy meets girl, but you should know upfront... This is NOT a love story.
E entra a Regina Spektor com o seu Us... o que, para muitos, poderá não ser tanto quanto é para mim! Só faltava que as primeiras palavras entre ambos fossem trocadas porque ele vai a ouvir o There Is A Light That Never Goes Out, dos The Smiths, no elevador. Pois! Ou que os habituais fragmentos de vida feliz em comum, com todas as pequenas idiotices, gestos, sorrisos e beijos, abraços e desencontros, encontros e desventuras, enlaces e frases que ditam viragens, não passassem por alguns flashbacks, um deles em que ela, num trabalho da escola, transcreve os Belle & Sebastian, no The Boy With The Arab Strap, com um avassalador Colour my life with the chaos of trouble. Até a corriqueira cena de sexo é substituída por uma Morning After em que ele, no trajecto para o trabalho, leva a cabo as mais variadas e perfeitas cenas de coreografia com a multidão, ao jeito de um musical barato. Até o seu emprego, de desenhador de postais de Aniversário e S. Valentim e Feliz Casamento e Pêsames quando, afinal, é arquitecto. Até quando ele lhe faz a tatuagem. Até eu, que sou avesso a estas pitchupitchuzisses, acho que, até agora, o 500 Years of Summer é o Filme Boy Meets Girl da década.

terça-feira, novembro 24, 2009

After All, it's Even WORSE

Ouvi hoje, pelo televisor do café, enquanto penicava um rissolito de leitão, que parece ser a grande novidade de 2009 nessa que julgávamos ser a já completa lista de Salgados à Portuguesa que, na Bélgica, esse já de si cinzento país, um homem que se pensava estar em coma há 23 anos estava, afinal, e tão somente, paralizado. Revelou, agora, faculdade de comunicar recuperada, que ficou consciente logo após o acidente automóvel que resultou em tal sina, mas incapaz de mover, sequer, um dedo (ao contrário do similar caso hitchcockiano). Ouviu tudo e de quase tudo se recorda. 23 anos de notas mentais, impossibilitado de escrever no seu moleskine. Que imagino tenham sido coisas como "O Mickael Jackson come crianças. LEMBRETE: Não fazer dele um mito depois de morto" ou "A Madonna diz que o Sean Penn lhe dá nos cornos. LEMBRETE: Haja um sacana que a trate bem, mas só para depois, aquando do divórcio, conseguir sacar-lhe 50 milhões" ou "Estalou um caso de pedofilia aqui na Bélgica, mas todos sabem que somos malucos. LEMBRETE: Isto devia ser coisa para calhar a um país de mais Brandos Costumes" ou "Estou farto de escrever anúncios em jornais para sacar gajas. LEMBRETE: Inventar uma coisa que dê para usar no meu ZX Spectrum e que não tenha que sair de casa. BOA, vou-lhe chamar HI5" ou "Olha, o Muro de Berlim caiu! LEMBRETE: Beber uma Coca Cola numa esplanada de Hohenschönhausen" ou "Acho que deixei 350 Francos Belgas nas calças de ganga elásticas. LEMBRETE: Ir ao banco trocar por €" ou "Vou apostar com a minha mãe que, não importa o tempo que eu esteja paralizado, o Sporting vai ganhar, no MÁXIMO, dois campeonatos".

segunda-feira, novembro 16, 2009

Let ME fucken BE + O início de um Potencial Romance...

Arquimedes era, aparte o invulgar nome, a que os pais se viram obrigados pela Conservatória de Registos Centrais, já que Outubrino não era permitido e Deus só o era com a preposição "de", um homem absolutamente normal. Talvez os ombros fossem um pouco mais largos que o costume, o que até lhe ficava bem, e as longas pestanas também lhe valeram alguns dissabores em novo, como ser confundido com uma menina ou, já entradote, ouvir vezes sem conta a pergunta Pintas os olhos? que ocorria sempre numa longa mesa de um jantar qualquer no preciso momento em que toda a gente tinha feito silêncio porque o bacalhau à bras daquele feito com batata palha da Titi estava a ser servido. De resto era, pois, normalinho. Bem, havia também aquele sinal no pescoço que fazia lembrar um escaravelho da batata tatuado em tons de bordeaux e o facto de vomitar quando a canja não tinha hortelã nem limão. Fora isso era aquilo a que as pessoas gostam de chamar normaleco. Ah, e era intolerante à lactose, o que lhe trazia incómodos de cada vez que queria impressionar uma miúda no restaurante, pedindo, com ar de profundo conhecedor, um queijo 100% ovelha de meia-cura com cardo da região de Serpa, a cuja ingestão se seguia um indisfarçável ataque de urticária pelo corpo todo, como se todos os mosquitos dos arrozais de Alcácer tivessem organizado uma apresentação da Bimby numa sala qualquer do seu corpo com bolachinhas da Cuétara e chá de limão sobre a mesa de apoio. À excepção de tal, era um homem comum. Embora houvesse, também, aquela incapacidade em desviar olhos de decotes, mesmo quando eram os das destinatárias das conversas, em disfarçar arrotos, em conter flatulência, em evitar fungar o muco nasal para de seguida engolir, perante os estupefactos olhares em direcção da sua maçã de Adão, como que confirmando aquilo que, há um segundo atrás, pensaram nos seguintes moldes Ele não vai fazer AQUILO, pois não?

Não havia dia em que não pensasse em tudo isto, ciente que estava dos seus próprios defeitos, incluindo um pénis diminuto e por circuncidar há mais de três décadas.

Então por que raio é que a sua vida, na forma de meandros e segredos, sem os quais a própria não existe poderia ter tanto interesse para outros?

quinta-feira, novembro 05, 2009

O Retrato-Nariz-Capote, uma saga em homenagem a Nikolai Gógol OU Conto Fantástico Para Rapazolas

Dimitri não era nem baixo nem alto nem magro nem gordo nem bonito nem feio ou, em suma, era um tiozinho* normal, à excepção do facto de ser pintor. Acordou, naquele dia, em sobressalto, olhando uma outra vez para o retrato a óleo que tinha, na véspera, comprado no mercado da ilha Vassilievski. E, para seu espanto, aquela espécie de ancião em trajes asiáticos, o retratado, continuava, como quando adormecera, arrepiado de medo e frio, fixando em si aquele olhar penetrante, que o perseguia para onde quer que seguisse, ou fugisse, que era o caso desde o minuto em que o pendurara na parede. Soergueu-se e esfregou os olhos, certificando-se de que não estaria, porventura, ainda a dormir. Mas as remelas que rolavam, por debaixo dos dedos contra as pálpebras, eram demasiado reais. Reabriu-os e não teve outro remédio que não correr para a casa de banho, a partir da qual um biombo implicitaria tão demoníaca visão. Apoiou-se no pequeno lavatório e voltou a cerrar as pálpebras, esperando que o coração, por ora feito puro-sangue em corrida de fim-de-semana, obrigasse a respiração a estugar passo. Quando o fez, porém, foi para dar de caras com a mais invulgar visão. No diminuto espelho que pendia, juntamente com a lâmina de barbear, do pequeno prego da parede, viu que algo se ausentava do seu rosto. Não lhe concedia inexpressividade e, por isso, não tinha a ver com as sobrancelhas. As suíças** lá estavam, cuidadosamente aparadas pelo barbeiro de Okhta. É então que, boquiaberto, prova irrefutável de que a boca e os lábios também ali se quedavam, se depara com a completa ausência de nariz. O seu pequeno apêndice afilado, que tantas vezes lhe valera alguns galanteios por parte de senhoras da alta sociedade moscovita, desaparecera, por completo, para nem fossas nazais ou sequer narinas restarem. Certificou-se, primeiro, de que conseguia mesmo respirar e, ao topar que o conseguia fazer pela boca, precipitou-se, com cuidado para não rever, nem de soslaio, o fantasmagórico retrato, em direcção ao seu capote***. Era urgente que saísse em busca do seu pequeno tesouro que, ali, bem no centro do rosto e, afinal, concluía agora, porque nunca o havia considerado antes, tanta falta fazia. "Mas que invulgaridade, por S. Jorge dilacerando o Dragão", pensou. Por outro lado, não poderia ser visto em público nestes tratos. Subiria, tanto pior, as golas do seu capote coçado até mais nada para além dos olhos estarem à vista. Mas, infelizmente, tal gesto apenas serviu para que outro assombro se apoderassse de si. No cabide por trás da porta de entrada do frio apartamento, havia, apenas, a total ausência da peça de indumentária pretendida, e que tanto abrigo dos gélidos ventos da Tundra, que assolam a cidade de Outubro a Março, lhe concedera. Só podia estar a sonhar. E desta vez nada tinha a ver, infelizmente, com a filha do vendedor do mercado de Chukine Dvor, reflectindo a luz do sol nos seus olhos claros, escondida por trás do tabuleiro repleto de sapatos. Julgando estar numa gravura lubok ilustrando o conto popular Miliktrissa Kirbitievna, deixou-se cair para trás, apoiando-se na parede. Tentou lembrar-se da noite anterior, se o vodka de terras finlandesas lhe entorpecera os sentidos, se o goulash da mulher do proprietário da taberna, húngara feita cozinheira com pretenções a ucraniana estaria com excesso de paprika picante, se sentira frio no regresso a casa, sinal de que o agasalho ainda lá estaria, caído sobre a mesa. É então que ouve três fortes pancadas na porta. Só poderia ser Nikita, o miúdo que lhe tratava, esporadicamente, das limpezas do estúdio e que ele observava, de sorriso divertido, a cada tentativa de arrumação de restos de telas, molduras por montar, estudos em papel, pincéis, óleos e terebintina. "Quem é?", perguntou, enfiando o roupão. "Sou eu, patrão. Nikita!", respondeu a pueril voz. Dimitri roda a chave exclamando "Mas, tiozinho, não é dia de varridelas" e abriu a porta para ver que, do penúltimo degrau, a criança lhe esticava o seu vestimado agasalho. Nikita, esse, não conseguia disfarçar o espanto, apontando o olhar bem para o centro da cara do amo. Muito baixinho, exclamou, depois de pigarrear "E acho que, no bolso esquerdo, encontrará algo que lhe pertence..."!

* "Tiozinho" era, na Rússia do Séc. XIX e, principalmente, em S. Petersburgo, a forma mais popular de tratamento numa conversação.

** Na Rússia, as patilhas e, principalmente, as suíças, eram consideradas sinal de elevado estatuto social.

*** Peça de roupa essencial contra o frio de S. Petersburgo.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Efeméride n.º 7

Passou por mim o fenómeno da rádio-pirata como aquelas rabanadas de vento que nem despenteiam. Até porque, in those days, era o gel. E a grande sensação desse tal universo, que levava grupos de malta para dentro dos carros dos pais em busca desenfreada, à mão, claro, dos últimos hits era, à semelhança do que ouvia eu da boca dos miúdos mais velhos lá da rua, enquanto vibrava com o meu Citröen CX Pallas da Majorette (os carrinhos da Matchbox não tinham suspensão), a Rádio Cidade. E essa, conclui-se hoje, devia ter sido logo extinta, responsável que foi por uma cultura musical portuguesa ao nível dos valores obtidos em testes de astrofísica num bando de avestruzes do Kalahari. Passei, assim, muito bem sem a rádio, os Rapazes Selvagens dos Duran Duran, a outra que, razões explicadas na sequência inicial do Cães Danados, sentia-se Como Uma Virgem, o Billy Jean do Qual é Coisa Qual é Ela Que Antes de Morrer Já o Estava, a Contagem Final do Franjinhas Maquilhado e qualquer coisa que a Trina Trana cantasse. Tinha, na única prateleira do meu quarto que NUNCA apanhava pó, herança da falida bôite Tropical em Santana, Sesimbra, propriedade de um amigo do meu pai, os vinis do Boy, War e Joshua Tree (mais precisamente, A Árvore de Joshua, com as letras d'As Mães dos Desaparecidos e do Onde as Ruas Não Têm Nome traduzidas), o Cairo dos Taxi na sua lata, um qualquer dos Talking Heads de cujo nome não me recordo, a colecção dos Pink Floyd até ao Momentary Lapse Of Reason, exclusivé, o I e o II dos Led Zeppelin, o Yellow Brick Road e o Ziggy Stardust and The Spiders From Mars, The Velvet Underground & Nico e o Transformer do Lou Reed com um desconcertante risco no Satellite of Love, o que me impediu de perder a virgindade ao som do mesmo, projecto que assumi com uma competência rara. Chegavam-me todos estes. Contando, claro, com os outros que me emprestavam, porque a cassete virgem BASF Chrome 90 minutos, que dava para um álbum de cada lado, estava sempre reservada para o que desse e viesse e os lápis-de-cor ao lado para uma capa de minha autoria. O valor deste produto era, contudo, de tal forma proibitivo que eu era, então, ainda mais selectivo do que sou hoje. Como desperdiçar tal objecto com A-Ha ou Kim Wilde quando, pouco depois, alguém de lábios carnudos, seios generosos, sempre vestida de preto e com sapatos Doc Martens e Ana Salazar, me empresta Cure e Bauhaus? Os The Smiths, esses, tiveram direito à reverência que incluía uma viagem, ao sábado de manhã, à Discoteca Roma com o Sr. Zé Dias a dar-me o equivalente ao total de lavagens do seu sempre brilhante Opel Corsa TR, porque não havia dinheiro para o GL. Nessa altura, era o Meat Is Murder que estava na montra. E ainda consegui, sacrificando o cerimonial pastel-de-massa-tenra do Frutalmeidas, que o dinheiro esticasse para o The Queen Is Dead, lá no meio da letra "S". Isso não é música de maricas? perguntava Zé dIAZ com um olhar preocupado, aconselhando, em vez daquilo, O outro daquele ceguinho que está sempre a dar na televisão, ao que eu respondia, de peito cheio, É música futurista, pai. Um ano depois, passou a chamar-se-lhe "Vanguarda" e incluía, também, os Depeche Mode e o Billy Idol (estroinice que continua, ainda, por explicar). Vivi assim, sem rádio, e assado, com calças elásticas a afligir erecções durante os slows dos Scorpions, banda de aliens que, com os Dire Straits e o Bruce Springsteen, estavam tão longe de mim como Marte. Até que um dia surgiu, mais ou menos ali em 91.6, a XFM, que não tinha publicidade e, logo, PUFF e depois a Voxx, que não tinha publicidade e logo BANFF e depois a Radar que não tinha publicidade e agora até METE NOJO e, no meio de todas estas descobertas, que incluíam um Hé pá, isto afinal a rádio tem uma ou outra coisa que até sim senhor descobri, não uma estação, mas uma voz que a determinada hora em determinados dias da semana nesta ou noutra estação escolhia, poucas vezes mal, pérolas que distribuía a porcos habituados a Beyoncés e Black Eyed Peas. António Sérgio abria a cabeça a quem abria o cu ao estrume que as rádios portuguesas debitam com a mesma irresponsabilidade com que uma professora de português diz aos seus alunos para lerem Margarida Rebelo Pinto, ou de um Padre que incute no rebanho o preconceito para com os muçulmanos. Eu, que nunca quis saber onde é que o Malato foi feliz porque era óbvio que isso incluía as Bandas Sonoras que escolhe para os seus programas, fiquei inúmeras vezes dentro do carro, em vez de entrar em casa, porque A Hora do Lobo ou o Viriato 25 já tinham começado e... podia, efectivamente, perder algo de Muito Bom, que era o que nos dava António Sérgio. E eu achava que ali, a gastar bateria e a aquecer os pulmões a fumo de Chesterfields ou Bula Fields DOP, a voz do Homem ficava bem antes da do Stuart Staples, depois da do Tom Barman, anunciando o novo dos Fleet Foxes, recordando o Trent Reznour dos bons tempos... e nós, que gostávamos tanto da sua companhia, com a chuva a bater contra as vidraças do carro, que ficava bem com This Mortal Coil ou Red House Painters, nunca pensámos que, no dia em que o António Sérgio morresse, a rádio portuguesa agonizaria. E, hoje à noite, serão menos os que sintonizarão a Radar. Porque, efectivamente, e doa a quem doer, vale bem menos a pena...