quarta-feira, setembro 07, 2005

Agora isto...

Não ocorre muitas vezes
mas as vezes que sim
gosto de ver as expressões
de quem passa por mim

Esta está ensonada
Aquele ausente
desejando que a outra
estivesse presente

Este aqui é carrancudo
Esta inexpressiva
semblante habitual
de quem nada deve à vida

E aquela, de sorriso nos lábios?
O que estará a recordar?
lutando contra a vontade
de começar a chorar?

Talvez sim, quem saberá...
aquele ao menos faz
com que as lágrimas que traz
caiam depois de chegar lá

ao destino, um lugar obscuro
o emprego, uma casa qualquer
temer o que para além do muro
pode esconder

Esta ali é pedante!
Vê-se, ainda que os óculos
escondam os olhos azuis
lindos, mas inóquos!

Que isto do amor de uns pelos outros
tatua-se em cada ruga dos rostos!
Inexorável luta contra o tempo
passem por mim ou outro qualquer
que se querem mesmo aprender
eu ensino: somos todos loucos!
A saber!

terça-feira, setembro 06, 2005

Carruagem 2 da Fertagus, entre Corroios e Pragal, 6 de Setembro de 2005

Arrepio do corpo
o cheiro que se desprende
esse doce odor a um qualquer detergente
envolto nesse calor
que de tanto tempo ausente
explode agora em luz que não se vê
mas sente!

Não pensar em mais nada
não querer mais nada
não poder mais nada
que aquela tez
junto a mim, onde a possa tocar,
sentir,
ter
uma última vez
Tudo isto é mais que tudo
que é nada
existência despojada e de doce embriaguez

Estar bêbedo de desejo
almejar o teu ensejo
de por um minuto
ser feliz
É também o que quero
e ao querê-lo
já o sinto
o sabor desse teu corpo
com aroma de anis.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Encantatoria

Custa é saber
com se invoca o ser
que assiste à escrita,
como se afina a má-
quina que a dita,
como no cárcere
nu se evita,
emparedado, a lá-
grima soltar.

Custa é saber
como se emenda morte,
ou se a desvia,
como a tecla certa arreda
do branco suporte
a porcaria.

Luiza Neto Jorge, in "A Lume"

O Zorze fez aninhos!

Tirando a chamussa coberta de chutney de manga, "ritual de lo habitual", não dei pelo teu aniversário. Aborrecido comigo mesmo e não tanto com quem até podia ter aproveitado a demora na MS para um jantar em família, entrei no Avante com a certeza de que iria direitinho à representação do país que te acarinhou durante 15 dias. Dois ou três "Viejo Feo" depois, já inebriado pela densidade da uvinha Merlot queixosa de latitudes que lhe não pertencem, ou vice versa, pedi ao "pendejo" do Ícaro tatuado no braço um cd do Victor Jara. Não tinha. Senti eu mesmo que se me esmagavam as falanges com a coronha da espingarda, malditos lacaios do Pinochet. A não ter um presente destes, mais valia brindar à tua. E era bom, o Pisco!

sexta-feira, setembro 02, 2005

Wanted

Depois de mais um acesso de nostalgia com Zezalíde, esse magano, eis que surge o seguinte apelo:
Dá-se alvíssaras a quem encontrar o puto (hoje será trintão) que propagou o mito urbano responsável pelo pânico que se instalou nas escolas primárias do país em relação ao leite achocolatado distribuído gratuitamente (recordam-se? Horrível, não era?)... quem é que se vai lembrar de inventar que os pacotes com bolinha vermelha no fundo (a mira gráfica para o corte) significava que o leite estava azedo?

quarta-feira, agosto 31, 2005

As Leis do Karma

Se há quem descure, por opção própria ou mera ignorância, a sabedoria popular, o que dizer do singelo ditado "quem semeia ventos colhe tempestades" ao observar os efeitos do furacão Katrina nos E.U.A.?
E que tal "Deus escreve direito por linhas tortas"?
Quiçá "Se tens telhados de vidro não atires pedras aos do vizinho".
Ou mesmo "Não cuspas para o ar que te pode cair em cima"...
Se estas frases, por serem da autoria de pastores, lavradores, rendeiras de bilros ou mesmo donas de casa são "uncool" qb, podem sempre adquirir um livro qualquer que fale das leis do karma, pelas edições Pergaminho, disponível num posto de abastecimento perto de si!

terça-feira, agosto 30, 2005

O Grande Embuste

Até a peça de teatro vi, com todo o gozo e júbilo a que me obrigava o amor que nutria por aquilo que para mim não era um livro. "História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar" era um objecto de culto. Não mais que "O Velho Que Lia Romances de Amor", não menos que "Patagónia Express". Havia em tudo aquilo o mesmo sangue quente que confere à literatura dos países latinos e/ou africanos aquela tepidez que em latitudes mais cimeiras não se atinge. Ficam-se abaixo. O Equador é, na literatura, o traço vermelho que indica os 0ºC no termómetro! O Marquez, o João Ubaldo Ribeiro e mesmo o Buarque, com o seu "Estorvo", estão acima da linha. Hemingway, Capote, Kafka, estão lá, mais ou menos nos -10ºC. Bons, mas demasiado desprendidos daquela humanismo que desmascara os Homens. E isto só uma buganvília contra um muro branco permite. Pano de fundo: um mar azul... e não o cinza do Báltico.
Sepúlveda passou-me, durante anos, a mão na face. As causas perdidas eram também as minhas. Até que, um dia, numa sessão de autógrafos no El Corte Inglés, os ideais que julgava partilhados, ali, por quem tanto escreveu sobre o Greenpeace, levaram-me a dizer-lhe, olhos nos olhos que, "Sr. Luís Sepúlveda, está a travar conhecimento com um dos seus públicos mais fiéis num dos únicos dois estabelecimentos lisboetas que vendem, impunemente, peles de animais"! Ele olhou para mim com a mesma antipatia com que o fizera para todos os que já haviam solicitado autógrafos e eu tirei-lhe das mãos, a tempo de não ser conspurcado, o "Nome de Toureiro".

segunda-feira, agosto 29, 2005

Ilha das Flores, 19 Maio 2005

Um dia na vida
Aquela que se quer
plena, intensa, bem vivida
nunca se poderá ter

sem um ocaso no Pico
um beijo na pombinha
um copo de angelica
ah... e que cabeça a minha
um abraço forte
desse lavrador honesto
mas com ar de maltês

que relembra essa benção:
Ser Pequeno Grande Homem,
semear o que outros comem,

Ser português

terça-feira, agosto 23, 2005

Tenho Um Segredo...

...que é uma Jacarandá.
Não é nenhuma das do Largo do Carmo, mortas de desprezo por todos os que ali passam ignorando o perfume a outros tempos, quando o Convento das Carmelitas era bem mais que uma ruína avistada do Rossio.
Não é nenhuma das do jardim de Santos, enfezadas da dor de não conceder sombra a ninguém.
Não é nenhuma à Estrela, à sombra de outras tantas de tantas outras espécies.
Não é nenhuma das que se têm como nada de especial, porque cada vez mais os homens olham para estas como algo inerte, ignorando que podem ser altivas, tristes, frondosas, alegres, malditas, abençoadas ou tão somente árvores, termo tão redutor para algo tão belo.

É a solitária que, na avenida que vai da Ponte para Alcântara teima em florir todas as Primaveras. Vista lá de cima nada mais é, se isso não for tudo, que uma espectacular explosão de púrpura.

Transmitida em directo do Clube Recreativo Verde Atlantico da Sobreda de Caparica...

...o glamour, a acção, todo um Portugal de olhos postos nos ecrãs...
...mais uma cerimónia de atribuição dos Troféus Tamboril Dourado em Cataplana de Cobre Sobre Vidro Martelado...
...apresentado por Óscar Tobias J&B Adolfo Dias!!! (bater palmas como se não houvesse um amanhã)

(Óscar Romero e Felícia Cabrita segurando um envelope). E o Exm.º Juri presidido por Ondina Hepaminondas de Cunha e Sá Sotto Mayor, presidente da Comissão de Avaliação da Enésima Tentativa de Alcance do Recorde do Guiness de Empurrar uma Azeitona com o Nariz Durante Mais Quilómetros ditou:

Prémio Penteado Ridículo: Ex Aequo - Marante e todos (sem excepção) os Dzert
Prémio Cabeça Desproporcional ao Corpo: José Rodrigues dos Santos
Prémio Pior Vinho de Sempre e Por Ser o Mais Conhecido no Estrangeiro Deita Abaixo Qualquer Hipótese de Vingarmos no Mercado: Ex Aequo - Mateus Rosé e Porta da Ravessa
Prémio Embuste do Ano: Os The Gift e Secretos de Porco Preto
Prémio Gostas Mesmo de Passar Vergonhas ao Fim da Época: Os Indomáveis, do Sporting
Prémio Cara de Múmia do Tutankamon: Petit
Prémio Lembram-se do Aspecto dos Destroços do Cessna Onde Seguia o Sá Carneiro?: Sá Pinto
Prémio Bud Spencer: Jorge Costa
Prémio Pipi das Meias Altas: Liedson
Prémio Kalimero: Santana Lopes
Prémio Qualquer que Seja a Novela, Faço Sempre o Papel de Mim Próprio: Virgílio Castelo
Prémio A Mim Não Me Enganas, Minha Beta, Que És É Uma Loba A Abafá-los Com O Rabo: Serenetta Andrella
Prémio Tenho Fissuras No Ânus Mas Valeu A Pena: Paulo Portas
Prémio Bem Exprimido, o Meu Cabelo Dava Para Fritar Um Quilo De Batatas: Fernando Alvim
Prémio Sou Tão Cómico Como Um Filme Do Manuel de Oliveira: Nuno Markl
E Finalmente, Um Orangotango Paraplégico faz Melhor Figura Em Público: Bárbara Elias

Obrigado!