"Ó pai ó pai ó pai, bola-rua, pâxinho, biquiqueta-pai" são as suas primeiras palavras TODOS os Sabats, segurado às grades da cama e, geralmente, com o cabelo tipo Morangos com Açúcar mas apenas engraçado e não ridículo. Uma espécie de leque de opções que deixa à minha escolha. Opto pelo "pâxinho, biquiqueta-pai", que quer dizer "Vamos de bicicleta à praça da Charneca comprar o peixe para o almoço". Fomos. Ele, sentado na sua cadeirinha, de capacete iguáli ó du pai, é a minha espécie de auto-rádio sintonizado na TSF. Não se cala e descreve-me todas as cores dos carros que passam, se é um pópó gandi (autocarros), pinóni du popó (reboques), pinóni du dóidói (ambulâncias) ou tantos outros que ele aprende em sete dias, não sei onde, isto é, aos dois anos freshly made, já tenho que estar alerta com as companhias.
A Ti Odete, caparicana do tempo em que a Costa se chamava Terra de Pescado, era dividida pela rua dos Pescadores que separava (simpatias, também) a malta de Ílhavo (Norte) e do Algarve (Sul), recomendada para males de reumático e acessível apenas por uma carreira de manhã, com saída da Trafaria, ou pelos burricos a partir de Cacilhas, ouve-o chamá-la e prepara, logo, um gordo chicharro. Nunca me leva dinheiro por ele. E enquanto o filho (dela) esvazia o meu avio das suas entranhas (as dos peixes), leva Mariachito ao colo e ensina-lhe os nomes dos exemplares na banca. Isto causa-me problemas porque, em vilas piscatórias, jaquinzinho é pelim e petinga é choquilha. Se, mais tarde, os Lisboetas que costumam ir jantar a minha casa perguntarem: "Atão, dIAZINHO, o que é que estás a comer?" e ele responder algo como plim, acham que o miúdo é atrasado mental. Não! Vive é junto ao Mar.
E por falar nele (no Mar), segue-se, obviamente, a ida à praia. De bicicleta, claro, que eu não ando a pagar a Contribuição Autárquica, que paga a manutenção da QUALIDADE do areal, para depois não ter acesso a um lugar no parque porque há quem fale do Pesadelo da Ponte e seja o primeiro a entupi-la ao fim-de-semana.
Não consigo deixar de me rir (no mínimo, sorrir), a ver uma coisinha a correr, de sunga com ibiscus, de balde na mão. O balde não é para nada que seria de esperar de um balde. É, apenas, para andar na mão enquanto corre, corre, corre. O orgulho de pai é um lugar estranho. Passo uma vez o pé pelo limite da maré e vejo aparecer 3 cadelinhas (conquilhas, no Algarve). Decido enveredar pelo trabalho infantil e meto o meu pequeno escravo a depositá-las no seu balde. Ao jantar do dia seguinte há, então, arroz de bivalves a acompanhar o pampo, esse nobre exemplar tão desconhecido de quem acha que, ao comer salmão, douradas e robalos de viveiro, está a comer peixe.
Mariachito, esse, janta na praia, porque de pequenino se torce o pepino que é o feeling margem-sul, os paizinhos uma caracolada no Central, a mãezinha descobre, pelo à-vontade com que o puto segura o cacóli e o puxa para fora da casca com os dentes, que esta não é a primeira vez que se senta à mesa do café com o mesmo propósito. Acho que não devia. Mas isto é coisa de homens e coisas de homens não estão sujeitas a regras tão rígidas.
Como quando lhe canto o Eu Tenho Um Melro, da Deolinda, em vez do Olha a Bola Manel ou O Pretinho Barnabé.
E, aos dois anos, Mariachito já sabe que um melro é um passarinho que não faz a barba, não faz a cama, descuida o ninho, mas canta o Fado como ninguém...