É com mágoa que tomo a decisão.
Com pesar, desgosto e muitos, muitos remorsos que, desconfio, prosseguirão no tempo.
Sempre tive a Super Bock como cerveja de gaja!
Doce, leve, quase sem gás quando se bebe da garrafa, intragável quando é de lata.
À Sagres conhecia-a desde as fotos da Guerra da Guiné do meu pai, dos piqueniques na Lagoa de Albufeira, das prateleiras das tascas onde, pela mão do meu avô Chico Padeiro, mendigava uma sombrinha da Regina.
Travei, com ela, anos mais tarde, um conhecimento mais próximo. As primeiras bezanas e o desconhecimento de como lidar com elas, com aquele chão que fugia, com os ombros onde tinha de me apoiar.
Àquela garrafa, nesse tempo ainda bojuda, confessei paixões e segredos, pacientemente, até que as gotículas empolassem o rótulo e esse descolasse, elegantemente, do vidro castanho.
Aquele sabor, ligeiramente amargo, era viril, refrescante mas também alimentício. Deu-me de comer em tempo de fomes de espírito.
Um dia, ainda novito, fui ao Porto.
Pedi Sagres em inúmeros cafés.
Nada!
Apenas olhares desconfiados.
Então quero uma mini.
Suó Creistále!
Ou seja... o que para mim era uma gorda garrafa de 33cl unindo Portugal era, afinal, brazão sulista de quem os fiéis consumidores de Super Bock queriam independência, nem que fosse económica.
Uma tasca de porta debruada a anil em parede caiada, ao lado da qual um pequeno degrau acolhe uma série de gente, sentada, de bóina e samarra, olhando o montado defronte, de Sagres na mão?
Marruócos!
Caracóis e Sagres?
Com meil frauncesinhas!!!
Decidi, então, que não tocaria numa Super Bock. Só em caso de vida ou morte! E assim andei, ideologicamente satisfeito, até hoje:
O suplemento de economia do Público faz contas... o único accionista da Central de Cervejas, que produz e distribui a Sagres, é a Heineken. Empregam 1000 trabalhadores.
A Unicer, de onde sai a Super Bock, emprega o dobro dos portugueses e apenas 44% dos lucros sai do país para a Carlsberg. Os restantes 56% das acções pertencem à Viacer (Violas, Arsopi e BPI)...
Em tempos de crise, são as pequenas iniciativas individuais que garantem a viabilidade de alguns empregos. E é por isso que beberei, a partir de agora, Super Bock, com esporádicas traições (só uns beijinhos) numa ou noutra mini.
Mas choro!