Ficou-me, de um outro tempo, esta coisa do Sábado de manhã. Hoje, vou ao mercado com Mariachito, desejando, veladamente, ter uma vida que me permitisse fazê-lo diariamente. Ontem, que era o tal outro tempo, ia, de bicicleta, buscar leite à vacaria e pão a um forno a sério numa vivenda que ficava mesmo ao lado da Bruxa, cujos clientes assustávamos, a altas horas da noite, agarrando-lhes os pés naquele espacinho por baixo da chapa da paragem de autocarros onde aguardavam o 23 das 00h20. Entre aquela e a minha casa, uma floresta de pinheiro manso, que fazia de volta, o mais rápido que pudesse, sem parar na Casa da Árvore, para ainda ver a manteiga derreter sobre a primeira fatia de casqueiro. Mas isto era, não sei se já o referi, ao Sábado. E só de manhã. O quotidiano de todos os outros dias era igualmente campónio. Difícil de acreditar hoje, olhando para os mesmos sítios. O olival onde os gaios nidificavam, a floresta de sobreiros, as quintas de dadivosos pomares guardados por perdigueiros de nariz rachado, os exactos sítios onde havia tocas de ouriço, de lagarto e de coelho, ou ninhos de melro, de pintassilgo e de rabiruivo.
É claro que, mesmo para uma criança como eu, muito deste lugar, Cerieira, Sobreda de Caparica, estava nas gentes. E está.
No pastor que, com o seu rebanho, guiado por um enérgico podengo, passava, diariamente, pela minha rua e, pois, ao Sábado de manhã, entregava oito queijos frescos às sábias mãos da minha mãe, que já haviam feito o doce de tomate que casava, por amor, com aqueles.
No louco que o ficou por uma mulher e, sorte malvada e mais que muita, acabou com um couto no lugar do braço porque o burro o arrancou. Ainda hoje se passeia, sempre à pressa, a falarejar sozinho, pelos mesmos trajectos.
No velhote que nunca foi visto sem o seu rafeiro. Quando aquele morreu, este durou uma semana, se tanto. Deixou-se ir, de desgosto canino, que eu pensava, até ali, não ser igual ao nosso.
Na Ti Helena que me recebia sempre de braços abertos, num deles um saco de damascos e figos, noutro uma cesta de ovos, os mesmos braços onde morreu, disse-mo tantas vezes, Catarina Eufémia, numa carregada pronúncia que trouxera das searas de Baleizão para aqui.
Na casa em frente ainda hoje se vende gás. Do lado de fora do muro, à sombra de um frondoso diospireiro, uma fila de botijas amarelas, presas por uma corrente, remete esta terra para um tempo que já não é. E era sempre eu que ia, com um meio de transporte engenhosamente inventado pelo melhor marceneiro do mundo, o meu tio Tói, e que fazia a inveja de outros clientes que usavam um vulgar carro-de-mão, buscar o gás dos meus pais. Entrava, à direita sempre o mesmo rafeiro, à esquerda o poço e alguns canteiros de imprescindíveis aromas sulistas. Recebia-me sempre a mesma simpatia de Hermínia e o largo sorriso e suave aceno de Ti Graça. Ti Hermínia saía de casa ainda a mastigar porque, a maior parte das vezes, eu interrompia a bucha (vá-se lá saber porquê, o gás acabava sempre à hora de almoço). Das últimas vezes, entregava-me só a chave, incapaz de maiores esforços e exclamando Estes olhos já nã sã de fiári. Nunca, de fedelho a hoje, em qualquer circustância ou por razão alguma recebi outra coisa daquela gente que não fossem sorrisos, beijinhos e saudações efusivas. Mudei de morada e, a cada retorno, esse passado feito presente. Sempre. Ah, é o mê Nuno da Natália! Ti Graça, esse, era o maior. Digo-o porque era um daqueles velhotes com os quais é impossível antipatizar. A não ser, claro, que se seja um grande estafermo! Sempre na sua pasteleira Esmaltina impecavelmente estimada (porque era, de facto, o seu meio de transporte), molas da roupa por fora da baínha das calças de fazenda, impedindo-as de chegar ao óleo da corrente, samarra e chapéu preto tipicamente alentejano, os olhos esfumados dos muitos anos e a surdez, sempre presente desde que o conheci, Ti Graça tinha o sorriso de quem não deve nem teme, o aceno de uma educação de outros tempos, a candura de quem trocou um campo mais longínquo por outro aqui ao lado. Lembro-me de quase tudo o que conversei com ele, eu quase a gritar, ele sempre a ouvir, descascando um pêro com a navalhinha umas vezes, outras apenas descendo do selim da bicicleta. Lembro-me de quase todos os sítios onde me cruzei com ele, de menino a homem feito, sempre o aceno pronto, sempre o sorriso. Lembro-me de ter pensado, um dia, se tanta humildade transparecida poderia deixar que alguém exclamasse, um dia, Que Grande Homem Que Foi. Eu faria-o, sem problema, só por ver tanto Alentejo num só corpo, que só a idade começou a vergar. Essa altivez que ninguém precisa de apregoar. Vê-se. Lembro-me do seu rosto e da placidez do mesmo, o que, assumo, me é difícil com outros. Mas difícil, mesmo, é imaginar a rua transversal à dos meus pais, ou mesmo toda a Cerieira, sem ele. Para mim, ti Graça não representava apenas um lugar. Era, todo ele, um outro tempo. Bem melhor. Mas que já não volta. Ti Graça morreu ontem. E Que Grande Homem Que Foi!
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sábado, agosto 21, 2010
quinta-feira, agosto 28, 2008
Road Trip Troughout México / Viagem de Carro pelo Baixo Alentejo
Eu, Mariachi de meu nome, que nunca na vida fui ao México, sinto-me numa Road Trip...
Tijuana - BAJA CALIFORNIA
Magdalena, Hermosillo, Rosario, Navajoa - DESIERTO DE SONORA
Hidalgo del Parral, San Francisco del Oro, Jimenez - CHIHUAHUA
ZACATECAS
SAN LUÍS POTOSÍ
Guadalajara - JALISCO
Querétaro, Zumpango, Tlalnepantla, Coacalco - CIUDAD DE MÉXICO
Izúcar de Matamoros - PUEBLA
Ciudad Ixtepec - OAXACA
Villahermosa - TABASCO
Tuxtla - CHIAPAS
... de cada vez que percorro as estradas do Baixo Alentejo.
Isto não tem, saiba-se, NADA de depreciativo.
É, precisamente, o inverso.
Nos FILMES AMARICANOS, uma incursão ao México é sempre algo do piorio.
Um mal necessário, que se leva a cabo com pesar, de semblante carregado e pose combalida.
O México é onde se vai buscar raptados, onde o Sean Penn vai matar o Benicio del Toro, onde a cabra da criada do Bradd Pitt vai ao casamento do filho e leva-lhe os filhos tão loirinhos e caucasianos, onde os grandes bandidos se abrigam da mui eficiente polícia norte-americana (cuidado com as confusões, porque o México também é América do Norte e, já agora, porque não, também, o Canadá).
O que é que de bom sai do México? NADA! Pior ainda, só queles Mano Negras malvados que morrem que nem tordos ao tentar passar a fronteira. Um horror!
Esquecem-se os gringos e os que sofreram a sua lavagem cerebral que esse imenso território que separa dois continentes tem, dentro das suas fronteiras, cinco ou seis países diferentes. Tem as cores da Frida, o salero das caraíbas, altiplanos, desiertos, cordilleras, dois oceanos, a poesia das gentes e gentes com poesia nos olhos.
O Baixo Alentejo é o meu Desierto de Sonora. Que as azinheiras não sejam saguarus, que os javalis não sejam chacais, que uma açorda não seja guacamole, pouco me importa.
É aquele pó, aquele calor que não permite mover uma palha, aquela pronúncia que acompanha, sempre, gestos mais lânguidos, aquelas noites de virilhas suadas, de um silêncio que quase permite ouvir os passinhos das osgas debaixo dos candeeiros.
O Baixo Alentejo é, todo ele, cheiro a esteva. E é, mais que tudo, apenas um ponto de passagem dos bandidos de Lisboa a caminho do Algarve, a nossa Acapulco!
Foi o Celeiro de Portugal
Agora é só meu à minha maneira.
E sei que ainda caberá na minha mão.
O que me faz andar mais alegre!
Tijuana - BAJA CALIFORNIA
Magdalena, Hermosillo, Rosario, Navajoa - DESIERTO DE SONORA
Hidalgo del Parral, San Francisco del Oro, Jimenez - CHIHUAHUA
ZACATECAS
SAN LUÍS POTOSÍ
Guadalajara - JALISCO
Querétaro, Zumpango, Tlalnepantla, Coacalco - CIUDAD DE MÉXICO
Izúcar de Matamoros - PUEBLA
Ciudad Ixtepec - OAXACA
Villahermosa - TABASCO
Tuxtla - CHIAPAS
... de cada vez que percorro as estradas do Baixo Alentejo.
Isto não tem, saiba-se, NADA de depreciativo.
É, precisamente, o inverso.
Nos FILMES AMARICANOS, uma incursão ao México é sempre algo do piorio.
Um mal necessário, que se leva a cabo com pesar, de semblante carregado e pose combalida.
O México é onde se vai buscar raptados, onde o Sean Penn vai matar o Benicio del Toro, onde a cabra da criada do Bradd Pitt vai ao casamento do filho e leva-lhe os filhos tão loirinhos e caucasianos, onde os grandes bandidos se abrigam da mui eficiente polícia norte-americana (cuidado com as confusões, porque o México também é América do Norte e, já agora, porque não, também, o Canadá).
O que é que de bom sai do México? NADA! Pior ainda, só queles Mano Negras malvados que morrem que nem tordos ao tentar passar a fronteira. Um horror!
Esquecem-se os gringos e os que sofreram a sua lavagem cerebral que esse imenso território que separa dois continentes tem, dentro das suas fronteiras, cinco ou seis países diferentes. Tem as cores da Frida, o salero das caraíbas, altiplanos, desiertos, cordilleras, dois oceanos, a poesia das gentes e gentes com poesia nos olhos.
O Baixo Alentejo é o meu Desierto de Sonora. Que as azinheiras não sejam saguarus, que os javalis não sejam chacais, que uma açorda não seja guacamole, pouco me importa.
É aquele pó, aquele calor que não permite mover uma palha, aquela pronúncia que acompanha, sempre, gestos mais lânguidos, aquelas noites de virilhas suadas, de um silêncio que quase permite ouvir os passinhos das osgas debaixo dos candeeiros.
O Baixo Alentejo é, todo ele, cheiro a esteva. E é, mais que tudo, apenas um ponto de passagem dos bandidos de Lisboa a caminho do Algarve, a nossa Acapulco!
Foi o Celeiro de Portugal
Agora é só meu à minha maneira.
E sei que ainda caberá na minha mão.
O que me faz andar mais alegre!
quinta-feira, julho 31, 2008
Seven Years Ago
Haviam passado 21 dias sobre o 11 de Setembro.
A paranóia que, entretanto, sete anos volvidos, amansou à excepção de Heathrow, era mais que muita.
Houve gente que desmarcou voos, adiou férias, viagens de negócio, trinta por uma linha fininha.
Eu não.
Estava de Lua de Mel, cuabréca!
O único transtorno que o 11 de Setembro me causou tomou forma naquele segurança do aeroporto de Atenas, que imortalizei como John Rambo. Passo a explicar:
Estive em Atenas, Creta e Santorini. Como não havia voos directos de uma ilha para a outra, via-me forçado a tornar à capital para ligações. John Rambo era OMNIPRESENTE no Security Check e gritava sempre na minha direcção, de mão esticada e indicador encaracolado, falanje para cá e para lá You! Come here!, nem um please, o animal!
Confesso que, da primeira vez, temi pela minha integridade física. Afinal, podia ser um daqueles sodomitas não-circuncidados que aparecem pintados nos vasos e pratos que se vendem à entrada do Parténon e das ruínas do rei Minos (não, o labirinto do Minotauro não está lá). Afinal, provou ser apenas um gajo que assumia ali o poder e a virilidade que lhe faltava noutro lado qualquer. Assim tipo os tunnings. E os toureiros.
Bem, o que interessa reter é que apanhei-o de TODAS as vezes (4 check-in's) e já nem ligava. Tipo moscas. Antes da sardinhada, chateiam. Depois, até parece que desapareceram. Mas estão lá.
Ou seja... é preciso acontecer algo mau para que ocorra algo bom.
Assim como foi preciso arrasar dois prédios para que NY fosse invadida por uma onda de solidariedade onde, uns dias antes, uma velha podia cair nas escadas do subway sem que NINGUÉM lhe desse a mão, eu tive de levar com aquele porco que ainda não sabia se, àquela data, tinha um pénis ou uma hipertrofia clitoriana, para poder andar de mota, sem capacete, pelas estraditas de Santorini, ao imaginário som desta e desta.
A paranóia que, entretanto, sete anos volvidos, amansou à excepção de Heathrow, era mais que muita.
Houve gente que desmarcou voos, adiou férias, viagens de negócio, trinta por uma linha fininha.
Eu não.
Estava de Lua de Mel, cuabréca!
O único transtorno que o 11 de Setembro me causou tomou forma naquele segurança do aeroporto de Atenas, que imortalizei como John Rambo. Passo a explicar:
Estive em Atenas, Creta e Santorini. Como não havia voos directos de uma ilha para a outra, via-me forçado a tornar à capital para ligações. John Rambo era OMNIPRESENTE no Security Check e gritava sempre na minha direcção, de mão esticada e indicador encaracolado, falanje para cá e para lá You! Come here!, nem um please, o animal!
Confesso que, da primeira vez, temi pela minha integridade física. Afinal, podia ser um daqueles sodomitas não-circuncidados que aparecem pintados nos vasos e pratos que se vendem à entrada do Parténon e das ruínas do rei Minos (não, o labirinto do Minotauro não está lá). Afinal, provou ser apenas um gajo que assumia ali o poder e a virilidade que lhe faltava noutro lado qualquer. Assim tipo os tunnings. E os toureiros.
Bem, o que interessa reter é que apanhei-o de TODAS as vezes (4 check-in's) e já nem ligava. Tipo moscas. Antes da sardinhada, chateiam. Depois, até parece que desapareceram. Mas estão lá.
Ou seja... é preciso acontecer algo mau para que ocorra algo bom.
Assim como foi preciso arrasar dois prédios para que NY fosse invadida por uma onda de solidariedade onde, uns dias antes, uma velha podia cair nas escadas do subway sem que NINGUÉM lhe desse a mão, eu tive de levar com aquele porco que ainda não sabia se, àquela data, tinha um pénis ou uma hipertrofia clitoriana, para poder andar de mota, sem capacete, pelas estraditas de Santorini, ao imaginário som desta e desta.
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