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terça-feira, novembro 24, 2009
After All, it's Even WORSE
Ouvi hoje, pelo televisor do café, enquanto penicava um rissolito de leitão, que parece ser a grande novidade de 2009 nessa que julgávamos ser a já completa lista de Salgados à Portuguesa que, na Bélgica, esse já de si cinzento país, um homem que se pensava estar em coma há 23 anos estava, afinal, e tão somente, paralizado. Revelou, agora, faculdade de comunicar recuperada, que ficou consciente logo após o acidente automóvel que resultou em tal sina, mas incapaz de mover, sequer, um dedo (ao contrário do similar caso hitchcockiano). Ouviu tudo e de quase tudo se recorda. 23 anos de notas mentais, impossibilitado de escrever no seu moleskine. Que imagino tenham sido coisas como "O Mickael Jackson come crianças. LEMBRETE: Não fazer dele um mito depois de morto" ou "A Madonna diz que o Sean Penn lhe dá nos cornos. LEMBRETE: Haja um sacana que a trate bem, mas só para depois, aquando do divórcio, conseguir sacar-lhe 50 milhões" ou "Estalou um caso de pedofilia aqui na Bélgica, mas todos sabem que somos malucos. LEMBRETE: Isto devia ser coisa para calhar a um país de mais Brandos Costumes" ou "Estou farto de escrever anúncios em jornais para sacar gajas. LEMBRETE: Inventar uma coisa que dê para usar no meu ZX Spectrum e que não tenha que sair de casa. BOA, vou-lhe chamar HI5" ou "Olha, o Muro de Berlim caiu! LEMBRETE: Beber uma Coca Cola numa esplanada de Hohenschönhausen" ou "Acho que deixei 350 Francos Belgas nas calças de ganga elásticas. LEMBRETE: Ir ao banco trocar por €" ou "Vou apostar com a minha mãe que, não importa o tempo que eu esteja paralizado, o Sporting vai ganhar, no MÁXIMO, dois campeonatos".
segunda-feira, agosto 17, 2009
I HAD A DREAM
Uma semana sem tomar banho, duas sem fazer a barba, um pouco de massa consistente nos cantos internos de cada olho a lembrar remelas, um pouco de pasta dos dentes aos cantos da boca para parecer raiva ou esgana, uma dose de chocos-com-tinta sem lavar os dentes, um quilo de frutos silvestres esmagados com as mãos e espalhados até aos ante-braços e pelo pescoço, dois cagalhões de cão propositadamente pisados e repisados, a baínha das calças desfeita para que se meta por baixo dos calcanhares, braguilha aberta, tshirt com queimaduras de cigarros. Entro no AKI. Uma marreta, um serrote e uma embalagem de 20 sacos pretos de 50 litros.
Na caixa, a empregada, num estado de pânico enojado, pergunta-me, gaguejante, Para que é a marreta?
Eu fito-a durante largos segundos antes de responder, na minha mais cavernosa voz Não sabes que é pelos dentes que se reconhecem os cadáveres?
Na caixa, a empregada, num estado de pânico enojado, pergunta-me, gaguejante, Para que é a marreta?
Eu fito-a durante largos segundos antes de responder, na minha mais cavernosa voz Não sabes que é pelos dentes que se reconhecem os cadáveres?
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